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O Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos com até R$ 7 bilhões em incentivos, um fundo garantidor de R$ 2 bilhões e um conselho ligado à Presidência, e o texto seguiu direto para sanção

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 05/09/2026 às 16:48 Atualizado em 05/09/2026 às 16:50
O Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos com até R$ 7 bilhões em incentivos, um fundo garantidor de R$
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O Senado aprovou por votação simbólica a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê até R$ 7 bilhões em incentivos, cria um fundo garantidor com R$ 2 bilhões da União e um conselho ligado diretamente à Presidência da República, e o texto seguiu para sanção.

A votação aconteceu em 2 de setembro. O relator foi o senador Eduardo Braga, do MDB do Amazonas, e o texto aprovado manteve o que havia passado pela Câmara em maio, com ajustes apenas de redação.

Segundo a Agência Senado, o PL 2.780/2024 institui quatro estruturas de uma vez, e é aí que está o conteúdo real da proposta.

O que a lei cria

A primeira estrutura é a própria política nacional, a PNMCE, que dá moldura jurídica ao tema e define o que o Estado considera mineral crítico ou estratégico.

A segunda é o Fundo Garantidor da Atividade Mineral, o FGAM, que recebe R$ 2 bilhões da União. Fundo garantidor não financia diretamente: ele cobre risco, permitindo que o banco empreste a um projeto que sozinho não conseguiria crédito.

A terceira é o CIMCE, o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, ligado à Presidência da República. A posição no organograma não é detalhe: conselho vinculado ao Planalto atravessa ministérios em vez de depender de um só.

O Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos com até R$ 7 bilhões em incentiv — imagem 1

A quarta é o Certificado Mineral de Baixo Carbono, instrumento que atesta a pegada de emissão da produção. Ele existe porque o comprador europeu e asiático de mineral crítico já cobra esse rastreamento na hora de fechar contrato.

Como os R$ 7 bilhões se dividem

O valor total anunciado não é um cheque único. Ele se reparte em duas destinações bem distintas.

São R$ 2 bilhões para o fundo garantidor e R$ 5 bilhões voltados a beneficiamento e transformação mineral. Essa segunda parcela revela a intenção central do projeto.

O Brasil hoje exporta minério e importa o produto feito com ele. Extrair é a etapa que menos agrega valor na cadeia; beneficiar, transformar e industrializar é onde o dinheiro fica. Direcionar cinco dos sete bilhões para essa ponta é uma escolha explícita.

O Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos com até R$ 7 bilhões em incentiv — imagem 2

Há também um mecanismo de contribuição do próprio setor. Por seis anos, 0,2% da receita operacional bruta vai para o fundo garantidor e 0,3% para pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Passado esse período, o percentual destinado ao fundo pode ser redirecionado para pesquisa, somando 0,5% aplicados em conhecimento. É um desenho que troca capitalização inicial por capacidade técnica de longo prazo.

Mineração urbana e o relógio da pesquisa

Dois pontos do texto costumam passar despercebidos e valem destaque. O primeiro é a chamada mineração urbana.

A proposta trata da recuperação de componentes estratégicos a partir de resíduo eletrônico, baterias descartadas, veículos no fim da vida útil e entulho de construção. Um celular velho contém metais que também são extraídos de mina, e recuperá-los custa menos do que abrir uma nova frente.

O Senado aprovou a Política Nacional de Minerais Críticos com até R$ 7 bilhões em incentiv — imagem 3

O segundo ponto é um prazo: a autorização de pesquisa mineral passa a ter limite máximo improrrogável de dez anos. Hoje é comum área ficar travada por prorrogações sucessivas, sem que o titular pesquise de fato nem devolva o direito.

Esse tipo de trava é o que impede que uma área com potencial chegue a quem quer investir. Colocar um limite duro força a decisão: ou pesquisa e apresenta resultado, ou libera a área.

O texto ainda prevê normas de leilão para áreas com potencial de minerais críticos e a criação de uma rede nacional de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e formação profissional.

Olhando assim, o que foi aprovado é mais arquitetura institucional do que dinheiro. Conselho, fundo, certificado e regra de prazo são peças que só funcionam se a regulamentação vier rápida e bem feita.

É justamente aí que mora o risco. Lei que cria conselho ligado à Presidência e fundo bilionário depende de decreto, de nomeação e de orçamento efetivamente liberado para sair do papel, e essa parte não se resolve com votação simbólica.

Vale explicar por que esses minerais ganharam o adjetivo de críticos. A classificação não vem da raridade geológica, e sim da combinação entre uso indispensável em tecnologia e concentração da oferta em poucos países.

Lítio, cobalto, grafite, nióbio, terras raras e cobre entram nessa lista porque sustentam bateria, motor elétrico, turbina eólica, semicondutor e equipamento de defesa. Sem eles, não há transição energética nem indústria de ponta.

O Brasil ocupa posição incomum nesse mapa. O país detém reservas relevantes de vários desses minerais e lidera mundialmente em nióbio e grafite, mas exporta a maior parte com pouco beneficiamento.

É essa assimetria que a lei tenta corrigir.

Há também um componente geopolítico difícil de ignorar. O processamento global desses minerais está concentrado na China, o que fez Estados Unidos e União Europeia correrem atrás de fornecedores alternativos nos últimos anos.

Nesse contexto, o Certificado Mineral de Baixo Carbono deixa de ser detalhe burocrático. Ele é o documento que permite ao produtor brasileiro disputar contrato com comprador que exige rastreabilidade ambiental, e essa exigência já está escrita na regulação europeia.

Além disso, convém acompanhar o que vem depois da sanção. Conforme o texto aprovado, o conselho precisa ser instalado, o fundo precisa ser capitalizado e os critérios de acesso ao incentivo precisam de regulamentação.

Portanto, o prazo entre a lei e o primeiro projeto financiado pode ser longo. Em seguida, será preciso verificar se o orçamento previsto se converte em desembolso efetivo, ponto em que várias políticas industriais brasileiras travaram no passado.

Dessa forma, o indicador a observar não é a sanção em si. Durante os próximos meses, o que dirá se a política funciona é o decreto de regulamentação e a nomeação dos integrantes do conselho ligado à Presidência.

O Brasil consegue deixar de ser só exportador de minério bruto ou vamos repetir a história com lítio e terras raras?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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