Criada por uma mãe solo que trabalhava como doméstica para sustentar cinco filhos na África do Sul, Pumla Majozi tornou-se a primeira universitária e graduada da família e concluiu um mestrado em Microbiologia Médica com pesquisa sobre novos biomarcadores para tuberculose.
Pumla Majozi cresceu entre Umlazi e Illovu, comunidades da região de eThekwini, na África do Sul, em uma casa sustentada por uma mãe solo responsável pela criação de cinco filhos. A mãe trabalhava como doméstica e faxineira, enquanto tentava manter as crianças alimentadas e dentro da escola mesmo com recursos financeiros limitados.
Décadas depois, Pumla transformou essa trajetória em uma sequência inédita dentro da própria família. Foi a primeira a entrar em uma universidade, a primeira a conquistar uma graduação e, em 18 de setembro de 2025, recebeu pela University of KwaZulu-Natal um mestrado em Microbiologia Médica após desenvolver uma pesquisa voltada ao combate à tuberculose.
Mãe solo sustentou cinco filhos trabalhando como doméstica
A infância de Pumla foi marcada por uma realidade em que estudar dependia diretamente do esforço da mãe. A University of KwaZulu-Natal registra que ela foi criada junto aos irmãos por uma mulher que trabalhava como doméstica enquanto sustentava sozinha cinco crianças.
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Em determinado período, a mãe conseguiu emprego como faxineira em uma creche multirracial. O trabalho trouxe uma pequena oportunidade para a filha: Pumla pôde frequentar gratuitamente o equivalente à pré-escola naquele estabelecimento enquanto a mãe trabalhava.
A situação mudou quando chegou a hora de iniciar o ensino fundamental. A família não conseguia pagar uma escola semelhante, e Pumla precisou ser matriculada em uma instituição rural próxima da comunidade onde vivia, enfrentando longas caminhadas ao lado dos irmãos para chegar às aulas.
Longas caminhadas até a escola fizeram parte da infância de Pumla
A dificuldade de acesso à educação não impediu que a mãe insistisse para que os filhos permanecessem estudando. Pumla posteriormente apontaria justamente essa determinação materna como uma das principais forças que moldaram sua relação com a escola e com o futuro profissional.
Para uma família sem histórico universitário, chegar ao ensino superior ainda parecia uma possibilidade distante. O cotidiano estava concentrado em necessidades imediatas, enquanto a mãe precisava transformar o salário obtido com serviços de limpeza em alimentação, educação e cuidados para cinco filhos.
Pumla afirmou que observar o esforço da mãe para proporcionar oportunidades mesmo sem possuir muitos recursos criou nela uma forte necessidade de avançar. Aquela experiência acompanharia sua trajetória até os laboratórios de uma das principais universidades sul-africanas.
Pumla tornou-se a primeira pessoa da família a entrar na universidade
A primeira grande ruptura ocorreu quando Pumla conquistou acesso à University of KwaZulu-Natal. Em uma família na qual ninguém havia frequentado o ensino superior, ela passou a ocupar um espaço acadêmico que até então não fazia parte da história dos Majozi.

Seu objetivo inicial era estudar Medicina, mas o caminho acadêmico acabou seguindo outra direção. Pumla ingressou no Bachelor of Science em Ciências Biológicas e começou a construir uma formação ligada à biologia, aos microrganismos e às doenças infecciosas.
A graduação ocorreu no campus Westville da UKZN. Ao terminá-la, Pumla tornou-se também a primeira pessoa de sua família a possuir um diploma universitário, ultrapassando uma segunda barreira depois de já ter sido a primeira a entrar no ensino superior.
Bolsa permitiu continuar os estudos depois da graduação
Pumla não encerrou sua formação depois do primeiro diploma. Ela avançou para o honours, uma etapa acadêmica de especialização existente no sistema universitário sul-africano, com financiamento concedido pela National Research Foundation.
Graduação e honours foram concluídos dentro da própria University of KwaZulu-Natal. A sequência começou a consolidar uma trajetória científica em uma família cuja geração anterior havia enfrentado condições muito diferentes para manter as crianças dentro da escola.
A própria Pumla posteriormente destacou a dimensão desse avanço. Para ela, não se tratava apenas de obter qualificações profissionais, mas de demonstrar que alguém vindo de uma casa sem graduados poderia atravessar sucessivas etapas da educação superior.
Trabalho durante a pandemia aproximou Pumla da pesquisa científica
Um ponto decisivo ocorreu durante a pandemia de covid-19. Pumla trabalhou em um laboratório de diagnóstico e passou a adquirir experiência prática em biologia molecular, virologia e procedimentos utilizados para detectar doenças.
A experiência, entretanto, fez com que percebesse que desejava trabalhar não apenas com diagnósticos já estabelecidos, mas também com investigação científica e desenvolvimento de novas soluções. Essa busca acabou aproximando a jovem pesquisadora do Africa Health Research Institute, o AHRI.
Foi no instituto que surgiu a oportunidade de ingressar em um mestrado dedicado à tuberculose. Pumla mudou de campus dentro da UKZN, passou para a área ligada à escola de Medicina e começou a aprofundar conhecimentos sobre imunologia e doenças infecciosas.
Mestrado em Microbiologia Médica colocou a tuberculose no centro da pesquisa
O trabalho de Pumla foi supervisionado pelo professor Jackson Mohlopheni Marakalala e concentrou-se na busca e validação de biomarcadores relacionados à evolução da tuberculose. O objetivo era estudar sinais produzidos pelo próprio organismo capazes de ajudar a diferenciar a doença ativa de outras condições.
Uma característica importante foi analisar assinaturas de proteínas tanto no sangue quanto em amostras pulmonares. Segundo a pesquisadora, grande parte dos trabalhos semelhantes concentra a análise apenas no sangue, enquanto sua abordagem buscou observar os dois ambientes.
O projeto fazia parte de uma tentativa de compreender melhor a progressão da tuberculose e identificar possíveis caminhos para métodos diagnósticos mais eficientes. Os resultados ainda exigem validação em grupos maiores de pacientes antes de qualquer aplicação clínica.
Pesquisa identificou proteínas associadas à tuberculose ativa
O trabalho apresentado por Pumla no simpósio científico da universidade analisou proteínas previamente associadas a pacientes com tuberculose ativa. Entre os marcadores investigados estavam MYOF e NCF2, avaliados no sangue e em tecidos pulmonares.
Os resultados apresentados indicaram níveis significativamente maiores dessas proteínas em determinadas análises de pacientes com doença ativa em comparação com pessoas saudáveis e indivíduos com infecção latente. A NCF2 também foi observada em regiões específicas de granulomas pulmonares relacionados à doença.
Pumla ressaltou que pelo menos um dos candidatos analisados apresentou potencial para diferenciar a doença ativa, mas fez uma ressalva importante: estudos com populações maiores ainda são necessários para confirmar a utilidade do marcador.
Pesquisa levou Pumla a congressos dentro e fora da África do Sul
O desempenho no mestrado abriu oportunidades que a pesquisadora afirmou nunca ter imaginado durante a infância. Pumla passou a apresentar trabalhos em encontros científicos nacionais e internacionais ligados à tuberculose, imunologia e doenças infecciosas.
Durante um simpósio do College of Health Sciences, recebeu uma bolsa de viagem que permitiu participar da Union Conference on Lung Health realizada em Bali. Também esteve na South African Tuberculosis Conference e em um encontro de inovação em tuberculose realizado em Uganda.
Outra experiência ocorreu no Institut Pasteur de Dakar, no Senegal, onde participou de um curso sobre vacinologia. O contato com pesquisadores da área ampliou seu interesse pela investigação de doenças infecciosas e pelo desenvolvimento de novas ferramentas de prevenção.
Mestrado fez Pumla repetir uma conquista inédita dentro da família
Em 18 de setembro de 2025, Pumla recebeu oficialmente o mestrado em Microbiologia Médica pela University of KwaZulu-Natal. A conquista acrescentou mais uma etapa a uma sequência que havia começado quando ela atravessou pela primeira vez os portões de uma universidade.
Ela já era a primeira universitária e primeira graduada da família. Com o novo diploma, tornou-se também a primeira integrante da casa onde cresceu a chegar ao nível de mestrado, depois de concluir graduação, honours e pós-graduação na mesma universidade.
Ao comentar o resultado, Pumla atribuiu importância especial ao fato de vir de uma família sem graduados. Para ela, a conclusão demonstrava que barreiras educacionais que pareciam permanentes durante sua infância poderiam ser quebradas dentro de uma única geração.
Sacrifício da mãe permaneceu no centro da conquista acadêmica
Entre professores, supervisores, colegas e instituições que contribuíram para sua formação, Pumla reservou um agradecimento especial à mãe. A pesquisadora afirmou que ela fez grandes sacrifícios para que os filhos fossem educados e recebessem os cuidados necessários.
O contraste entre as duas gerações tornou-se especialmente forte no momento da conclusão do mestrado. A mãe que limpava uma creche para sustentar cinco crianças viu uma de suas filhas avançar da escola rural para laboratórios de pesquisa dedicados a uma das doenças infecciosas mais estudadas do mundo.
Depois do mestrado, a própria UKZN informou que Pumla havia sido aceita para seguir para um doutorado na North-West University.
A estudante que se tornou a primeira universitária da família passou, assim, a preparar uma nova etapa em uma trajetória iniciada pelas longas caminhadas até a escola e sustentada pelo trabalho diário da mãe.
