Casco enferrujado e mastro quebrado voltaram a emergir perto de Prahovo, onde forças alemãs afundaram uma frota em 1944 para impedir sua captura pelos soviéticos; oito décadas depois, parte das embarcações ainda guarda munições e interfere na navegação de uma das principais hidrovias da Europa
A forte queda do nível do rio Danúbio voltou a revelar em 2026 uma lembrança da Segunda Guerra Mundial que permanece no fundo da água há mais de oito décadas. Perto de Prahovo, na Sérvia, o casco enferrujado e o mastro quebrado de uma antiga embarcação militar alemã ficaram novamente expostos conforme o rio recuou.
O navio faz parte de uma extensa área de destroços deixada pela retirada alemã em 1944. Centenas de embarcações foram deliberadamente afundadas para impedir que fossem capturadas pelo avanço das forças soviéticas.
Segundo reportagem da Deutsche Welle publicada pelo UOL em 5 de agosto de 2026, algumas dessas embarcações ainda podem conter armamentos e explosivos. A redução excepcional do nível do Danúbio tornou partes dos destroços novamente visíveis, repetindo uma situação registrada na mesma região em 2024.
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O reaparecimento chama atenção pelas imagens incomuns, mas o problema vai muito além dos navios enferrujados. Os destroços ocupam uma área estratégica da hidrovia, dificultam a passagem de embarcações e tornam qualquer operação de retirada especialmente delicada.
Os navios não naufragaram em combate e foram afundados pela própria Alemanha durante a retirada de 1944
Nos meses finais da ocupação alemã nos Bálcãs, o avanço do Exército Vermelho colocou as forças alemãs estacionadas na região sob pressão. Sem condições de retirar toda a frota pelo Danúbio, os próprios alemães decidiram mandar parte dos navios para o fundo.
O Banco Europeu de Investimento informa que aproximadamente 200 embarcações foram afundadas na região durante a Segunda Guerra Mundial. A ação fazia parte da retirada alemã e ficou conhecida como Operação Danube Elf, realizada para impedir que os navios fossem capturados e utilizados pelas forças soviéticas.
Muitos desses destroços permaneceram sob água, lama e sedimentos durante décadas. Quando o nível do Danúbio cai de maneira acentuada, partes de cascos, mastros, torres e outras estruturas voltam a aparecer.
O fenômeno já havia chamado atenção internacional em setembro de 2024. Naquele momento, uma combinação de calor intenso e seca também expôs navios alemães em Prahovo, alguns ainda associados à presença de explosivos e munições.
Retirar os destroços exige lidar primeiro com munições e explosivos que podem permanecer dentro dos cascos
A Sérvia tenta resolver o problema com apoio financeiro europeu, mas simplesmente içar os navios para fora do Danúbio não é uma opção segura. Antes da remoção, equipes especializadas precisam localizar cada estrutura, avaliar suas condições e identificar possíveis explosivos.
A dimensão da operação explica a lentidão. O projeto apoiado pelo Western Balkans Investment Framework prevê a retirada de 21 embarcações consideradas prioritárias, capazes de eliminar um gargalo de aproximadamente cinco quilômetros no trecho do Danúbio próximo a Prahovo.
O investimento previsto chega a cerca de 29,7 milhões de euros, com aproximadamente 16,4 milhões de euros em recursos da União Europeia e outros 13,25 milhões de euros financiados pelo Banco Europeu de Investimento.
As primeiras remoções ocorreram em 2024. Naquele ano, duas embarcações foram retiradas durante o período de baixo nível da água, justamente porque a redução do Danúbio facilitou o acesso aos destroços. O trabalho continuou exigindo cuidado devido à possibilidade de materiais explosivos permanecerem no interior dos navios.
Em alguns pontos os destroços transformaram um canal de 180 metros em uma passagem com apenas 100 metros
Os navios afundados também criaram um problema de infraestrutura que atravessou gerações. No desfiladeiro de Djerdap, próximo à fronteira entre Sérvia e Romênia, a presença das embarcações reduz significativamente a área disponível para navegação.
O canal navegável chega a ter cerca de 180 metros de largura, mas os destroços podem diminuir a passagem útil para aproximadamente 100 metros em determinados pontos. Isso se torna ainda mais problemático quando o nível da água cai.
Navios comerciais precisam reduzir carga, navegar com maior cautela ou esperar condições adequadas para atravessar determinados trechos. Cruzeiros fluviais e outras embarcações de grande porte também enfrentam dificuldades para cruzar em sentidos opostos.
A localização agrava o impacto econômico. O Danúbio atravessa ou forma fronteiras de dez países e funciona como um corredor de transporte entre regiões industriais, agrícolas e portuárias da Europa Central e Oriental.
A mesma seca que expõe os navios também está reduzindo cargas e atingindo o abastecimento de energia
Em agosto de 2026, o problema deixou de ser apenas uma questão de arqueologia ou segurança da navegação. Os níveis extremamente baixos do Danúbio começaram a interferir diretamente no transporte de combustíveis e no funcionamento de instalações de energia.
Na Sérvia, barcaças e navios-tanque estavam operando com apenas 30% a 40% de sua capacidade normal em alguns trechos do Danúbio. As importações de combustíveis do país em julho ficaram em aproximadamente 25% da meta mensal, segundo informações da Reuters publicadas em 5 de agosto.
A situação também atingiu a Hungria. Em 7 de agosto, a usina nuclear de Paks, responsável por uma parcela significativa da eletricidade consumida no país e dependente da água do Danúbio para resfriamento, operava com apenas 10% de sua capacidade, enquanto autoridades aguardavam uma elevação temporária de cerca de 20 centímetros no nível do rio após chuvas na Áustria.
O transporte fluvial sofre pelo mesmo motivo. Quanto menor a profundidade disponível, menor precisa ser o peso levado por cada embarcação para evitar que o casco encoste no fundo, reduzindo a quantidade de mercadorias transportadas em cada viagem.
Baixo nível do Danúbio deixou de ser uma ocorrência rara e já preocupa autoridades responsáveis pela hidrovia
A recorrência dessas situações está levando os países atravessados pelo rio a rever a maneira como mantêm a navegação. Os navios da Segunda Guerra que reaparecem em Prahovo são uma consequência visível de um problema hidrológico muito mais amplo.
Em março de 2026, especialistas reunidos pela Comissão do Danúbio discutiram justamente períodos de baixo nível cada vez mais prolongados e maior volatilidade das condições do rio. Entre as medidas avaliadas estão dragagem, monitoramento do leito, levantamento de profundidade e manutenção dos canais navegáveis.
O Danúbio é o segundo rio mais longo da Europa e uma rota fundamental para cargas, turismo, abastecimento industrial e geração de energia. Quando seu nível despenca, estruturas que permaneceram escondidas durante décadas reaparecem, mas também surgem restrições imediatas para navios, portos e usinas.
Em Prahovo, o casco alemão exposto pela seca funciona como uma fotografia de dois períodos separados por 82 anos. Uma decisão militar tomada durante a retirada alemã em 1944 continua interferindo na navegação em 2026, enquanto a falta de água torna mais frequente o encontro da Europa atual com os destroços deixados pela guerra.
O que mais chama sua atenção nesse caso, o reaparecimento de um navio afundado há mais de oito décadas, a possibilidade de ainda existirem explosivos a bordo ou o impacto da seca sobre uma das principais rotas fluviais da Europa? Deixe sua opinião nos comentários e diga se esses destroços deveriam ser retirados integralmente do Danúbio ou preservados como parte da história da Segunda Guerra Mundial.

