Sondagem da CNI e CBIC revela juros elevados como principal problema da construção civil, dificuldades de crédito e baixa intenção de investimento.
Os juros elevados foram apontados como o principal obstáculo enfrentado pela indústria da construção no Brasil durante o terceiro trimestre de 2026, sendo mencionados por quatro em cada dez empresários consultados. O percentual cresceu 3,8 pontos percentuais em relação ao trimestre anterior e atingiu o segundo maior patamar desde 2015, quando teve início a série histórica da Sondagem Indústria da Construção, divulgada na segunda-feira (26 de outubro) pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
O levantamento também identificou um cenário de contrastes no setor. Enquanto a movimentação dos canteiros apresentou recuperação em setembro, as dificuldades financeiras continuaram presentes. A intenção de investimento avançou em outubro, mas permaneceu no menor nível para esse mês desde 2020, mostrando que a melhora de alguns indicadores ainda não foi suficiente para afastar as avaliações negativas dos empresários.
Atividade da construção reage, mas emprego não acompanha recuperação
Os canteiros de obras registraram maior utilização de sua capacidade operacional em setembro, quando o indicador chegou a 68%, após crescimento de três pontos percentuais. A movimentação acompanhou a recuperação parcial da atividade, que havia apresentado uma queda mais intensa no mês anterior.
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O índice de evolução da atividade subiu 0,9 ponto e alcançou 45,6 pontos em setembro, depois de recuar 2,6 pontos em agosto. A distância em relação ao índice de nível usual do mês também diminuiu, passando de 2,9 para 1,8 ponto, embora a recuperação não tenha compensado integralmente a queda anterior.
A evolução do emprego, entretanto, apresentou comportamento diferente. O indicador referente ao número de empregados recuou novamente, com queda de 0,5 ponto, chegando a 45,3 pontos. Assim, a maior utilização da capacidade operacional das empresas não foi acompanhada por uma melhora no índice de evolução do emprego.
Investimentos apresentam pior outubro desde 2020
A disposição dos empresários para investir também permaneceu enfraquecida. Embora tenha registrado crescimento de 2,2 pontos entre setembro e outubro, o índice de intenção de investimento chegou a 41,9 pontos, seu resultado mais baixo para o mês de outubro desde 2020.
A confiança empresarial apresentou uma reação mais expressiva. O Índice de Confiança do Empresário Industrial (ICEI) da Construção avançou 3,5 pontos e atingiu 49 pontos, refletindo uma redução do pessimismo entre os representantes do setor.
Apesar dessa melhora, o indicador continuou abaixo da marca de 50 pontos, que separa confiança de falta de confiança. O resultado mostra que a percepção negativa perdeu intensidade, mas ainda não foi substituída por um ambiente de confiança entre os empresários consultados.

Expectativa para atividade deixa o pessimismo, mas emprego e novos empreendimentos ainda preocupam
As perspectivas para os próximos meses também apresentaram mudanças entre setembro e outubro. O indicador de expectativa para o nível de atividade avançou 3,1 pontos e chegou a 50,1 pontos, deixando a faixa de pessimismo e alcançando uma condição de neutralidade.
Os demais indicadores registraram crescimento, embora tenham continuado abaixo da referência de 50 pontos. A expectativa relacionada às compras de insumos e matérias-primas teve a maior elevação, de 3,9 pontos, chegando a 49,7 pontos.
No caso dos novos empreendimentos e serviços, o índice aumentou 2,5 pontos e atingiu 48,6 pontos. Já a perspectiva para o número de empregados apresentou avanço mais discreto, de 0,7 ponto, encerrando o período em 48,7 pontos.
Esses resultados indicam uma redução do pessimismo dos empresários em relação às compras de materiais, ao número de trabalhadores e aos novos empreendimentos e serviços. Entretanto, os três indicadores permaneceram abaixo da linha de 50 pontos, continuando a sinalizar expectativas negativas.
Mesmo com os avanços registrados em outubro, todas as expectativas acompanhadas pela pesquisa permaneceram abaixo de suas respectivas médias históricas, mostrando que a melhora nas perspectivas do setor ainda é limitada.
Crédito mais difícil mantém pressão sobre as finanças das empresas
A recuperação de parte dos indicadores operacionais ocorreu em um ambiente no qual os empresários ainda demonstravam insatisfação com as condições financeiras de seus negócios. Uma das dificuldades identificadas pela sondagem foi o acesso a empréstimos e financiamentos.
O índice que avalia a facilidade de obtenção de crédito passou de 39,3 para 37,9 pontos, registrando queda de 1,4 ponto. Como resultados inferiores a 50 representam condições desfavoráveis, o novo recuo mostra que conseguir recursos financeiros se tornou ainda mais difícil na avaliação dos participantes.
A percepção sobre a lucratividade também piorou. O indicador de satisfação com o lucro operacional diminuiu um ponto e encerrou o trimestre em 40,7 pontos. Já a satisfação com a situação financeira permaneceu em 45,2 pontos, sem apresentar recuperação em relação ao período anterior.
Ambos os resultados continuaram abaixo da linha de referência de 50 pontos, indicando a persistência do descontentamento dos empresários tanto com as margens de lucro quanto com a condição financeira de suas empresas.
Juros lideram preocupações, enquanto tributos e mão de obra completam ranking
O peso dos juros entre as dificuldades enfrentadas pela construção ganhou importância ao longo do terceiro trimestre. Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, o problema permanece na primeira posição do ranking há algum tempo e continuou avançando mesmo diante das sucessivas reduções da taxa Selic pelo Banco Central, mencionadas pelo especialista.
A proporção de empresários que identificaram os juros como um dos principais obstáculos só foi maior no segundo trimestre de 2023. Esse resultado reforça a relevância atribuída ao custo do dinheiro pelos participantes da pesquisa.

Outros dois problemas também apareceram entre as preocupações mais frequentes. A falta ou o custo elevado da mão de obra não qualificada passou da quarta para a terceira posição, com o percentual de citações aumentando de 28,6% para 29% entre os dois trimestres.
Já a elevada carga tributária permaneceu como o segundo entrave mais mencionado, apesar de ter perdido participação nas respostas. O percentual de empresários que apontaram essa dificuldade diminuiu de 33,6% para 31% no mesmo intervalo.
Preços dos insumos ainda preocupam empresários da construção
Além das questões financeiras e da disponibilidade de trabalhadores, os custos de produção continuaram no radar das empresas. A sondagem identificou uma pequena redução no indicador que acompanha a evolução dos preços de matérias-primas e insumos utilizados pela indústria da construção.
O índice passou de 66,2 para 65,5 pontos. Mesmo com a diminuição, permaneceu acima da referência de 50 pontos, demonstrando que os empresários ainda percebiam encarecimento desses materiais durante o período analisado.
Para a edição de outubro, a CNI ouviu 305 empresas entre os dias 1º e 13 daquele mês. A amostra reuniu 125 estabelecimentos de médio porte, 60 grandes empresas e 120 pequenas, permitindo acompanhar as avaliações de negócios de diferentes tamanhos dentro da indústria da construção.
Os resultados mostram, portanto, um setor que apresentou sinais pontuais de recuperação operacional e melhora nas expectativas, mas continuou enfrentando dificuldades relacionadas ao financiamento, aos custos e à rentabilidade dos negócios.
Com a confiança ainda abaixo dos 50 pontos e a intenção de investimento no menor patamar para outubro desde 2020, a melhora recente da atividade não eliminou as avaliações desfavoráveis que marcaram a construção no terceiro trimestre de 2026.
As informações são do Portal da Indústria
