Novas terapias ampliam chances de cura e qualidade de vida, mas desafios estruturais ainda impedem que avanços científicos beneficiem todas as pacientes de forma igualitária
Durante décadas, falar em câncer de mama ou em tumores ginecológicos significava tratar diferentes doenças como se fossem uma só. No entanto, esse cenário mudou radicalmente. A informação foi divulgada por “Estadão”, em conteúdo especial do Blue Studio com apoio da AstraZeneca, que destaca como a medicina de precisão vem transformando a oncologia moderna. Hoje, o câncer feminino não é mais visto como uma condição única, mas sim como um conjunto complexo e heterogêneo de doenças, com origens, comportamentos biológicos e respostas terapêuticas completamente distintas.
Essa transformação representa um verdadeiro divisor de águas. Ao mesmo tempo em que amplia o entendimento sobre os tumores, também redefine estratégias de diagnóstico, tratamento e até prevenção. Em outras palavras, a medicina de precisão permite uma abordagem muito mais individualizada, aumentando as chances de sucesso terapêutico e melhorando significativamente o prognóstico das pacientes.
Entretanto, apesar desse avanço científico, a realidade ainda apresenta desafios importantes. Afinal, a velocidade com que a ciência evolui não é acompanhada pela mesma rapidez no acesso aos tratamentos, especialmente no Brasil.
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A medicina de precisão muda o jogo na oncologia feminina
Para compreender melhor esse novo cenário, é fundamental abandonar antigas simplificações. Conforme destacou Angélica Nogueira, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), o câncer deve ser entendido como um conjunto heterogêneo de doenças. Embora exista um fator em comum — a proliferação descontrolada de células com potencial de invasão e metástase — os mecanismos que desencadeiam cada tumor são distintos.
É justamente essa diferenciação que sustenta a medicina de precisão. Ao invés de utilizar tratamentos generalistas, a oncologia passou a buscar alvos moleculares específicos em cada paciente. Dessa forma, é possível aplicar terapias direcionadas, aumentando a eficácia e reduzindo efeitos colaterais.
Segundo Danilo Lopes, diretor médico da AstraZeneca Brasil, essa evolução também impactou diretamente a indústria farmacêutica. Hoje, os tratamentos são desenvolvidos com base nas características biológicas de cada tumor, o que permite uma abordagem muito mais personalizada.
Além disso, essa mudança não se limita apenas aos tratamentos. Ela também influencia exames, estratégias de prevenção e até o acompanhamento dos pacientes ao longo do tempo.
Acesso desigual ainda é o maior obstáculo no Brasil
Apesar dos avanços impressionantes, existe um problema central que ainda limita o impacto dessas inovações: o acesso. Enquanto a medicina evolui rapidamente, o sistema de saúde brasileiro enfrenta dificuldades para acompanhar esse ritmo.
De acordo com Angélica Nogueira, o país acumulou um atraso significativo justamente nos últimos 20 anos, período em que a oncologia avançou de forma mais acelerada. Segundo ela, a área ficou “congelada” por décadas, e embora esse cenário esteja começando a mudar, a transformação ainda é lenta.
Pascoal Marracini, diretor-geral do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho, reforça essa visão ao destacar a diferença entre incorporar uma tecnologia e garantir seu uso na prática. Em suas palavras, “ganhou, mas não levou”. Ou seja, mesmo quando tratamentos são aprovados, isso não significa que eles chegam rapidamente às pacientes.
Além disso, Danilo Lopes enfatiza que a inovação só gera impacto real quando está disponível no momento certo para o paciente certo. Sem isso, os avanços permanecem apenas no campo teórico.
Informação, acolhimento e cuidado integral fazem a diferença
Embora a tecnologia seja essencial, a revolução na oncologia vai além dos tratamentos. Ela também envolve informação, acolhimento e suporte emocional.
Luciana Holtz, fundadora do Instituto Oncoguia, resume bem essa desigualdade ao afirmar: “Meu SUS não é o seu SUS”. Isso significa que, mesmo dentro do sistema público, existem diferenças significativas no acesso ao tratamento. O mesmo acontece na saúde privada, onde a qualidade do atendimento pode variar bastante.
Nesse contexto, a informação surge como uma ferramenta poderosa. Segundo Luciana, “informação é poder”, pois permite que o paciente compreenda melhor sua condição e participe ativamente das decisões sobre o tratamento.
Além disso, o entendimento da doença fortalece o vínculo entre paciente e equipe médica, contribuindo para melhores resultados clínicos.
A realidade das pacientes ainda revela desafios
A experiência de Isabel Ferreira ilustra de forma clara essa realidade. Diagnosticada com câncer de mama em 2017 e posteriormente com câncer de ovário, ela enfrentou não apenas os desafios da doença, mas também barreiras emocionais e burocráticas.
Ao descobrir uma mutação genética BRCA2, Isabel relatou o impacto psicológico da notícia. Além disso, enfrentou dificuldades com o convênio para acesso a medicamentos, evidenciando um problema recorrente no sistema de saúde.
Segundo dados do Instituto Oncoguia, 82% dos pacientes que buscaram seus direitos relataram sentir que estavam em uma verdadeira luta para conseguir acesso ao tratamento. Isso levanta uma questão importante: se o direito já está garantido, por que ainda é tão difícil acessá-lo?
Portanto, fica evidente que, embora a oncologia tenha avançado significativamente, a jornada das pacientes ainda exige melhorias estruturais urgentes.
O futuro depende de integração entre ciência e acesso
Diante desse cenário, o principal desafio não é apenas desenvolver novas terapias, mas garantir que elas cheguem a quem precisa. Isso exige um sistema de saúde mais integrado, eficiente e menos burocrático.
Além disso, é fundamental investir em educação, informação e suporte ao paciente. Afinal, tratar o câncer não é apenas combater a doença, mas cuidar da pessoa como um todo.
Como destacou Isabel Ferreira, quando se cuida do paciente, também se aprende com ele. E talvez seja justamente essa combinação entre ciência, empatia e acesso que definirá o futuro da oncologia feminina no Brasil.
Você acredita que o maior desafio no combate ao câncer hoje é a falta de tecnologia ou o acesso desigual aos tratamentos?

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