Ministro Mohsen Paknejad calcula que aproximadamente 161,4 bilhões de m³ poderão ser extraídos; a baixa presença de contaminantes pode reduzir os custos de tratamento, desenvolvimento e operação
A descoberta de gás no Irã alcança mais de 212,4 bilhões de metros cúbicos em um campo localizado no sul da província de Fars. O anúncio foi feito pelo ministro do Petróleo, Mohsen Paknejad, no domingo (23), enquanto o país tenta recuperar parte da produção perdida durante a guerra com Israel e os Estados Unidos.
O volume apresentado pelo governo corresponde a mais de 7,5 trilhões de pés cúbicos de gás no subsolo. Paknejad estima que aproximadamente 5,7 trilhões de pés cúbicos, ou 161,4 bilhões de metros cúbicos, sejam tecnicamente recuperáveis.
O número é expressivo, mas não representa gás pronto para chegar ao mercado. Entre a descoberta e a produção comercial ainda existem etapas de avaliação, perfuração, planejamento, instalação de equipamentos e conexão do campo à infraestrutura nacional.
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Dos 212,4 bilhões de m³ anunciados, cerca de 161,4 bilhões seriam recuperáveis
A diferença entre o volume total e o recuperável é central para compreender o anúncio. Os 212,4 bilhões de metros cúbicos indicam quanto gás foi identificado no campo, enquanto os 161,4 bilhões correspondem à parcela que o governo acredita ser possível extrair considerando as condições técnicas conhecidas.
A agência estatal iraniana Shana confirmou que o campo está localizado no sul de Fars, mas não informou seu nome, profundidade, quantidade de poços perfurados ou cronograma de desenvolvimento.
Para dimensionar o achado, o Irã produzia aproximadamente 650 milhões de metros cúbicos de gás por dia antes da guerra. Mantido esse ritmo apenas como referência matemática, o volume recuperável anunciado corresponderia a cerca de 248 dias de produção nacional, pouco mais de oito meses.
Isso não significa que o novo campo sustentaria todo o país durante esse período. A comparação serve apenas para mostrar a escala da descoberta, já que nenhum reservatório entra em produção instantaneamente nem opera isolado de limitações técnicas e logísticas.
Por que o gás “doce” pode custar menos para ser desenvolvido
Paknejad destacou que o gás encontrado é classificado como “doce”. No setor petrolífero, a expressão identifica o gás com baixa presença de sulfeto de hidrogênio e outros componentes ácidos, como dióxido de carbono.
Essas substâncias normalmente precisam ser removidas antes que o produto seja transportado e comercializado. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos explica que esse processo, conhecido como adoçamento, também é necessário porque o sulfeto de hidrogênio é tóxico e, junto com o dióxido de carbono, pode provocar corrosão nos gasodutos.
Um campo com gás naturalmente mais limpo pode exigir menos equipamentos de tratamento, consumir menos energia durante o processamento e reduzir problemas de corrosão. É por isso que a composição química importa quase tanto quanto o volume descoberto.
O governo iraniano, porém, não divulgou análises detalhadas sobre a composição do gás. Também não apresentou uma estimativa de investimento. A vantagem de custo anunciada pelo ministro ainda precisará ser confirmada durante a avaliação e o desenvolvimento do reservatório.
Descoberta ocorre após guerra retirar 230 milhões de m³ por dia da produção
O anúncio chega em um momento particularmente delicado para a indústria energética iraniana. Ataques realizados desde o início da guerra, no fim de fevereiro, retiraram cerca de 230 milhões de metros cúbicos por dia da capacidade de produção do país.
Essa perda equivale a aproximadamente 35% dos 650 milhões de metros cúbicos produzidos diariamente antes do conflito. Em julho, uma autoridade iraniana afirmou que o governo pretendia recuperar cerca de 100 milhões de metros cúbicos por dia nos meses seguintes, segundo a Reuters.
A redução da oferta agravou um desequilíbrio que já existia no sistema iraniano. Durante o verão, o aumento do uso de eletricidade para refrigeração pressionou a rede e contribuiu para interrupções no fornecimento a residências e empresas.
Ao mesmo tempo, Teerã enfrenta a perspectiva de novas sanções dos Estados Unidos capazes de dificultar financiamento, aquisição de equipamentos e relações comerciais. Nesse cenário, encontrar gás é apenas a primeira parte do desafio. Transformar o campo em produção exige capital, tecnologia e infraestrutura funcionando.
Governo ainda não informou quando o novo campo começará a produzir
O Ministério do Petróleo não revelou quem será responsável pelo desenvolvimento, quanto o projeto custará ou quando o primeiro gás poderá entrar no sistema nacional. Também não há informação pública sobre gasodutos, unidades de processamento ou instalações que precisarão ser construídas.
Essas lacunas impedem calcular o efeito da descoberta sobre a produção e as exportações iranianas. Um grande volume recuperável pode se tornar um ativo estratégico, mas seu impacto econômico depende da velocidade com que for convertido em produção comercial.
O anúncio resolveu duas partes importantes da equação: indicou a dimensão preliminar do campo e informou que o gás possui uma composição potencialmente mais barata de processar. Permanecem sem resposta justamente os pontos que definirão seu valor real: investimento, cronograma, certificação das reservas e data de início da produção.

