Projeto apoiado por SoftBank, Sony, NEC e Honda terá 140 MW, começa a ser construído em 2027 e pretende levar modelos japoneses de inteligência artificial para fábricas, veículos, hospitais e redes logísticas
O Japão reuniu a Nvidia, órgãos públicos e algumas das maiores empresas industriais do país em um projeto para desenvolver inteligência artificial capaz de controlar robôs, máquinas, veículos e sistemas físicos. O núcleo da iniciativa será uma fábrica de IA equipada com 27.500 GPUs Nvidia Rubin, 13.750 CPUs Vera e capacidade elétrica de 140 megawatts.
O acordo foi anunciado em Tóquio em 16 de julho de 2026. Segundo a Nvidia, a infraestrutura será usada para treinar modelos multimodais aplicados à manufatura, logística, telecomunicações, saúde, agentes autônomos e gêmeos digitais, representações virtuais de fábricas e equipamentos reais.
Apesar do nome, a fábrica de IA não será uma linha de montagem de chips. Será um grande centro de processamento de dados, projetado para ensinar sistemas a interpretar imagens, vídeos, sons, textos, movimentos e informações captadas por sensores.
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A execução ficará a cargo da Noetra, empresa formada com participação de 44 companhias e organizações japonesas. SoftBank, Sony, NEC e Honda aparecem como membros centrais, ao lado de grupos como Fanuc, Hitachi, Kawasaki Heavy Industries, Mitsubishi Electric, Tokyo Electron, Nippon Steel, JFE Steel, Omron e Yaskawa.
A construção começa em abril de 2027, mas os primeiros modelos chegam antes
A instalação dos novos equipamentos está programada para começar em abril de 2027. A previsão divulgada pelas empresas é iniciar as operações em junho de 2028, depois da montagem dos servidores, redes de comunicação, sistemas de refrigeração e infraestrutura elétrica.
Como informou a SoftBank, o desenvolvimento dos modelos japoneses não ficará parado até a conclusão do data center. A Noetra pretende usar estruturas computacionais já existentes no país durante a primeira etapa, enquanto prepara o centro equipado com as GPUs Rubin.
A primeira entrega está prevista para o ano fiscal de 2026, encerrado em março de 2027. Será um modelo de raciocínio com compreensão avançada da língua japonesa, capacidade de seguir instruções e ferramentas voltadas para agentes de inteligência artificial.
Até o ano fiscal de 2028, o grupo pretende desenvolver um sistema omnimodal capaz de processar texto, imagem, vídeo e áudio de maneira integrada. Para 2030, a meta é produzir uma chamada IA nativa do mundo real, preparada para compreender espaço, movimento, propriedades físicas e consequências de ações executadas por máquinas.
O objetivo é fazer a inteligência artificial sair das telas e entrar nas máquinas
A chamada IA física se diferencia dos chatbots porque precisa perceber o ambiente e tomar decisões que causam efeitos concretos. Em uma fábrica, por exemplo, o sistema pode identificar uma peça fora da posição, recalcular o movimento de um braço robótico e interromper a operação diante de uma pessoa ou obstáculo.
Esse tipo de aplicação exige respostas rápidas e previsíveis. Uma demora de segundos, tolerável em uma conversa digital, pode causar colisões, defeitos de produção ou riscos para trabalhadores quando a decisão envolve um equipamento em movimento.
A Nvidia apresentou em Tóquio o Cosmos 3 Edge, modelo com 4 bilhões de parâmetros que pode ser executado diretamente em computadores instalados nos próprios robôs. O processamento local reduz a dependência de conexões contínuas com a nuvem e permite que máquinas analisem imagens, raciocinem e produzam comandos em tempo real. Fanuc, Fujitsu, Hitachi, Kawasaki, Kubota, Sony, SoftBank e Yaskawa estão entre as empresas que pretendem participar da coalizão criada em torno da plataforma.
Na prática, a tecnologia poderá ser usada em braços industriais, máquinas agrícolas, robôs hospitalares, veículos de transporte, sistemas de inspeção e equipamentos de construção. Cada aplicação ainda terá de passar por treinamento específico, validações de segurança e testes dentro do ambiente onde será utilizada.
Governo japonês colocou mais de 380 bilhões de ienes na primeira etapa
A Noetra recebeu mais de 380 bilhões de ienes em financiamento público para o primeiro ano do projeto, montante equivalente a aproximadamente US$ 2,33 bilhões pela cotação utilizada em julho de 2026. O presidente da empresa, Hironobu Tamba, afirmou que a iniciativa pode representar a “última chance” de o Japão recuperar autonomia em tecnologias essenciais.
O governo japonês quer evitar que informações industriais sensíveis precisem ser enviadas para sistemas estrangeiros. O modelo da Noetra deverá permitir que empresas treinem aplicações com dados de fábricas, hospitais e redes logísticas mantendo maior controle sobre armazenamento, acesso e uso comercial.
O Ministério da Economia, Comércio e Indústria reconhece que a expansão da inteligência artificial também cria um problema energético. Como o Japão importa boa parte dos combustíveis que utiliza, o consumo dos centros de processamento pode aumentar custos e pressionar a rede elétrica. Por isso, a eficiência computacional faz parte dos critérios do programa.
O centro de 140 MW terá demanda comparável à de uma instalação industrial de grande porte. A capacidade divulgada não significa que todo esse consumo ocorrerá desde o primeiro dia, mas indica a escala planejada para treinamento e operação dos modelos.
Dez milhões de robôs devem chegar a 18 setores até 2040
A infraestrutura da Noetra faz parte de uma estratégia mais ampla. O Japão estabeleceu como meta colocar aproximadamente 10 milhões de robôs com inteligência artificial em operação até 2040, distribuídos por 18 áreas econômicas e sociais.
De acordo com o Ministério da Economia japonês, a lista inclui manufatura, construção naval, logística, alimentação, produção de bebidas, serviços médicos e atendimento a idosos. A revisão da estratégia acrescentou saúde e setores ligados à alimentação entre as áreas prioritárias.
A pressão demográfica ajuda a explicar a urgência. Empresas japonesas enfrentam dificuldade crescente para contratar trabalhadores, especialmente para atividades repetitivas, fisicamente pesadas ou realizadas em horários irregulares. A automação aparece como uma tentativa de manter a produção e os serviços mesmo com a redução da população economicamente ativa.
O plano oficial busca atrair 10,5 trilhões de ienes em investimentos públicos e privados diretamente relacionados à IA física até o ano fiscal de 2040. Quando semicondutores e outras estruturas associadas são incluídos, a projeção sobe para 78,5 trilhões de ienes, embora esse valor represente uma meta governamental e não recursos já contratados.
A busca por soberania ainda depende de tecnologia americana
O projeto pretende criar modelos desenvolvidos no Japão, treinados com dados japoneses e colocados à disposição de empresas locais. No entanto, sua principal infraestrutura dependerá de processadores fornecidos por uma companhia dos Estados Unidos.
Esse aparente paradoxo mostra a diferença entre controlar toda a cadeia e controlar os elementos considerados estratégicos. O Japão não produzirá as GPUs Rubin, mas pretende manter dentro do país os dados industriais, as equipes de desenvolvimento, o treinamento dos modelos e as regras de acesso.
No lançamento do FRONTia, realizado em 16 de julho, cerca de 400 representantes do governo, da indústria e de centros de pesquisa participaram do encontro. Jensen Huang esteve ao lado do ministro Ryosei Akazawa, de executivos da Sony, SoftBank, NEC e Honda e de dirigentes de instituições públicas japonesas.
O resultado ainda dependerá do cumprimento do cronograma, da instalação dos equipamentos, da disponibilidade de energia e da capacidade das empresas de transformar modelos experimentais em máquinas seguras. A infraestrutura deve começar a operar em junho de 2028, enquanto a fase mais ambiciosa, capaz de compreender o mundo físico e comandar diferentes robôs, permanece prevista para 2030.
Você acredita que robôs controlados por inteligência artificial poderão reduzir a falta de trabalhadores sem provocar uma substituição excessiva de empregos? Deixe sua opinião nos comentários e conte em quais setores essa tecnologia poderia ajudar ou causar mais problemas.
