Autorização sem restrições encerra meses de análise do Cade e permite ao grupo de Pedro Lourenço incorporar lojas Epa e Mineirão, ampliar presença regional e se aproximar de 600 unidades em quatro estados do país
O Supermercados BH recebeu autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para comprar 108 lojas da DMA Distribuidora, dona das bandeiras Epa e Mineirão. A operação, aprovada sem restrições nesta quinta-feira (24), pode levar o grupo controlado por Pedro Lourenço a cerca de 600 unidades e um faturamento combinado estimado em R$ 34,6 bilhões.
O número mostra o tamanho do salto. Em 2025, o Supermercados BH registrou R$ 25,7 bilhões em vendas e tinha 420 lojas. Já a DMA apareceu com faturamento de R$ 8,9 bilhões no TOP 300 do Varejo Brasileiro.
A projeção de R$ 34,6 bilhões após a operação é da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Minas Gerais (FCDL-MG), elaborada com base no Ranking Abras 2026.
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Pedro Lourenço também controla 90% da SAF do Cruzeiro, modelo empresarial adotado pelo clube mineiro. Mas, no varejo, o movimento agora é ainda maior. E não aconteceu sem questionamentos.

Negócio começou com 120 lojas e terminou aprovado com 108
Quando Supermercados BH e DMA levaram a operação ao Cade, em maio, o plano era adquirir 120 lojas em Minas Gerais, incluindo unidades das bandeiras Epa Plus, Epa Premium e Mineirão.
A análise apertou depois.
Em 31 de agosto, a Superintendência-Geral do Cade classificou o negócio como uma operação complexa. O órgão entendeu que ainda não havia evidências suficientes de concorrência efetiva no entorno de seis lojas localizadas em Belo Horizonte, Ribeirão das Neves, Ouro Branco, Lagoa Santa, Sarzedo e Itajubá.
As empresas fizeram uma primeira mudança no acordo e retiraram essas seis unidades. Com isso, o pacote caiu de 120 para 114 lojas. Pelo parecer do Cade, os estabelecimentos excluídos continuariam sob controle da DMA.
Depois veio outro corte. Mais seis lojas ficaram de fora antes da decisão final, reduzindo a aquisição para as atuais 108 unidades.
Na prática, essas alterações atacaram justamente o ponto que mais preocupava a autoridade antitruste: regiões onde as duas companhias já tinham presença forte e poderiam concentrar uma fatia elevada do mercado.
Em Venda Nova, região de Belo Horizonte, por exemplo, o Cade calculou que BH e DMA respondiam juntas por algo entre 40% e 50% do faturamento de um dos mercados avaliados em 2025.

Concorrência de outras redes pesou na decisão
Mesmo com participações consideradas elevadas em alguns locais, a conclusão final do Cade foi de que havia concorrência suficiente para limitar o poder do grupo após a compra.
A análise considerou redes nacionais e regionais presentes nas mesmas áreas, entre elas Carrefour, Assaí, Mart Minas, Villefort, Economart, Verdemar e Multiformato.
A região da Pampulha, em Belo Horizonte, ajuda a mostrar o raciocínio adotado. Entre 2021 e 2025, foram inauguradas por lá duas lojas do Assaí, uma do Carrefour, duas do Mart Minas, cinco do grupo Multiformato e duas do Villefort.
O Cade também observou expansão do próprio mercado. Em três mercados analisados na região Norte de Belo Horizonte, o faturamento total cresceu de quase 100% a mais de 150% entre 2021 e 2025.
No total, 24 mercados relevantes distribuídos por 14 municípios receberam análise mais aprofundada. Ao final, o órgão concluiu que não havia, naquele momento, probabilidade de exercício de poder de mercado pelas empresas após a operação.
Foi com esse entendimento que a compra acabou liberada sem restrições.
Supermercados BH acelera expansão por aquisições
A incorporação das 108 lojas reforça uma estratégia que o Supermercados BH já vinha usando: crescer também comprando operações existentes.
Em 2025, a companhia fechou a aquisição de 54 supermercados Bretas em Minas Gerais por R$ 716 milhões. No Espírito Santo, comprou outras três unidades do Canguru Supermercados.
Com o novo negócio, o grupo passa a reunir operações em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Pernambuco e pode alcançar aproximadamente 600 lojas.
A trajetória ficou bem maior desde 1996.
Pedro Lourenço nasceu em Paineiras, em outubro de 1955, filho de lavradores, e estudou até o oitavo ano do ensino fundamental. Aos 18 anos, mudou-se para Belo Horizonte em busca de emprego.
Começou descarregando caminhões nas Casas da Banha, depois trabalhou com estoque, reposição e vendas. Mais tarde tornou-se representante comercial de um atacadista de arroz.
Em maio de 1996, abriu uma mercearia no bairro São Benedito, em Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Era só um ponto comercial. Ele comprava mercadorias, atendia clientes e cuidava das contas.
A expansão veio, em parte, com a compra de lojas em dificuldade na periferia de Belo Horizonte e em cidades menores do interior. Três décadas depois, a rede criada a partir daquela mercearia se prepara para incorporar mais 108 supermercados e operar em uma escala próxima dos R$ 35 bilhões anuais em faturamento combinado.
Fontes: decisão e parecer do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade); projeções da FCDL-MG com base no Ranking Abras 2026; dados do TOP 300 do Varejo Brasileiro fornecidos no material-base.
