O leite cru pago ao produtor caiu 5% em setembro, para R$ 2,76 por litro na média nacional. Leite UHT, muçarela e leite em pó também recuaram no atacado, enquanto ração mais cara e importações pressionam as fazendas.
O mesmo litro de leite que rende menos dinheiro na fazenda está no centro de uma disputa entre produção maior, importações crescentes e custos de alimentação do rebanho em alta. Em setembro de 2026, o preço médio do leite cru captado por laticínios e cooperativas brasileiras caiu 5% em relação a agosto e chegou a R$ 2,76 por litro, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, divulgado em 30 de outubro. Na outra ponta da cadeia, leite de caixinha, muçarela e leite em pó também perderam valor nas negociações atacadistas de São Paulo.
Para os consumidores, os movimentos no atacado podem abrir espaço para negociações mais baratas em supermercados. Para os produtores, a conta ficou mais apertada: o custo operacional da pecuária leiteira cresceu 0,46% em setembro, puxado principalmente pelos alimentos concentrados fornecidos às vacas. Com mais leite disponível e despesas avançando, fazendas precisam equilibrar o volume produzido com o dinheiro recebido por cada litro entregue.
Preço do leite nas fazendas cai para R$ 2,76, enquanto a produção volta a crescer
O recuo ocorreu em um período de recuperação sazonal da oferta. O Índice de Captação de Leite (ICAP-L), acompanhado pelo Cepea, registrou aumento de 2,16% de agosto para setembro na chamada “Média Brasil”. Esse indicador acompanha a quantidade de leite cru recolhida por laticínios e cooperativas nas regiões pesquisadas.
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Com mais matéria-prima chegando às indústrias, compradores passaram a negociar em um mercado mais abastecido. A recuperação da produção ganhou destaque no Sudeste, enquanto o Sul já havia ampliado sua oferta nos meses anteriores. O movimento cria maior concorrência entre fornecedores e enfraquece a sustentação dos preços da matéria-prima.
A metodologia do Cepea ajuda a entender o número divulgado: a pesquisa considera o leite cru integral refrigerado negociado entre produtores e indústrias ou cooperativas. A “Média Brasil” é ponderada pelos volumes comercializados, e os preços líquidos são apresentados por litro, sem frete e impostos. Os dados se referem ao mês em que o leite foi captado, independentemente da data do pagamento.
Em agosto, a média líquida nacional havia sido de aproximadamente R$ 2,89 por litro. Em setembro, a pesquisa apontou R$ 2,76. Para uma propriedade que entregue 10 mil litros em um mês, a diferença de aproximadamente 13 centavos por litro equivale a cerca de R$ 1.300 de receita bruta a menos no mesmo volume vendido. O cálculo mostra a dimensão que uma variação aparentemente pequena pode assumir ao longo de várias entregas, antes de considerar as despesas da fazenda.

Leite de caixinha, muçarela e leite em pó também ficaram mais baratos no atacado
A queda atravessou diferentes etapas da cadeia. Na pesquisa realizada pelo Cepea com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), os preços negociados no atacado paulista recuaram em setembro: 4,76% para o leite longa vida (UHT), 4,38% para o leite em pó fracionado e 2,77% para a muçarela, na comparação com agosto.
O leite UHT é o produto processado que o consumidor normalmente encontra em caixas de um litro. Já a muçarela e o leite em pó dependem de outras etapas industriais, com transformação da matéria-prima, embalagem, estocagem e distribuição. As quedas simultâneas indicam que a pressão sobre os preços chegou a diferentes segmentos do mercado lácteo.
Em levantamento publicado no Boletim do Leite do Cepea, reproduzido pela GuiaLat, a média atacadista do UHT em setembro ficou em R$ 4,69 por litro, e a muçarela foi negociada a aproximadamente R$ 34,91 por quilo. Essas são cotações do atacado, negociadas entre empresas, e ajudam a acompanhar a dinâmica dos produtos que depois chegam ao varejo.
O movimento continuou na primeira metade de outubro. Até o dia 15, o levantamento mostrava novas retrações parciais de 2,32% no leite UHT e de 2,05% na muçarela no Sudeste. Para supermercados, essas negociações ampliam a possibilidade de comprar mercadorias por valores menores à medida que contratos e estoques são renovados.
Por que o preço pago pela indústria não chega igual à prateleira do supermercado
Entre a propriedade rural e a compra feita pela família existem despesas com resfriamento, coleta, transporte, processamento, embalagem, tributos, armazenagem e distribuição. O leite refrigerado comprado por um laticínio passa por tratamentos industriais antes de se transformar no leite longa vida vendido ao consumidor.

O valor do leite cru pago ao produtor e o preço do leite UHT no atacado também correspondem a produtos e etapas diferentes. A cotação do varejo acrescenta as condições comerciais de cada rede, a logística, os estoques e a margem de venda. Por isso, os percentuais de queda registrados pelo Cepea são úteis para acompanhar a direção do mercado, enquanto cada supermercado atualiza seus preços conforme suas compras e estratégias.
O consumidor pode observar esse processo comparando o mesmo produto, marca e volume em semanas diferentes. Promoções pontuais, compras em grandes quantidades e diferenças entre regiões podem produzir ofertas distintas, mesmo quando o atacado segue uma tendência de queda mais ampla.
Brasil importou o equivalente a 249,6 milhões de litros de leite em um único mês
O mercado interno recebeu uma parcela crescente de produtos do exterior. De agosto para setembro, as importações brasileiras de lácteos avançaram 8,38% e atingiram 249,6 milhões de litros em equivalente-leite, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) analisados pelo Cepea.
O termo “equivalente-leite” converte produtos como queijos e leite em pó em uma medida comum para comparação econômica. Essa quantidade expressa o leite necessário à produção dos itens negociados, permitindo acompanhar o volume de matéria-prima correspondente às importações. A oferta adicional aumenta a concorrência para indústrias e produtores nacionais.
As exportações brasileiras de lácteos também cresceram, mas em escala bem menor. Foram 5,57 milhões de litros em equivalente-leite, avanço de 6,05% sobre agosto. As compras externas superaram amplamente as vendas internacionais, e o déficit da balança comercial de lácteos aumentou 8,4% no período, de acordo com os dados compilados pelo Cepea.
Leite em pó e queijos figuram entre os itens importados que disputam mercado com a produção brasileira. Esses produtos podem chegar às indústrias e redes de distribuição enquanto a captação nacional também se recupera, ampliando as alternativas de compra e influenciando a formação dos preços negociados com os produtores.
Enquanto o leite cai, milho, soja e farelo encarecem a alimentação das vacas
O produtor enfrenta a pressão inversa do lado das despesas. Segundo o Cepea, o Custo Operacional Efetivo (COE) da pecuária leiteira aumentou 0,46% em setembro na “Média Brasil”. Um dos principais responsáveis foi o grupo de concentrados, cuja alta chegou a 0,84% no mês.
Concentrados são componentes da alimentação do rebanho que complementam volumosos, como pastagens e silagens, oferecendo energia e proteína. Entre os insumos usados estão milho, soja e farelo de soja, que apresentaram valorização no período. Para sistemas de produção que dependem desses ingredientes, a elevação dos preços pode pressionar o custo diário de manter vacas em lactação.
Essa diferença entre receita e despesa altera decisões nas propriedades. O criador precisa continuar ordenhando, refrigerando e entregando o leite, ao mesmo tempo que compra alimentação, paga energia elétrica, mantém equipamentos e organiza o atendimento veterinário. A dimensão do impacto varia conforme a produtividade das vacas, a quantidade de ração adquirida e a estrutura de cada fazenda.
O movimento aparece também em levantamentos setoriais que antecederam o dado fechado de setembro. Em reportagem de 26 de outubro, o Notícias Agrícolas já registrava enfraquecimento dos negócios entre indústrias e pressão sobre a remuneração do produtor em meio à maior disponibilidade de leite e ao custo de alimentação.
A média nacional esconde diferenças entre fazendas e regiões produtoras
O preço médio de R$ 2,76 serve como referência para entender o movimento da cadeia brasileira, mas o valor recebido por cada produtor depende da região, do volume entregue, da qualidade do leite e das condições contratuais. Cooperativas e laticínios remuneram fornecedores de formas diferentes, e a escala de produção também pode influenciar os gastos por litro.
Fazendas com maior eficiência de alimentação, manejo e logística podem enfrentar os movimentos de preço de maneira diferente das propriedades que precisam comprar grandes quantidades de insumos ou transportar o leite por longas distâncias. Por esse motivo, acompanhar apenas o valor por litro deixa de fora uma parte essencial da conta rural: quanto custa produzir cada unidade.
No indicador nacional, setembro de 2026 ainda apresentou preço 8,31% superior ao de setembro de 2025 em termos reais, segundo o Cepea, após correção pela inflação medida pelo IPCA. A comparação anual ajuda a situar a cotação dentro de um ciclo mais longo, enquanto a retração mensal mostra a nova pressão que se formou com a ampliação da oferta.
O que o Cepea espera para os próximos meses do mercado de leite
Na análise divulgada em 30 de outubro, o Cepea avalia que a recuperação sazonal da produção, as importações elevadas e a menor sustentação dos derivados podem continuar pressionando a remuneração dos produtores. A intensidade dependerá do ritmo de captação, das compras internacionais e da capacidade de consumo do mercado interno.
O clima também entra na conta. Pesquisadores consideram que possíveis efeitos do El Niño sobre condições de produção e disponibilidade de pastagens poderão limitar a expansão da oferta em etapas seguintes. Alterações de chuva e temperatura influenciam o desenvolvimento das forrageiras, o conforto térmico dos animais e a necessidade de suplementação alimentar.
Para famílias que compram leite de caixinha e queijos, vale acompanhar os preços nas próximas compras. Para quem produz, a atenção está na relação entre o valor recebido pelo litro, a alimentação das vacas e os demais custos da propriedade. O retrato de setembro reúne esses dois lados da mesma cadeia: leite cru a R$ 2,76, derivados em queda no atacado e a ração pressionando o orçamento das fazendas.
