Com fraturas expostas nas pernas e o celular a poucos centímetros dos dedos, Brieonna Cassell precisou improvisar formas de conseguir água e suportar o frio enquanto centenas de veículos passavam pela estrada
Uma viagem de carro terminou em uma luta de quase uma semana pela sobrevivência para Brieonna Cassell, de 41 anos e mãe de três filhos. Depois de adormecer ao volante, ela saiu da estrada e despencou com seu Ford Taurus em uma vala profunda no estado de Indiana.
O acidente deixou o veículo em uma posição tão baixa em relação à pista que ele praticamente desapareceu da visão dos motoristas. Gravemente ferida e incapaz de sair do automóvel, Cassell permaneceu cerca de seis dias presa, ouvindo carros passarem poucos metros acima sem que ninguém percebesse onde ela estava.
Além de enfrentar dores provocadas por múltiplas fraturas, a norte-americana ficou sem acesso ao telefone e precisou encontrar maneiras improvisadas de beber a pequena quantidade de água que corria perto do carro.
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O carro desapareceu dentro da vala

O acidente aconteceu em março de 2025, enquanto Cassell dirigia por uma área rural do condado de Newton. Segundo seu próprio relato posterior, ela adormeceu ao volante, perdeu o controle e saiu da pista.
O Ford Taurus atravessou o terreno e acabou dentro de uma depressão profunda próxima a um pequeno curso de água. O impacto foi violento e deixou Cassell caída no interior do veículo, com as pernas dobradas debaixo do próprio corpo.
As lesões foram extremamente graves. Cassell sofreu fraturas expostas nas duas pernas e em um dos braços, além de fraturas em costelas e vértebras. Uma rocha também bloqueava uma das portas do carro, tornando praticamente impossível tentar sair por conta própria.
Do nível da estrada, entretanto, era difícil perceber que havia um automóvel acidentado ali. Foi justamente essa característica do terreno que permitiu que Cassell permanecesse desaparecida durante tantos dias mesmo com veículos circulando pela região.
Celular estava perto, mas ela não conseguia alcançá-lo
Um dos aspectos mais desesperadores da situação era que o telefone de Cassell continuava dentro do automóvel. Durante a colisão, porém, o aparelho saiu do lugar onde estava e foi parar embaixo do banco do passageiro.
Ela contou posteriormente que conseguia tocar o celular apenas com a ponta dos dedos. Cada tentativa de puxá-lo, no entanto, acabava empurrando o aparelho ainda mais para longe.
Cassell também tentou utilizar o comando de voz do telefone. Segundo ela, o assistente virtual chegou a responder, mas exigiu que o aparelho fosse desbloqueado antes de realizar a ação solicitada.
Com o corpo imobilizado pelas fraturas, não havia como alcançar a tela. O telefone permaneceu a poucos centímetros de distância, mas completamente inútil durante os dias em que ela ficou presa.
Calça jeans virou uma forma improvisada de conseguir água

Sem comida e impossibilitada de sair do carro, Cassell percebeu que sua principal necessidade seria encontrar uma forma de continuar hidratada. Perto da parte traseira do veículo corria uma pequena quantidade de água.
Em entrevistas dadas depois de deixar o hospital, ela explicou que conseguiu alcançar uma calça jeans que estava dentro do carro e passou a utilizá-la de uma maneira incomum.
Cassell segurava a peça por uma das pernas, baixava a outra extremidade até a água rasa e esperava o tecido ficar encharcado. Depois, puxava o jeans de volta e chupava a água absorvida pelo tecido.
As primeiras informações divulgadas após o resgate mencionavam que ela teria usado um moletom ou cardigan. Meses depois, entretanto, a própria sobrevivente explicou que utilizou principalmente uma calça jeans para realizar a operação.
Tudo isso precisava ser feito enquanto tentava manter parcialmente aberta uma das portas do veículo, utilizando a cabeça e um dos braços machucados para conseguir espaço suficiente.
Ela também improvisou proteção contra o frio
A água não era o único problema. Cassell ainda precisava enfrentar as noites dentro do carro acidentado, sem conseguir mudar de posição e com ferimentos graves.
Entre os objetos que estavam ao seu alcance havia um tipo de proteção acolchoada para colchão. Utilizando um pedaço quebrado da própria estrutura interna do automóvel, ela conseguiu puxar o material até perto do corpo.
O objeto passou então a servir como uma cobertura improvisada para reduzir a perda de calor durante a noite.
Nos primeiros momentos, Cassell acreditava que seria encontrada rapidamente. Segundo contou posteriormente, esperava que alguém percebesse o automóvel assim que amanhecesse.
Quando isso não aconteceu, ela entendeu que precisaria continuar improvisando soluções para permanecer viva.
Centenas de carros poderiam ter passado sem enxergar o veículo
Durante os dias seguintes, Cassell gritava sempre que ouvia um automóvel passando pela estrada. Familiares estimaram posteriormente que centenas de veículos poderiam circular diariamente pelo trecho.
Ela também tentou tornar sua presença mais visível. Em determinado momento, utilizou esmalte para escrever “911” em um material que conseguiu encontrar dentro do carro e tentou posicioná-lo de forma que algum motorista pudesse notar.
Nenhuma das tentativas funcionou.
Enquanto isso, familiares já haviam comunicado seu desaparecimento e procuravam por ela em estradas e áreas próximas. Cassell conseguia ouvir o mundo funcionando normalmente acima da vala, mas permanecia invisível para quem passava.
No sexto dia, um trabalhador viu algo dentro da vala
A situação mudou em 11 de março de 2025. Johnny Martinez, funcionário de uma empresa especializada em drenagem, estava trabalhando na região e operava um equipamento elevado.
A posição de aproximadamente 3 metros de altura ofereceu a Martinez um ângulo completamente diferente daquele dos motoristas que circulavam pela estrada.
Foi então que ele percebeu um veículo no fundo da vala.
Martinez avisou seu supervisor, Jeremy Vanderwall, que também tinha experiência como bombeiro. Ao se aproximar do automóvel, Vanderwall inicialmente acreditou que uma área branca visível dentro do carro fosse apenas um airbag.
Então percebeu que aquilo se movia.
Cassell estava viva.
Quando perguntaram havia quanto tempo ela estava ali, respondeu que estava presa desde a quarta-feira anterior. Vanderwall percebeu então que aquela era a mulher cujo desaparecimento vinha sendo divulgado havia vários dias.
Apesar das condições extremas, Cassell estava consciente e conseguia conversar com os socorristas.
Foram necessárias 13 cirurgias após o resgate

Depois de ser retirada do veículo, Cassell foi transportada de helicóptero para o Advocate Christ Medical Center, na região de Chicago.
A extensão dos ferimentos levantou inicialmente a possibilidade de que ela pudesse perder as pernas. Os médicos, entretanto, conseguiram preservá-las ao longo de um tratamento prolongado.
Cassell permaneceu aproximadamente três meses hospitalizada e passou por 13 cirurgias. Quando finalmente deixou o hospital, ainda precisava utilizar cadeira de rodas e iniciar um longo processo de reabilitação.
Ela afirmou posteriormente que pensar nos três filhos foi um dos principais motivos que a fizeram continuar tentando sobreviver durante os seis dias dentro da vala.
Depois da experiência, Cassell também começou a organizar um livro sobre o acidente. A ideia era produzir 13 capítulos, um para cada cirurgia pela qual precisou passar.
Além disso, deixou um alerta simples para outros motoristas: ao perceber sinais de sono, é melhor parar imediatamente e descansar. Cassell também passou a recomendar que o celular seja mantido em um local seguro dentro do veículo, para que não seja arremessado e fique fora de alcance justamente quando uma ligação de emergência pode significar a diferença entre ser encontrado ou permanecer desaparecido.

