Em 2025, a Bahia volta a liderar os índices de violência letal no Brasil, com mil homicídios em apenas três meses e sucessivas chacinas nas periferias. Especialistas alertam para o avanço de facções que ocupam o vazio deixado pelo Estado e reabrem o debate sobre risco de um narcoestado no país.
A crise de segurança pública na Bahia chegou a um ponto crítico em 2025. Dados oficiais do Ministério da Justiça mostram que 1.018 pessoas foram assassinadas apenas no primeiro trimestre do ano, mantendo o estado na liderança nacional de homicídios dolosos.
Ao mesmo tempo, os números consolidados de 2023 revelam um cenário estrutural. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, a Bahia registrou 6.578 mortes violentas intencionais, o que representa uma taxa de 46,5 mortes por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional.
Por trás das estatísticas, há territórios onde facções armadas impõem toques de recolher, cobram taxas de “segurança” e resolvem conflitos no chamado “tribunal do crime”. Para muitos moradores de periferias, o crime organizado passou a oferecer proteção, renda e uma espécie de justiça, onde o poder público não chegou de forma efetiva.
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Nesse contexto, cresce entre especialistas e autoridades o temor de que a Bahia esteja diante de um embrião de narcoestado, conceito associado a regiões em que grupos criminosos controlam território, economia local e, em alguns casos, até decisões políticas.
Explosão de homicídios e chacinas escancara colapso da segurança
Os mais de 1.000 homicídios em três meses são parte de uma trajetória de décadas de aumento da violência letal no estado. Entre 1981 e 2021, o número de homicídios na Bahia cresceu mais de 1.300 por cento, segundo séries históricas compiladas por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Em 2023, a Bahia não só liderou o número absoluto de mortes violentas como superou, sozinha, a soma de estados muito mais populosos, como São Paulo e Minas Gerais. Das dez cidades com maiores taxas de mortes violentas do país, seis são baianas, incluindo Jequié, Simões Filho, Feira de Santana, Juazeiro e Eunápolis, todas com índices acima de 70 mortes por 100 mil habitantes.
Outro indicador que ajuda a dimensionar o colapso são as chacinas, episódios com três ou mais civis mortos a tiros na mesma ocorrência. Levantamento do Instituto Fogo Cruzado aponta que, desde 2022, foram registradas 63 chacinas em Salvador, sendo 46 em operações policiais, o que faz da capital baiana a cidade com mais registros do tipo em todo o estado.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em março de 2025, no bairro de Fazenda Coutos, em Salvador. Uma operação policial terminou com 12 mortos após mais de sete horas de confronto, paralisação do transporte público e moradores trancados em casa com medo, cenário que organizações de direitos humanos classificaram como típico de zona de guerra urbana.
Letalidade policial recorde e avanço das facções criminosas
A crise baiana também se expressa na letalidade policial. Em 2023, 1.699 pessoas morreram em ações policiais no estado, maior número absoluto entre todas as unidades da federação e uma taxa de cerca de 12 mortes por 100 mil habitantes, uma das mais altas do país.
Relatórios do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Observatório de Favelas mostram que a Bahia figura entre os estados com polícia mais letal, com forte impacto sobre jovens negros de periferia. Para especialistas, isso é resultado de um modelo baseado na guerra às drogas, enfrentamento armado e encarceramento em massa, com pouca ênfase em prevenção e inteligência.
Nesse terreno, facções criminosas encontraram espaço para se expandir. Estudo citado pela Gazeta do Povo mostra que o Nordeste concentra 46 das quase 90 facções mapeadas no país, sendo 21 atuando na Bahia, muitas ligadas ou aliadas a grupos como PCC e Comando Vermelho.
Essas organizações passaram a disputar rotas estratégicas de tráfico, aproveitando a posição da Bahia, que reúne portos, rodovias e aeroportos usados para escoar drogas para outras regiões do Brasil e para o exterior. Pesquisadores em segurança pública apontam que a ausência de estrutura policial no interior e a precariedade de serviços públicos em áreas periféricas criam um cenário ideal para o domínio criminal.
Bairros sob domínio do crime e impacto na vida e na economia
Nas periferias de Salvador, como Tancredo Neves, Águas Claras, Fazenda Coutos, Baixa de Quintas e Pero Vaz, relatos de moradores indicam controle rígido de circulação, cobrança de “pedágio” para comerciantes e decisões importantes condicionadas à autorização da facção local.
Casos de toque de recolher imposto por criminosos, festas “autorizadas” por líderes do tráfico e “julgamentos” informais em tribunais do crime passaram a fazer parte do cotidiano. Nesses territórios, recorrer à polícia é muitas vezes visto como arriscado ou inútil, o que reforça a percepção de que o Estado não tem mais o controle efetivo.
O impacto também é econômico. Empresários de bairro relatam redução de horário de funcionamento, cancelamento de investimentos e fuga de clientes por medo de tiroteios e operações policiais. Dados do Anuário de Segurança e de entidades empresariais indicam que violência elevada afasta negócios, reduz geração de empregos e trava o desenvolvimento local, criando um ciclo de pobreza e insegurança.
Especialistas em criminologia afirmam que, ao ocupar esse espaço, as facções passam a oferecer uma combinação de proteção, renda, pertencimento e uma espécie de “justiça rápida” a jovens sem acesso a trabalho formal, lazer e serviços públicos. Isso confere a esses grupos uma legitimidade perigosa em comunidades historicamente negligenciadas pelo poder público.
Estado reage com tecnologia, mas debate sobre narcoestado e “modelo Bukele” cresce
Diante da pressão da opinião pública e de episódios de grande repercussão, o governo baiano promoveu mudanças na cúpula da segurança, com troca de comando da Polícia Militar, Bombeiros e Polícia Civil, além de lançar operações como a Força Total, com reforço de efetivo nas ruas.
Paralelamente, a Secretaria de Segurança Pública intensificou o uso de reconhecimento facial e videomonitoramento. Somente em 2025, o sistema de câmeras inteligentes já contribuiu para centenas de prisões, ultrapassando a marca de 900 capturados até maio, segundo a SSP e reportagens da CNN Brasil.
Ao mesmo tempo, a Bahia aderiu a projetos nacionais de câmeras corporais e qualificação do uso da força, com recursos do Ministério da Justiça, que defende a modernização policial baseada em evidências e preservação da vida.
Apesar dessas iniciativas, organizações de direitos humanos alertam para riscos de discriminação algorítmica e prisões equivocadas, já observadas em casos de reconhecimento facial aplicado no estado, especialmente contra pessoas negras.
Enquanto isso, cresce no Brasil o debate sobre o chamado “modelo Bukele”, inspirado nas políticas de encarceramento em massa adotadas em El Salvador e elogiadas por lideranças políticas que defendem endurecimento máximo no combate ao crime organizado.
Analistas ouvidos por universidades e veículos especializados, porém, lembram que esse caminho vem sendo questionado por organismos internacionais, que apontam denúncias de prisões arbitrárias, violações de direitos e superlotação extrema de presídios. Para esses especialistas, copiar fórmulas de exceção pode reduzir homicídios no curto prazo, mas tende a aprofundar desigualdades e manter o ciclo de violência no longo prazo.
Na avaliação de pesquisadores em segurança pública, a saída para a Bahia passa por políticas de prevenção, presença contínua do Estado em territórios vulneráveis, geração de emprego e renda, além de uma reforma profunda do modelo policial e do sistema penitenciário. Sem isso, alertam, o estado corre o risco de consolidar áreas inteiras sob comando de facções, característica central de um narcoestado em formação.
No fim, a Bahia de 2025 revela um território em disputa entre o poder público e o crime organizado, mas também entre visões opostas de segurança: uma mais punitivista e outra focada em prevenção e direitos. A forma como essa disputa será resolvida terá impacto direto não só sobre os baianos, mas sobre o futuro da segurança pública em todo o Brasil.
A partir desse cenário, você acha que a Bahia já vive algo próximo de um narcoestado ou considera o termo exagerado, mesmo diante dos números? Na sua opinião, o caminho deve ser um “modelo Bukele” mais duro ou uma mudança estrutural que ataque as causas sociais da violência? Deixe seu comentário.

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