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Mina de níquel no Pará ainda não produz, mas já vendeu cinco anos de produção prevista a gigantes estrangeiras; novos contratos somam US$ 900 milhões e projeto ainda depende de financiamento

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Escrito por Noel Budeguer Publicado em 28/10/2026 às 19:28 Atualizado em 28/10/2026 às 19:31
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Sem produzir uma tonelada, o Projeto Jaguar, no Pará, já comprometeu todo o concentrado de níquel previsto para os primeiros cinco anos com Glencore e CNGR, mas ainda precisa de financiamento e decisão final de investimento.

Uma mina de níquel que ainda não começou a produzir em São Félix do Xingu, no Pará, já tem sua produção prevista para os primeiros cinco anos comprometida com compradores internacionais. A Centaurus Metals anunciou em 28 de outubro de 2026 contratos com a Glencore e com a chinesa CNGR Advanced Material. O valor estimado das vendas dos dois novos acordos chega a US$ 900 milhões, embora ainda não exista produção comercial nem receita realizada.

A negociação vai além da compra de minério. Glencore e CNGR também se comprometeram a investir US$ 40 milhões no capital da Centaurus, que busca viabilizar o Projeto Jaguar na região mineral de Carajás. O anúncio amplia as garantias comerciais, mas não equivale à autorização para construir: o financiamento definitivo e a decisão final de investimento continuam pendentes.

A produção de cinco anos já foi prometida, mas não saiu do solo

Cada um dos contratos recém-assinados prevê a entrega mínima de 100 mil toneladas métricas secas de concentrado de níquel durante cinco anos. As parcelas anuais equivalem a 20 mil toneladas de concentrado para cada compradora. A negociação é sobre concentrado mineral, e não sobre metal de níquel refinado em volume equivalente.

A Glencore já tinha firmado um contrato anterior de 20 mil toneladas anuais, anunciado em março de 2026. Somados, os três acordos cobrem toda a produção de concentrado prevista para os primeiros cinco anos do Jaguar. A empresa estima que o conjunto corresponderá a aproximadamente 22,5 mil toneladas anuais de níquel contido, diferença essencial para não confundir toneladas de concentrado e toneladas do metal.

Sonda vermelha de perfuração mineral junto à mata e um trabalhador no Projeto Jaguar, no Pará
Equipamento de sondagem em área de pesquisa do Projeto Jaguar, no Pará, em registro anterior ao início da operação comercial. Crédito: Divulgação/Centaurus Metals.

O comunicado oficial à bolsa australiana esclarece que os dois novos contratos também preveem que volumes adicionais disponibilizados pela Centaurus sejam adquiridos pelas compradoras de maneira alternada. Dessa forma, o destino comercial do produto foi planejado antes da implantação da mina. As entregas, contudo, dependem de prazos e requisitos contratuais que ainda terão de ser cumpridos.

US$ 900 milhões representam contratos futuros, não dinheiro recebido

A estimativa de US$ 900 milhões refere-se às vendas líquidas previstas nos dois novos contratos ao longo de cinco anos, considerando as cotações atuais do níquel. Não é pagamento antecipado, faturamento registrado nem receita certa independentemente do mercado. Os valores efetivos dependerão do preço de referência e das quantidades que forem produzidas e entregues.

A fórmula de preços tem como base a cotação de liquidação do níquel na London Metal Exchange. A remuneração varia conforme as condições de mercado, e os compradores também pagarão por cobre e cobalto presentes como subprodutos no concentrado. Assim, os valores anunciados devem ser lidos como projeção baseada nas condições atuais, não como cifra já recebida pelo projeto paraense.

O primeiro semestre de 2029 é a previsão de início das entregas. Os contratos permitem que Glencore e CNGR os encerrem se o primeiro embarque não ocorrer até o fim daquele ano. O calendário coloca pressão sobre a decisão de construir e concluir as instalações necessárias para que o concentrado saia efetivamente da mina.

Aporte de US$ 40 milhões depende de novas aprovações

Os US$ 40 milhões anunciados são compromissos de investimento em ações da Centaurus, e não parte do valor das vendas futuras. Cada compradora concordou em aplicar US$ 20 milhões. O ingresso completo desses recursos depende de etapas determinadas nos acordos, portanto não deve ser apresentado como se todos os valores já estivessem disponíveis em caixa.

De acordo com a mineradora, cada empresa prevê investir US$ 12,5 milhões numa primeira fase. A segunda etapa, de US$ 7,5 milhões por empresa, exigirá aprovação de acionistas e decisão final de investimento no Projeto Jaguar. A participação da CNGR também depende das autorizações chinesas pertinentes ao investimento no exterior.

O comunicado da Centaurus afirma que as negociações de financiamento por dívida sênior estão avançadas, mas ainda não concluídas. O diretor-executivo Darren Gordon descreveu os acordos como uma validação comercial do Jaguar. A declaração deve ser entendida como a avaliação da própria companhia, interessada em captar capital e iniciar o desenvolvimento.

Projeto no Pará precisará de investimento pesado antes de começar

Segundo a documentação do Projeto Jaguar, o empreendimento reúne depósitos de sulfeto de níquel em uma área aproximada de 30 quilômetros quadrados. A Centaurus adquiriu o ativo da Vale em 2020. Em suas informações técnicas, a mineradora apresenta recursos minerais estimados em 138,2 milhões de toneladas de material, com teor médio de 0,87% de níquel.

Os estudos de engenharia divulgados pela empresa anteriormente estimavam investimento pré-operacional da ordem de US$ 380 milhões e vida inicial de 15 anos para uma mina a céu aberto. Essas projeções ajudam a dimensionar os recursos necessários, mas não indicam que a quantia tenha sido integralmente aplicada. Para explorar e beneficiar o minério, a empresa ainda precisa executar etapas complexas de implantação.

Vista aérea de instalações de apoio e veículos cercados por vegetação na área do Projeto Jaguar
Vista aérea das instalações de apoio do Projeto Jaguar, no Pará, em fotografia de arquivo de 2024. Crédito: Centaurus Metals.

O níquel é utilizado em diferentes cadeias industriais, especialmente na produção de aço inoxidável e em certos tipos de bateria. A CNGR atua na fabricação de materiais avançados ligados a baterias, enquanto a Glencore participa da mineração, do processamento e do comércio global de commodities. O interesse desses grupos explica a dimensão internacional que um projeto localizado no interior paraense pode atingir.

Contratos internacionais ainda precisam se transformar em extração real

Para São Félix do Xingu, o anúncio confirma compradores e potenciais investidores, mas não comprova geração imediata de empregos, recolhimento de tributos ou exportações da nova mina. Esses impactos dependem de contratação, construção e produção efetivas. O avanço comercial é um marco do projeto, não um atestado de operação já iniciada.

O próximo passo é a Centaurus concluir seu pacote financeiro e deliberar formalmente sobre o investimento. Se as etapas ocorrerem no prazo, os embarques poderão começar em 2029. Até lá, os US$ 900 milhões continuarão representando a expectativa de receita de duas vendas futuras, enquanto o desafio concreto será tirar a mineração do papel.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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