Planejada para abrigar 2 milhões de pessoas, a cidade bilionária King Abdullah Economic City custou mais de US$ 25 bilhões e hoje é uma das maiores cidades-fantasma do planeta.
Em meio às dunas do Mar Vermelho, uma das obras mais ambiciosas da história recente do Oriente Médio se transformou em um símbolo de silêncio e desperdício. Planejada para ser o “novo Dubai”, a King Abdullah Economic City (KAEC) surgiu em 2005, impulsionada pelo rei Abdullah bin Abdulaziz Al Saud como parte do plano saudita de diversificação econômica — um megaprojeto que prometia revolucionar o futuro urbano do país com tecnologia, sustentabilidade e luxo. Avaliada em mais de US$ 25 bilhões, a cidade ocuparia 181 quilômetros quadrados, com infraestrutura de ponta, o segundo maior porto do Reino e um parque industrial que geraria milhares de empregos. Mas, passados quase vinte anos, o que se vê é uma metrópole impecavelmente construída e quase desabitada.
O sonho de uma nova era urbana que prometia ser o “novo Dubai”
A proposta inicial era ousada: criar uma cidade modelo, moderna, global e livre da dependência do petróleo. A KAEC seria lar de 2 milhões de pessoas, com 250 torres residenciais, universidades internacionais, um gigantesco campo de golfe e avenidas à altura das grandes capitais mundiais.
Seu porto — o King Abdullah Port — foi projetado para ser um dos maiores e mais tecnológicos do planeta, capaz de movimentar 20 milhões de contêineres por ano, conectando a Arábia Saudita aos principais mercados da Ásia, Europa e África.
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No papel, o projeto reunia tudo que o Oriente Médio buscava: luxo, modernidade e inovação. A cidade seria abastecida por energia limpa, teria distritos inteligentes e abrigaria sedes de multinacionais. Além disso, contaria com conexões ferroviárias de alta velocidade com Meca, Medina e Jidá, fortalecendo seu papel como polo logístico e econômico.
O colapso silencioso do sonho bilionário
A realidade, porém, seguiu outro rumo. De acordo com reportagens da BBC, Bloomberg e The Guardian, a King Abdullah Economic City abriga atualmente menos de 10 mil habitantes — menos de 1% da população planejada.
As avenidas largas e bem pavimentadas raramente veem movimento; shoppings e hotéis operam com ocupação mínima; e boa parte dos edifícios residenciais e comerciais permanece vazia.
A cidade, projetada para simbolizar o futuro, hoje é conhecida internacionalmente como uma das maiores cidades-fantasma modernas.
Entre as causas do fracasso estão a falta de demanda real, a restrição de propriedade a estrangeiros e a queda no preço do petróleo em 2014, que reduziu os investimentos. Muitos analistas apontam que a cidade foi construída de cima para baixo — erguida antes que existisse uma população ou economia local capaz de sustentá-la.
O modelo especulativo levou a centenas de prédios concluídos, mas sem moradores, transformando a paisagem urbana em um cenário de silêncio e imensidão.
A vida em uma cidade quase vazia – King Abdullah Economic City
Em uma visita recente, repórteres da Bloomberg descreveram ruas limpas, jardins impecáveis e fachadas modernas, mas “um silêncio que ecoa”. Moradores relatam que, à noite, as luzes dos prédios se acendem automaticamente — não por ocupação humana, mas por sensores programados para dar a aparência de vida. Muitos dos apartamentos pertencem a investidores estrangeiros que jamais se mudaram para lá. O custo de vida, somado à distância de centros urbanos, afastou os cidadãos comuns.
Apesar disso, o porto de King Abdullah funciona plenamente e é um dos mais eficientes do Oriente Médio, movimentando milhões de toneladas por ano. O contraste é gritante: uma infraestrutura industrial de nível mundial cercada por bairros quase desabitados.
O retrato de um futuro que não chegou
Para muitos, a KAEC é o símbolo perfeito da transição saudita, o país que tenta se reinventar para além do petróleo, mas esbarra nas limitações de um modelo de urbanismo planejado sem base social.
O governo saudita ainda não desistiu do projeto: há incentivos fiscais para atrair empresas e planos de revitalização dentro da Vision 2030, programa de modernização nacional. Mas o ritmo é lento, e o desafio, gigantesco.
Mesmo com infraestrutura de primeira linha, praias artificiais e condomínios luxuosos, a cidade segue com poucos habitantes e um ar quase pós-apocalíptico. A “cidade do futuro” do deserto se tornou um espelho vazio, onde a engenharia venceu, mas a vida não chegou.
Hoje, a King Abdullah Economic City representa tanto a ambição de uma nova era quanto os perigos de sonhar grande demais. Assim como outros megaprojetos do Golfo, ela mostra que a engenharia pode mover montanhas ou mares, mas não é capaz de criar, sozinha, o tecido humano que dá sentido às cidades.
A paisagem monumental de torres, praças e avenidas continua de pé, refletindo o sol do deserto e o contraste entre o possível e o real.
Um monumento moderno à ideia de que nem toda cidade nasce para ser habitada — algumas nascem apenas para lembrar até onde o ser humano pode ir quando decide desafiar seus próprios limites.


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