Referência em inclusão digital na Austrália, Dean Simes ensina idosos a lidar com sistemas atuais, celulares Android, aplicativos de mensagens e ferramentas de inteligência artificial, em projeto comunitário que atravessou diferentes fases da tecnologia desde a criação do Computer Pals.
Dean Simes, de 102 anos, virou referência em inclusão digital para idosos em Turramurra, na região norte de Sydney, ao liderar o Computer Pals for Seniors, clube voluntário que ensina desde Windows 11 até WhatsApp, Excel e ferramentas de inteligência artificial.
O trabalho ganhou reconhecimento público neste ano de 2026, quando o Conselho de Ku-ring-gai concedeu a Simes o título de Cidadão Local do Ano durante a cerimônia do Australia Day, em homenagem à atuação dele na alfabetização digital de moradores mais velhos.
Idosos aprendem Windows 11, Android e WhatsApp
Na rotina do Computer Pals, Simes ajuda alunos da terceira idade a lidar com tarefas que se tornaram parte da vida cotidiana, como configurar celulares Android, entender mensagens no WhatsApp, usar planilhas no Microsoft Excel e navegar por interfaces recentes do Windows.
-
Peixes somem e microrganismos tomam conta: a 301 metros no fundo do mar, o Buraco do Dragão revela um mundo sem oxigênio no Mar do Sul da China
-
Mais de 3.200 nanossatélites já foram lançados ao espaço, quase 3.000 são CubeSats, e a nova corrida espacial ficou menor, mais barata e muito mais lotada ao redor da Terra
-
Agro 5.0 invade o interior de SP com robôs movidos a sol, aplicativo que vigia 11 mil cabeças de gado e uma promessa curiosa de cortar desperdícios em até 90%
-
Motor a hidrogênio 100% puro entra na rede elétrica da Espanha pela primeira vez no mundo e mostra como o excesso de energia solar e eólica pode virar eletricidade limpa em momentos de alta demanda

A proposta do clube é reduzir a distância entre idosos e tecnologia, especialmente em um cenário no qual bancos, serviços públicos, consultas médicas, comunicação familiar e atividades simples dependem cada vez mais de computadores, smartphones e aplicativos conectados à internet.
Em visita da ABC Radio Sydney, Simes orientava Vera Last, de 94 anos, e Michael Last na configuração do WhatsApp em celulares Android, com apoio de uma aula projetada em tela grande e preparada com uso de inteligência artificial.
Vera relatou à emissora que já se considerou boa com computadores durante a vida profissional, mas passou a sentir dificuldade para acompanhar mudanças depois de anos afastada das rotinas digitais, situação comum entre pessoas que aprenderam tecnologia em outros contextos.
Computer Pals nasceu em 2000 e acompanhou mudanças do Windows
O Computer Pals for Seniors Turramurra foi criado em 2000 para ajudar idosos a entender o uso e os benefícios dos computadores na sociedade moderna, segundo informações do próprio clube, que funciona no Turramurra Senior Citizens Centre.
Desde então, o ambiente digital mudou de forma intensa. Em entrevista à ABC, Simes lembrou que, quando o clube começou, o Windows XP estava surgindo, enquanto hoje os alunos precisam lidar com o Windows 11 e com aplicativos atualizados com frequência.
A entidade informa que possui salas de treinamento climatizadas, telas de 58 polegadas, computadores conectados à internet, impressoras, copiadoras e estrutura usada tanto em cursos formais quanto em atendimentos individuais para quem leva o próprio equipamento.
O grupo também afirma ter matriculado quase 2 mil membros ao longo de sua trajetória, com atuação totalmente voluntária e tutores que, em muitos casos, passaram antes pelos cursos e conhecem as dúvidas típicas do público atendido.
Inteligência artificial exige perguntas mais precisas

A atuação de Simes não se limita aos programas tradicionais.
Com 102 anos, ele acompanha ferramentas de busca baseadas em inteligência artificial e defende que a utilidade desses sistemas depende diretamente da forma como o usuário formula a pergunta.
À ABC, o instrutor afirmou que perguntas genéricas podem levar o usuário a caminhos pouco úteis, com respostas afastadas da necessidade inicial.
Por isso, recomenda comandos objetivos, específicos e limitados ao problema que precisa ser resolvido.
“Você precisa ter cuidado ao fazer isso para garantir que sua pergunta seja o mais precisa e limitada possível”, disse Simes à emissora australiana, ao explicar como orienta idosos a lidar com buscas automatizadas e respostas geradas por IA.
A explicação sintetiza uma preocupação prática do projeto: não basta apresentar uma ferramenta nova ao aluno, pois é necessário ensinar como usá-la com segurança, paciência e autonomia, sem transformar cada dúvida em dependência permanente de terceiros.
Da mineração ao ensino de tecnologia para idosos
Antes de se tornar uma referência comunitária em tecnologia, Simes construiu carreira na indústria de mineração e depois atuou como consultor nos anos 1980, período em que se mudou para Sydney e passou a usar computadores no trabalho.
Mesmo tendo contato profissional com máquinas, ele só comprou um computador próprio de segunda mão quando já estava na casa dos 80 anos, segundo relatou à ABC, e precisou pedir ajuda para entender recursos básicos do equipamento.
A dificuldade inicial influenciou sua decisão de estudar mais.
Depois de se aposentar, Simes frequentou cursos de tecnologia no TAFE por três anos, com a intenção de ampliar o próprio conhecimento e ajudar outros integrantes do Computer Pals.
Com o tempo, assumiu a presidência do clube, passou a cuidar de parte relevante da estrutura usada nas aulas e se tornou responsável por orientar atividades sobre internet, e-mail, armazenamento de arquivos e ferramentas digitais usadas no cotidiano.
Prêmio reconheceu impacto comunitário em Sydney

Ao anunciar a premiação de 2026, o Conselho de Ku-ring-gai destacou que Simes vive na região há mais de 50 anos, serviu durante a Segunda Guerra Mundial e manteve envolvimento constante com atividades comunitárias depois da aposentadoria.
A prefeita Christine Kay afirmou que o conselho tinha orgulho de reconhecer o trabalho de Simes na promoção da alfabetização digital de idosos, além de citar o Computer Pals como um grupo comunitário que ajuda moradores a aprender novas habilidades.
Na mesma cerimônia, outras categorias também foram anunciadas, como Jovem Cidadã do Ano, Cidadã Ambiental do Ano e Prêmio do Prefeito por contribuição comunitária, mas o destaque dado a Simes esteve ligado ao impacto direto na inclusão digital.
O reconhecimento oficial reforçou a imagem de Simes como uma espécie de primeira referência local para dúvidas de tecnologia, travamentos, configurações e inseguranças comuns entre idosos que precisam acompanhar serviços digitais em mudança constante.
Rotina ativa inclui direção, academia e vida comunitária
Fora das aulas, Simes mantém uma rotina movimentada.
Segundo a ABC, ele joga bridge, participa de um clube Probus, passa tempo com seus seis filhos, continua dirigindo o próprio carro e frequenta academia para preservar a força muscular.
A própria prefeitura também registra a participação dele em grupos comunitários, atividades de música, boliche e tênis, além da presença em academia local como parte de um compromisso com saúde e convivência social.
Simes reconhece que, em algum momento, terá de deixar a liderança do Computer Pals, mas afirma que a agenda cheia o mantém longe do sedentarismo e com pouco tempo para permanecer parado, sem atividades ou compromissos.
Para muitos alunos, a idade do professor não aparece como obstáculo.
Michael Last disse à ABC que esse nunca foi um critério, enquanto o secretário-tesoureiro Bill Soper afirmou que o conhecimento de Simes sobre computadores é amplamente respeitado no clube.
A trajetória do instrutor mostra como projetos comunitários podem reduzir barreiras digitais entre idosos, especialmente quando combinam paciência, repetição supervisionada e orientação prática para problemas reais, como mensagens, senhas, atualizações e serviços online.

-
-
2 pessoas reagiram a isso.