Lago El’gygytgyn preserva 3,6 milhões de anos de clima no Ártico e mostra que o aquecimento atual ocorre em velocidade sem paralelo no registro geológico.
Segundo relatório publicado em 1º de março de 2011 na revista científica Scientific Drilling, o arquivo climático recuperado do Lago El’gygytgyn, na remota Chukotka, no nordeste da Sibéria, representa o registro sedimentar contínuo mais longo já obtido no Ártico terrestre, preservado em uma cratera de impacto formada há 3,6 milhões de anos e conhecida em traduções como o “lago que nunca descongela”.
A campanha internacional, apoiada pelo International Continental Scientific Drilling Program e com financiamento norte-americano da National Science Foundation, atravessou a cobertura de gelo do lago entre outubro de 2008 e maio de 2009, usando o próprio gelo como plataforma de perfuração, e avançou 517 metros abaixo do fundo do lago, atravessando toda a sucessão de 315 metros de sedimentos lacustres e recuperando cerca de 202 metros de rochas de impacto abaixo desse arquivo climático.
O material abriu uma janela rara para a evolução climática do Ártico desde o Plioceno médio, sem evidência de hiatos por glaciação ou dessecação, e reconfigurou profundamente o que a paleoclimatologia compreendia sobre o passado da região; o que ele revela sobre o presente é ainda mais perturbador.
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Impacto de meteorito criou cratera de 18 km e originou um dos arquivos paleoclimáticos mais completos do planeta
À latitude de 67°30′ norte, cerca de 100 quilômetros acima do Círculo Ártico, no centro da Península de Chukotka, no extremo nordeste da Rússia, existe um lago circular com 12 quilômetros de diâmetro e 170 metros de profundidade cuja origem não está associada a processos glaciais, fluviais ou vulcânicos.
O Lago El’gygytgyn foi formado quando um meteorito com aproximadamente 800 metros de diâmetro colidiu com a superfície terrestre há 3,6 milhões de anos, liberando energia equivalente a milhares de bombas nucleares e criando uma cratera de impacto com cerca de 18 quilômetros de diâmetro em rochas vulcânicas ácidas da região.
Esse evento geológico criou, de forma acidental, o repositório paleoclimático mais valioso do Ártico terrestre, resultado da combinação de três características únicas que garantiram a preservação contínua do registro sedimentar.
Ausência de glaciação preservou sequência contínua de sedimentos ao longo de mais de 40 ciclos glaciais
O primeiro fator crítico é que o lago nunca foi coberto por gelo de fundo ao longo dos últimos 3,6 milhões de anos. Durante esse período, que inclui mais de 40 ciclos glaciais completos, extensas massas de gelo cobriram grandes áreas da Sibéria, do Canadá e da Europa.
No entanto, as geleiras que avançaram pela região contornaram a cratera, sem invadi-la, possivelmente devido à sua profundidade e à geometria das elevações ao redor.
Essa ausência de glaciação impediu a perturbação do sedimento no fundo do lago, permitindo que cada ano depositasse uma nova camada sobre a anterior, criando uma sequência contínua e altamente organizada desde o momento do impacto até os dias atuais.
Estabilidade hídrica permanente preservou sinais químicos e biológicos do clima ao longo de milhões de anos
O segundo fator determinante é que o lago nunca secou. Diferentemente de outros sistemas árticos que variam entre períodos secos e cheios ao longo de milênios, o El’gygytgyn manteve volume de água constante.
Essa estabilidade garantiu a preservação de compostos químicos e biológicos nos sedimentos, incluindo isótopos, matéria orgânica, diatomáceas e grãos de pólen, em condições anaeróbicas que evitam a degradação dos registros climáticos.
Composição geológica da cratera permite identificar com precisão início do registro sedimentar
O terceiro fator é a natureza química da rocha formada pelo impacto. A composição distinta do substrato permite identificar com precisão o ponto exato onde o sedimento lacustre começa e onde a rocha original termina.
Essa fronteira geológica clara ancora a cronologia do registro em 3,6 milhões de anos com alta precisão, algo raro em estudos paleoclimáticos.
Perfuração de 315 metros de sedimentos revela ciclos climáticos com resolução anual nas camadas recentes
A perfuração realizada em fevereiro de 2009 utilizou o sistema GLAD800, operando continuamente em turnos de 24 horas durante várias semanas.
Cada metro de sedimento recuperado representa aproximadamente 11 mil anos de história climática. Nas camadas mais profundas, comprimidas ao longo do tempo, cada centímetro pode representar séculos, enquanto nas camadas mais recentes a resolução é anual.
Registro revela super-interglaciais com temperaturas até 5 °C acima dos períodos atuais
Os estudos iniciais identificaram a existência de períodos de aquecimento extremo conhecidos como super-interglaciais.
Durante esses intervalos, as temperaturas de verão no Ártico eram entre 4 °C e 5 °C superiores às registradas nos interglaciais mais quentes dos últimos 800 mil anos, com níveis de precipitação significativamente maiores.
Essas condições desafiam os modelos climáticos atuais, que não conseguem explicar completamente a intensidade desses episódios.
Ártico já foi coberto por florestas temperadas com níveis de CO₂ semelhantes aos atuais
O registro indica que, entre 3,6 e 2,2 milhões de anos atrás, o Ártico apresentava um ambiente radicalmente diferente do atual.
A região era coberta por florestas temperadas, com temperaturas de verão entre 4 °C e 8 °C superiores às atuais, enquanto os níveis de dióxido de carbono atmosférico eram comparáveis aos registrados hoje.
Esse dado sugere uma sensibilidade climática muito maior do que a prevista pelos modelos atuais. Ao longo do registro, as mudanças climáticas naturais ocorreram em escalas de milhares de anos.
Transições entre períodos glaciais e interglaciais levaram entre 5 mil e 20 mil anos para se completar. Mesmo eventos abruptos exigiram séculos.
Em contraste, o aquecimento observado nas últimas décadas ocorre em escala de décadas, sem equivalente no registro sedimentar completo.
Cratera também serve como modelo geológico para estudar impactos meteoríticos em Marte
O Lago El’gygytgyn possui composição geológica semelhante à de regiões da superfície de Marte. Formado em rochas vulcânicas ácidas, o local oferece um modelo único para estudar crateras de impacto em outros planetas, ampliando sua importância científica.
A combinação entre temperaturas elevadas no passado e a velocidade atual de aquecimento aponta para um cenário sem precedentes.
Os dados sugerem que o sistema climático pode estar entrando em um regime sem equivalente direto nos últimos milhões de anos.
Agora queremos saber: o Ártico está entrando em um cenário climático que nunca ocorreu na história recente da Terra?
O Lago El’gygytgyn fornece um dos registros mais completos já obtidos sobre o clima do Ártico.
Na sua visão, os dados indicam uma mudança reversível ou um ponto de transformação estrutural no sistema climático global?


Lá vem de novo a conversa do aquecimento que ninguém engole mais. Que saco. Os retard@dos não desistem.