Fragmento de pergaminho com versos do Livro 12 da Odisseia, datado de cerca de 300 d.C., foi reconhecido em Utrecht após décadas na coleção; peça mede 6,6 por 7,7 cm e é uma de cerca de 30 conhecidas.
Um pedaço de pergaminho manchado, rasgado e pouco maior que um cartão passou décadas no acervo da Universidade de Utrecht sem revelar o que realmente era. Quando o especialista em literatura grega Mark de Kreij examinou as letras minúsculas, reconheceu palavras típicas de Homero e descobriu que segurava um fragmento da Odisseia escrito há cerca de 1.700 anos.
A peça mede aproximadamente 6,6 por 7,7 centímetros, tem escrita dos dois lados e foi datada do século III ou IV d.C. Segundo a Universidade de Utrecht, o manuscrito fazia parte de uma pequena edição em códice da Odisseia produzida por volta de 300 d.C., provavelmente no oásis de Fayum, no Egito.
O que torna o achado ainda mais raro é a quantidade conhecida desse tipo de material. A universidade afirma que existem apenas cerca de 30 fragmentos comparáveis da Odisseia dessa época em todo o mundo. O pedaço identificado em Utrecht preserva versos do Livro 12, justamente um dos trechos mais dramáticos da viagem de Odisseu.
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Fragmento passou anos entre manuscritos cristãos e chegou a ser tratado como texto do século VII
A história do objeto dentro da biblioteca começou muito antes de sua identificação. Em meados do século XX, a Universidade de Utrecht comprou dos herdeiros do estudioso alemão Carl Schmidt uma coleção de manuscritos cristãos antigos. A maior parte era escrita em copta, língua egípcia registrada com alfabeto grego, mas o conjunto também continha papiros e outros textos em grego.
No meio desse material estava o pequeno pergaminho escurecido e danificado. A peça chegou a ser considerada um fragmento pouco importante do século VII. A aparência discreta e o estado de conservação ajudaram a mantê-la fora do radar até o projeto recente de estudo e publicação das coleções antigas da universidade.
De Kreij, pesquisador ligado à Radboud University e especialista em grego e papirologia, percebeu que algumas palavras presentes na folha eram características dos poemas homéricos. A checagem linha por linha mostrou que o texto correspondia ao Livro 12 da Odisseia, mudando completamente a interpretação do objeto e recuando sua datação em vários séculos.

A identificação foi feita cerca de dois anos antes do anúncio público de setembro de 2026. O fragmento sobreviveu por séculos e depois permaneceu preservado dentro de uma coleção universitária, onde sua verdadeira origem ficou escondida até a nova análise filológica.
Trecho registra o momento em que Helios descobre que os homens de Odisseu comeram seu gado sagrado
O pedaço não preserva um trecho qualquer. Ele registra o ponto em que Helios, o deus Sol, descobre que os companheiros de Odisseu mataram e comeram seu gado sagrado, apesar das advertências anteriores. A transgressão provoca a reação divina e leva à destruição do navio e da tripulação, deixando Odisseu como único sobrevivente.
Esse episódio encerra a longa narrativa em que Odisseu conta aos feácios os acontecimentos de sua viagem desde Troia. Antes dele, o herói já havia enfrentado os lotófagos, o ciclope Polifemo, Circe, Cila e Caríbdis. A perda definitiva dos companheiros marca o ponto mais baixo de sua jornada antes do retorno a Ítaca.
A Universidade de Utrecht identifica o manuscrito como Utrecht Gr. Ms. B6.39a. A instituição explica que a página fazia parte de uma edição compacta da obra, comparável em escala a um livro portátil moderno. Isso indica que a Odisseia circulava não apenas em grandes manuscritos de prestígio, mas também em formatos menores destinados à leitura individual.
O provável local de origem adiciona outro elemento à história. Pesquisadores situam o códice no oásis de Fayum, no Egito romano, região que preservou uma enorme quantidade de papiros e textos antigos graças às condições ambientais. Um leitor de cerca de 300 d.C. poderia ter carregado consigo uma versão portátil de um poema composto muitos séculos antes.

Achado ajuda a mostrar como a Odisseia continuava popular mais de mil anos antes dos livros impressos
Homero provavelmente compôs a Odisseia entre os séculos VIII e VII a.C., muito antes do fragmento encontrado em Utrecht. Ainda assim, a presença do texto em um pequeno códice de aproximadamente 300 d.C. mostra que a obra continuava sendo copiada, lida e transportada durante a Antiguidade Tardia.
O material também registra uma transformação importante na história dos livros. Naquele período, leitores do mundo romano estavam deixando progressivamente os rolos e adotando o códice, formato de páginas encadernadas que se tornaria ancestral direto do livro moderno. O fragmento de Utrecht pertence justamente a essa fase de transição.
A identificação ganha peso porque não veio de uma escavação nova, mas de um acervo que já estava guardado havia décadas. Bibliotecas e coleções universitárias ainda mantêm milhares de documentos antigos cujo conteúdo pode mudar de significado quando são reexaminados com novas perguntas, especialistas e técnicas de catalogação.
O estudo completo dos textos greco-romanos da coleção de Utrecht deverá aparecer em uma publicação acadêmica dedicada ao conjunto. Até lá, o fragmento da Odisseia permanece como a peça mais chamativa dessa revisão: um pedaço de apenas alguns centímetros que atravessou cerca de 17 séculos e voltou a ser reconhecido por causa de algumas palavras gregas quase perdidas no pergaminho.
Para quem acompanha arqueologia e história dos livros, a descoberta deixa uma pergunta inevitável: quantos outros textos raros ainda podem estar guardados em coleções antigas sem terem sido corretamente identificados? Comente o que você acha e compartilhe esta matéria com quem gosta de descobertas históricas.
