A água salgada cobriu de novo trechos da ligação entre Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes, e Barra do Furado, na divisa com Quissamã; estudo apresentado pela Defesa Civil em setembro de 2026 aponta, entre as causas da fragilidade do trecho, a falta de areia provocada pelos guias-correntes da Barra do Furado
O mar voltou a cobrir trechos da estrada entre Farol de São Thomé e Barra do Furado, mostrou o R7 em 25 de setembro de 2026, no pedaço de 9 km mais frágil do litoral de Campos.
Em agosto de 2026, as ondas já tinham levado parte do asfalto, um caminhão ficou preso e a prefeitura decidiu abrir um desvio por um terreno vizinho.
A erosão costeira ali tem explicação técnica. O estudo apresentado pela Defesa Civil de Campos em 16 de setembro de 2026 aponta, entre as condições locais, o déficit de areia provocado pelos guias-correntes da Barra do Furado, dois espigões de pedra na saída do canal.
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O que o mar deixou sobre a pista no vídeo de 25 de setembro
A força das ondas e a maré mais alta voltaram a castigar o litoral norte fluminense, relata o R7. O mar passou da faixa de areia e atingiu trechos da estrada litorânea que liga as duas localidades.

O leito da via ficou coberto de água salgada, bancos de areia e detritos trazidos pelas ondas. A reportagem vê de novo em risco a infraestrutura viária da costa.
A ressaca foi o gatilho desse episódio. O trecho entre Farol de São Thomé e a Barra do Furado, porém, já estava sob monitoramento permanente da Defesa Civil. As ondas tinham começado a destruir pedaços do asfalto em agosto de 2026.
Por onde passa a estrada entre Farol de São Thomé e Barra do Furado
A estrada acompanha a praia desde o balneário de Farol de São Thomé, em Campos dos Goytacazes, até a Barra do Furado. Ali, o canal das Flechas deságua no mar. No meio do caminho fica o Lagamar.

A via liga o balneário ao terminal pesqueiro da Barra do Furado. Almy Júnior, secretário de Agricultura, Pecuária e Infraestrutura Rural de Campos, resumiu o impasse em agosto. Ele falou num “problema no tráfego entre o terminal pesqueiro e Farol de São Tomé”.
No estudo apresentado em setembro, a Defesa Civil mostra onde fica o trecho mais vulnerável de todo o litoral de Campos. São cerca de 9 km, entre a Barra do Furado e a região do Camping.
O que a estrada já perdeu desde agosto
Em 14 de agosto de 2026, a prefeitura informou que as ressacas tinham aumentado a erosão em Farol de São Thomé. O impacto chegou ao acesso pela orla, rumo à Barra do Furado.

Na manhã daquele dia, um caminhão ficou preso num dos pontos atingidos. Os estragos já comprometiam, em alguns pontos, a passagem de veículos maiores, como caminhões e ônibus, registrou a prefeitura.
A resposta juntou Guarda Civil Municipal, IMTT e as secretarias de Obras e de Agricultura e Infraestrutura Rural. O pacote teve avaliação técnica, sinalização, controle do trânsito e máquinas, detalhou a prefeitura, lembrando o histórico de erosão costeira do litoral.
Em 27 de agosto de 2026, a prefeitura relatou que as ondas tinham tomado conta de parte da estrada a partir do Lagamar.
O que a Defesa Civil orienta a quem precisa passar
A prefeitura divulgou três orientações em 27 de agosto de 2026 para quem circula pela região.
- não tentar atravessar o trecho atingido pelo mar;
- seguir as instruções da Guarda Civil Municipal, que tem agentes orientando os motoristas no local;
- em emergência, ligar para a Defesa Civil, no 199, ou para o Corpo de Bombeiros, no 193.
O acompanhamento técnico da região, informa a prefeitura, vem sendo ampliado desde 2021, inclusive com a aproximação de universidades e especialistas.
O desvio por um terreno vizinho, decidido em 18 de agosto
A saída provisória nasceu de uma visita técnica feita em 18 de agosto de 2026, perto do Lagamar. Os técnicos avaliaram o solo, a resistência do terreno e os valões próximos, informou a Prefeitura de Campos. Alcemir Pascoutto, da Defesa Civil, estava entre os participantes.
Fábio Ribeiro, secretário de Obras, Infraestrutura e Mobilidade Urbana, explicou como o desvio vai funcionar. “Uma propriedade próxima às margens da estrada será atravessada por esse acesso que será criado, melhorando bastante o fluxo no local”, afirmou.
Almy Júnior classificou o desvio como “solução paliativa, ainda não definitiva”. A visita separou dois caminhos: o desvio imediato, a cargo do município, e a obra definitiva, que depende de dinheiro de fora.
No dia 27 de agosto, ele afirmou que as máquinas já estavam no local. A chuva forte, a ressaca e o aumento da erosão, disse o secretário, ainda não tinham permitido fazer o serviço.
Quanto custa a solução definitiva e de quem ela depende
Em 19 de agosto de 2026, a prefeitura informou o custo da saída definitiva. O projeto para resolver de vez o problema da estrada está estimado em cerca de R$ 150 milhões.
O município considera necessária a participação do estado e da União. Além do dinheiro, a execução depende de autorizações de órgãos ambientais e de infraestrutura, detalhou a prefeitura.
Na visita de 18 de agosto, Almy Júnior afirmou que o projeto já tinha sido apresentado em Brasília. Até aquele momento, disse ele, não havia avanço.
Por que o mar volta sempre ao mesmo trecho
O trabalho do Centro de Monitoramento de Desastres (Cemod), da Defesa Civil de Campos, liga a vulnerabilidade dessa faixa a duas frentes. A primeira são os efeitos das mudanças climáticas, que deixam as ressacas mais frequentes e mais fortes.
A segunda são as condições locais. Entre elas, o texto cita o “déficit sedimentar provocado pela dinâmica dos guias-correntes na Barra do Furado”.
Déficit sedimentar quer dizer que chega à praia menos areia do que o mar leva embora. Sem reposição, a faixa de areia estreita e deixa as ondas de ressaca mais perto do que está atrás dela.
Ao longo da praia existe um fluxo de areia empurrado pelas ondas, o transporte longitudinal. Estruturas como espigões, molhes e quebra-mares agem diretamente nesse fluxo, explica uma dissertação de mestrado defendida na UFF em 2022. O orientador foi Eduardo Bulhões.
Os dois espigões de pedra na saída do canal
A Barra do Furado é a foz do canal das Flechas, que liga a Lagoa Feia ao mar. A foz foi aberta sobre a antiga barra da Vala do Furado, conta a dissertação, citando o livro De Barra à Barra, de Arthur Soffiati.
No início dos anos 1980, a foz foi prolongada com dois espigões de pedra para manter a barra aberta o tempo todo. Esse par de guias-correntes interrompeu de forma significativa o fluxo de areia ao longo da costa, registra o trabalho.
A avaliação de Soffiati, reproduzida no trabalho, é dura: “A obra foi um desastre, pois desalinhou a costa”.
Para onde vai a areia que falta em Farol de São Thomé
A areia que vem do oeste fica retida no espigão do lado de Quissamã, onde a praia ganha terreno. Do lado de Campos, com menos sedimento chegando, o mar passou a erodir a costa, registra a dissertação.
O principal segmento em erosão fica ao norte dos guias-correntes, no caminho de Farol de São Thomé, e não é problema novo. O geógrafo Dieter Muehe registrou esse recuo em trabalhos de 2006 e 2018.
Nessa faixa, o déficit deixa a linha de costa mais frágil diante das ondas de tempestade. O efeito aparece em escarpas cavadas na areia e, às vezes, em ondas que passam por cima da praia, detalha o trabalho.
Uma foto da Defesa Civil de Campos reproduzida na dissertação mostra essa cena em setembro de 2021, num dos trechos em erosão.
Quanto de costa Campos perde por ano
O levantamento apresentado pelo Cemod mostra que cerca de 59% da costa de Campos tem tendência de erosão. Nos segmentos afetados, as taxas médias de recuo chegam a 3,5 metros por ano.
Na dissertação, a mesma divisão aparece para o período de 1984 a 2016. Os outros 41% da costa estão estáveis ou ganhando areia, mostra o trabalho.
A conta ajuda a dar escala: 3,5 metros são 350 centímetros, que divididos por 365 dias dão quase 1 centímetro de praia por dia.
Em dez anos, no ritmo de 3,5 metros, seriam 35 metros de costa a menos (3,5 × 10).
Desde quando a estrada perde para o mar
O mar não chegou à pista de uma vez. Documentos oficiais e registros da imprensa local contam uma história que se repete no mesmo trecho.
| Quando | O que aconteceu |
|---|---|
| Início dos anos 1980 | A foz do canal na Barra do Furado ganha dois espigões de pedra para ficar sempre aberta |
| Junho de 2016 | A estrada é interditada na altura da Gaivota, e uma passagem alternativa é aberta no mesmo dia |
| Julho de 2016 | O mar atinge de novo a pista e ameaça também a passagem alternativa |
| Setembro de 2021 | Ondas passam por cima da praia num dos trechos em erosão, em foto da Defesa Civil |
| Novembro de 2023 | Workshop da Defesa Civil de Campos debate a erosão, e técnicos falam em estrada nova |
| 14/08/2026 | Ressacas atingem o acesso à Barra do Furado, e um caminhão fica preso |
| 18/08/2026 | Visita técnica decide por um desvio através de um terreno vizinho |
| 27/08/2026 | Máquinas chegam ao local, mas chuva, ressaca e erosão impedem o serviço |
| 16/09/2026 | Estudo do Cemod aponta os guias-correntes da Barra do Furado e as ressacas mais fortes entre as causas da fragilidade do trecho |
| 25/09/2026 | Vídeo publicado no R7 mostra água salgada, areia e detritos sobre trechos da estrada |
Em 2016, o ponto crítico citado era a Gaivota. No fim de agosto de 2026, a prefeitura informou que a erosão avançava principalmente no trecho chamado de Gaivotas.
O aviso de 2023 sobre uma nova estrada em Farol
Em novembro de 2023, a Defesa Civil de Campos promoveu o 1º Workshop Desastres Naturais e Erosão Costeira. O palestrante foi o geógrafo marinho Eduardo Bulhões, professor da UFF em Campos, informou a prefeitura na época. Nas pesquisas dele se apoia o estudo que a Defesa Civil levou a Macaé em setembro de 2026.
No encontro, Alcemir Pascoutto, da Defesa Civil, já falava em uma estrada nova. “Nós temos, por exemplo, a necessidade de construção de uma nova estrada em Farol, em ponto de grande erosão”, disse.
Ele acrescentou que, se as medidas não fossem tomadas de forma correta, haveria problemas em curto prazo.
O mesmo workshop também debateu a erosão de Atafona e os problemas da orla do Açu. Os dois lugares ficam em São João da Barra, município vizinho ao norte de Campos.
O que o estudo de setembro propõe para conter a erosão costeira
Apresentado em 16 de setembro de 2026, na Cidade Universitária de Macaé, o estudo do Cemod se apoia nas pesquisas de Eduardo Bulhões. A prefeitura destaca quatro frentes para conter a erosão costeira.
- monitoramento ambiental contínuo;
- planejamento do uso e da ocupação do território;
- Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental, os EVTEA;
- soluções baseadas na natureza, com foco em preservar e recuperar dunas e restingas.
O complexo de desmonte de plataformas planejado para a Barra do Furado
Na mesma Barra do Furado, a BR Offshore planeja o Complexo Logístico Industrial Farol-Barra do Furado. É um polo para atracação, descomissionamento e reciclagem de grandes embarcações e plataformas, perto da Bacia de Campos.

Descomissionar é tirar de operação, desmontar e dar destino a estruturas de petróleo que chegaram ao fim da vida útil, como plataformas e navios.
O projeto executivo está concluído, informou a prefeitura em 24 de setembro de 2026. Falta o Inea averbar a licença de implantação, que passa a incluir novas áreas e uma rampa para o corte de cascos.
A área soma cerca de 6 milhões de m². A mobilização das obras deve começar no início de 2027. A construção deve levar de 24 a 26 meses, afirmou Ricardo Vianna, da BR Offshore.
O complexo fica na Barra do Furado, ponta sul da estrada atingida pelo mar e endereço dos guias-correntes.
O que o mar ameaça além do asfalto
No workshop de 2023, Eduardo Bulhões já apontava o passo seguinte da erosão. “Isso hoje está afetando as estradas; mas, daqui a pouco, vamos ver, em sério risco, casas, propriedades dos moradores de Farol”, disse o geógrafo.
Em setembro de 2026, o estudo do Cemod foi na mesma linha. No trecho mais vulnerável, informa o texto, a erosão intensa se aproxima de residências e da infraestrutura viária.
Na sexta-feira, 25 de setembro de 2026, o vídeo da Record TV publicado no R7 mostrou a água salgada de novo sobre o leito da estrada de Farol de São Thomé. Tinham se passado 38 dias desde a visita técnica que escolheu o desvio.
