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Helicópteros farão mais de 100 voos por dia durante três semanas para carregar pelo céu e despejar até 3 mil troncos gigantes de nove metros no rio devastado pelo Monte St. Helens, redesenhar canais destruídos pela erupção e devolver abrigo a seis populações ameaçadas de salmões e trutas

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Escrito por Ana Alice Publicado em 26/07/2026 às 18:48
Assista o vídeoHelicópteros levam milhares de troncos ao South Fork Toutle para reconstruir canais e criar abrigo para seis populações de salmões e trutas. (Imagem: Ilustrativa)
Helicópteros levam milhares de troncos ao South Fork Toutle para reconstruir canais e criar abrigo para seis populações de salmões e trutas. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma operação aérea de grandes proporções leva milhares de troncos a um rio transformado por uma erupção vulcânica, em um projeto que combina engenharia ambiental, recuperação florestal e proteção da vida aquática.

O som dos helicópteros passou a acompanhar o curso do South Fork Toutle, no estado de Washington, nos Estados Unidos, durante uma operação pouco comum: transportar pelo ar milhares de troncos inteiros e estruturas com raízes para dentro do rio.

Ao longo de três semanas, as aeronaves devem realizar mais de 100 viagens por dia para levar entre 2 mil e 3 mil peças de madeira até uma área de difícil acesso.

Parte dos troncos mede entre 7,6 e 9,1 metros, dimensão que torna o deslocamento por estradas ou máquinas terrestres mais complexo.

A madeira não será retirada do local depois do transporte.

Ela faz parte de um projeto de engenharia ambiental que procura reconstruir canais laterais, áreas alagáveis e pontos de abrigo para salmões e trutas em um vale alterado pela erupção do Monte St. Helens, ocorrida em 18 de maio de 1980.

O trabalho é conduzido pelo Lower Columbia Fish Enhancement Group, organização sem fins lucrativos dedicada à recuperação de peixes e ambientes aquáticos no sudoeste de Washington.

A operação conta com helicópteros da Columbia Helicopters, empresa sediada no estado vizinho do Oregon.

Por que milhares de troncos serão colocados no rio

À primeira vista, colocar milhares de troncos na água pode parecer uma forma de obstruir o curso do rio.

Em ambientes naturais, porém, árvores caídas cumprem diferentes funções na formação do habitat.

Quando ficam presas entre margens, pedras e outras peças de madeira, elas reduzem a velocidade da corrente em determinados pontos.

Atrás desses obstáculos, surgem áreas de água mais calma onde peixes jovens podem descansar, procurar alimento e se esconder de predadores.

Os troncos também mudam a direção do fluxo.

Com o tempo, a água abre pequenas passagens, cria poços mais profundos e volta a ocupar braços laterais que haviam sido desconectados do canal principal.

Sedimentos transportados pela corrente podem se acumular ao redor da madeira.

Esse processo ajuda a criar bancos, ilhas e superfícies onde plantas nativas conseguem se estabelecer.

Segundo o Washington State Recreation and Conservation Office, a instalação de troncos e raízes forma áreas de descanso, alimentação e proteção para os peixes.

A madeira também favorece o aparecimento de corredeiras, poços e trechos com diferentes profundidades, ampliando a variedade do habitat.

Helicópteros transportam troncos até área remota

O ponto escolhido para a intervenção fica em uma região montanhosa e afastada.

Levar peças com vários metros de comprimento por terra exigiria abrir caminhos, movimentar máquinas pesadas e atravessar áreas que o próprio projeto tenta recuperar.

A solução foi buscar a madeira em uma área de exploração florestal localizada a aproximadamente 1,6 quilômetro do trecho em obras.

O Lower Columbia Fish Enhancement Group comprou uma área de cerca de 31,6 hectares oferecida em uma venda pública do Departamento de Recursos Naturais de Washington.

Um helicóptero voa ao longo do vale do rio South Fork Toutle transportando um tronco grande para o projeto de restauração de habitat de salmão do Lower Columbia Fish Enhancement Group. Nos últimos anos, o grupo colocou centenas de troncos dentro e ao longo do rio South Fork Toutle. (Imagem: Lower Columbia Fish Enhancement Group)
Um helicóptero voa ao longo do vale do rio South Fork Toutle transportando um tronco grande para o projeto de restauração de habitat de salmão do Lower Columbia Fish Enhancement Group. Nos últimos anos, o grupo colocou centenas de troncos dentro e ao longo do rio South Fork Toutle. (Imagem: Lower Columbia Fish Enhancement Group)

O negócio custou mais de US$ 2 milhões.

De acordo com Morgan Morris, diretora-executiva da organização, comprar a madeira em outro lugar e levá-la até o rio poderia elevar o custo para cerca de US$ 4,6 milhões.

“Precisávamos vencer a venda”, afirmou Morris ao jornal The Columbian.

Segundo ela, o grupo considerou justo o valor pago pela área.

Depois do corte, os troncos são preparados para o transporte aéreo.

Cabos presos sob os helicópteros permitem retirar as peças da área de extração e colocá-las nos pontos definidos pelos responsáveis técnicos.

O método reduz a necessidade de transportar as árvores por estradas estreitas e evita que equipamentos terrestres percorram toda a região de restauração.

A rapidez também permite deslocar grande quantidade de madeira dentro de uma janela limitada de condições secas e tempo estável.

Erupção do Monte St. Helens transformou o vale

O South Fork Toutle é um dos braços do sistema do rio Toutle, que nasce nas proximidades do Monte St. Helens.

Quando o vulcão entrou em erupção, fluxos de lama, rochas, cinzas e outros detritos desceram pelos vales.

Esses fluxos são chamados de lahars.

Eles se comportam como rios densos de lama e material vulcânico, capazes de transportar pedras, árvores e grandes volumes de sedimentos em alta velocidade.

A erupção enviou bilhões de metros cúbicos de detritos pelos braços norte e sul do Toutle, além dos rios Cowlitz e Columbia.

O excesso de sedimentos alterou canais, reduziu a capacidade de escoamento e afetou ambientes usados por peixes.

No South Fork Toutle, o lahar removeu vegetação e mudou a forma do vale.

Depois do desastre, operações de aproveitamento de madeira retiraram grande parte dos troncos que permaneciam no sistema, segundo Morgan Morris.

Sem raízes, árvores e florestas ribeirinhas suficientes para conter a corrente, o rio passou a se deslocar de uma parede do vale à outra.

Esse movimento dificultou a formação de margens estáveis e de canais secundários.

“O que restou foi basicamente o lahar, e o rio vem correndo de um lado para outro do vale, impedindo que o habitat ribeirinho ou dos peixes se estabeleça”, explicou Morris.

A intervenção atual procura devolver parte da complexidade física que existia no período posterior à erupção, quando o vale ainda estava preenchido por madeira derrubada.

Engenharia ambiental define a posição da madeira

O objetivo não é simplesmente lançar troncos em qualquer ponto.

Engenheiros, técnicos e especialistas em recuperação de rios definem onde cada estrutura deve ficar para produzir efeitos específicos sobre a corrente.

“O que estamos fazendo é recolocar essas estruturas de madeira, usando o helicóptero para levá-las e, de certa forma, reajustando o rio para a condição posterior à erupção: cheio de troncos, mas de uma maneira mais controlada e projetada”, disse Morris.

Algumas peças ficam parcialmente enterradas ou presas a outras árvores.

Um trator florestal (*skidder*) é utilizado para posicionar um tronco no rio South Fork Toutle em julho de 2025. (Imagem: Lower Columbia Fish Enhancement Group)
Um trator florestal (*skidder*) é utilizado para posicionar um tronco no rio South Fork Toutle em julho de 2025. (Imagem: Lower Columbia Fish Enhancement Group)

Estruturas com grandes conjuntos de raízes oferecem superfícies irregulares, frestas e áreas de sombra que podem ser usadas pelos peixes.

Em determinados trechos, a madeira ajuda a empurrar a água para canais laterais.

Em outros, sua função é diminuir a velocidade do fluxo ou estimular a formação de poços.

O projeto também prevê o plantio de árvores e plantas nativas, entre elas salgueiros e espécies conhecidas como cottonwoods.

As raízes ajudam a estabilizar o solo, enquanto galhos e folhas fornecem sombra ao rio.

Com o crescimento da vegetação, a intenção é permitir que a planície de inundação volte a desenvolver parte de seus processos naturais.

A própria floresta poderá, no futuro, fornecer novos galhos e troncos ao curso d’água.

South Fork Toutle abriga seis populações de peixes

O vale é considerado prioritário por reunir populações de seis grupos de peixes migratórios: salmão chinook de outono, chinook de primavera, salmão coho, salmão chum, steelhead de inverno e steelhead de verão.

Steelhead é o nome dado a uma forma migratória da truta-arco-íris.

Esses peixes nascem em água doce, seguem para o oceano e depois retornam aos rios para se reproduzir, em um ciclo semelhante ao dos salmões do Pacífico.

Steve Manlow, diretor-executivo do Lower Columbia Fish Recovery Board, afirmou que as populações presentes na área estão protegidas pela Lei de Espécies Ameaçadas dos Estados Unidos.

“Não existem muitas bacias hidrográficas que tenham todas as espécies listadas”, declarou Manlow.

Documentos do estado de Washington classificam o South Fork Toutle como uma bacia de alta prioridade para a recuperação de salmões e steelheads da parte baixa do rio Columbia.

O local abriga populações consideradas importantes de chinook de outono, coho e steelhead de inverno.

A organização responsável pelo projeto também destaca a presença de chinooks de primavera que se reproduzem naturalmente.

Nessa área, os peixes conseguem alcançar parte dos locais de desova sem precisar atravessar represas ou depender de transporte em caminhões.

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Recuperação do rio começou antes da operação aérea

O lançamento de milhares de troncos não representa a primeira intervenção no South Fork Toutle.

Projetos anteriores já trabalharam na recuperação do chamado Brownell Reach, um trecho onde a planície ao redor do rio se alarga.

Durante o verão de 2024 no Hemisfério Norte, equipes instalaram 1.748 troncos em um segmento de aproximadamente 960 metros.

As peças foram organizadas em 155 estruturas de madeira destinadas a modificar a corrente e ampliar o habitat.

A nova etapa expande esse tipo de intervenção para uma área maior nas cabeceiras do South Fork Toutle.

Além da instalação de madeira, o plano envolve a reconexão da planície de inundação e a recuperação da vegetação das margens.

Projetos oficiais anteriores já descreviam a intenção de acelerar o retorno de florestas maduras ao vale.

O rio ainda enfrenta os efeitos combinados da erupção, da retirada posterior dos troncos e do uso das áreas próximas para produção florestal.

A paisagem não deverá assumir uma forma fixa depois da obra.

Rios continuam movimentando sedimentos, derrubando árvores e mudando seus canais durante cheias.

As estruturas são instaladas para direcionar parte desse processo, não para impedir que ele ocorra.

Depois que os helicópteros encerrarem as viagens, a transformação continuará sob a ação da água.

Troncos poderão mudar de posição, sedimentos deverão se acumular e novos caminhos poderão surgir entre o canal principal e as áreas laterais.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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