Nova etapa vai avaliar consumo, emissões, desempenho e durabilidade antes de qualquer decisão sobre a gasolina E35, enquanto a mistura com 32% de etanol continua sendo usada temporariamente nos postos brasileiros.
O governo federal avançou na avaliação da chamada gasolina E35, mistura formada por 35% de etanol anidro e 65% de gasolina.
O cronograma de testes foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro, o CTP-CF, em setembro de 2026. A nova etapa deverá verificar consumo, emissões, desempenho e durabilidade antes de qualquer mudança no combustível vendido aos motoristas.
A autorização dos testes não significa que a E35 já esteja liberada nos postos.
-
Fiat Toro híbrida leve estreia com motor 1.3 turbo de 176 cv e sistema elétrico de 48 V, mas versão Volcano custa R$ 197,5 mil, entrega tração apenas dianteira, não roda sozinha no modo elétrico e ainda fica sem piloto automático adaptativo e câmera 360º, segundo avaliação em teste
-
Toyota Hilux movida a ‘água’ chega com motor elétrico, 400 km de autonomia estimada, reabastecimento em 5 minutos e força para puxar 2.500 kg com tecnologia que transforma hidrogênio em eletricidade.
-
Sedã automático de 563 litros fora de linha vale até R$ 64,6 mil usado, teve recall por risco de incêndio, o manual “dispensa” trocar o óleo do câmbio, mas um dono trocou aos 100 mil km e viu a cor que saiu
-
Som automotivo aumenta o consumo? Gol AP funciona 10 minutos a menos durante teste com volume alto
Atualmente, a gasolina comum e a comum aditivada comercializadas no Brasil utilizam temporariamente 32% de etanol anidro, a chamada E32. A mistura entrou em vigor em 1º de agosto de 2026 e tem validade inicial de 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período.
A gasolina premium continua com 25% de etanol.
E35 ainda precisa passar por testes antes de chegar aos postos
A possibilidade de elevar o percentual de etanol até 35% está prevista na Lei nº 14.993/2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro.
A legislação permite que o Poder Executivo aumente a proporção obrigatória de etanol anidro na gasolina até esse limite, desde que exista comprovação da viabilidade técnica da nova mistura.
Na prática, portanto, a lei abre espaço para a gasolina E35, mas não determina que ela seja automaticamente comercializada.
Antes de chegar às bombas, a nova composição terá de passar pelos ensaios previstos, ter os resultados avaliados e receber posteriormente a aprovação do Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE.
Brasil já usa gasolina E32 desde agosto
Antes da discussão sobre os 35%, o país passou por outra mudança recente.
Em julho de 2026, o CNPE aprovou temporariamente o aumento do teor obrigatório de etanol anidro de 30% para 32% na gasolina comum e na comum aditivada.
A mudança entrou em vigor em 1º de agosto e foi estabelecida inicialmente por 180 dias, com possibilidade de prorrogação única por igual período.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, os estudos utilizados na decisão avaliaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões em veículos leves e motocicletas considerados representativos da frota brasileira.
A pasta informou que os resultados não indicaram impactos relevantes no funcionamento dos veículos analisados.
A decisão, porém, provocou questionamentos de representantes da indústria automotiva.
Montadoras questionaram testes realizados para a E32
Entidades do setor, entre elas Anfavea, Abeifa e Sindipeças, manifestaram preocupação com a elevação do percentual de etanol acima dos 30%.
As associações defenderam avaliações mais amplas, principalmente sobre durabilidade, corrosão, compatibilidade de materiais e efeitos de longo prazo.
O receio envolve especialmente veículos que não foram originalmente projetados levando em consideração concentrações mais elevadas de etanol na gasolina.
O tema também chegou ao Tribunal de Contas da União.
Em setembro de 2026, o TCU analisou uma representação contra a adoção da E32 e registrou que havia lacunas em alguns ensaios realizados anteriormente.
Entre os pontos mencionados estavam testes de durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais a longo prazo.
Segundo o tribunal, essas avaliações estavam previstas justamente para uma etapa posterior envolvendo misturas de E35 ou superiores.
Apesar das observações, o plenário considerou a representação improcedente e não suspendeu a utilização da E32.
MPF também questionou aumento do etanol
O Ministério Público Federal apresentou outro questionamento, desta vez na Justiça Federal.
Em julho de 2026, o MPF ajuizou uma ação civil pública pedindo a suspensão da mudança de E30 para E32 até que fossem apresentados estudos que, segundo o órgão, comprovassem de maneira suficiente a segurança da composição para a frota nacional.
A ação também pediu avaliações independentes e levantou dúvidas sobre possíveis efeitos de longo prazo em diferentes tipos de veículos.
Apesar da contestação, a E32 entrou efetivamente em vigor em 1º de agosto de 2026 e continua sendo a mistura temporariamente adotada na gasolina comum e aditivada.
O processo judicial movido pelo MPF é diferente da representação analisada pelo TCU.
O que pode mudar no consumo com a gasolina E35
Uma das principais questões que os novos testes deverão medir é o consumo de combustível.
O etanol possui menor conteúdo energético por litro do que a gasolina. Com uma participação maior na mistura, existe tendência de alteração na quantidade necessária para percorrer determinada distância.
O efeito concreto, porém, pode variar conforme o motor, a calibração eletrônica, o tipo de injeção, as condições de condução e outras características de cada veículo.
Especialistas ouvidos pela Autoesporte explicam que automóveis flex modernos possuem sistemas eletrônicos capazes de identificar mudanças nas características do combustível e ajustar parâmetros de funcionamento.
O etanol também apresenta maior resistência à detonação, característica que pode ser aproveitada por determinadas estratégias de gerenciamento eletrônico do motor.
Por isso, não é adequado assumir que a passagem de E32 para E35 produzirá exatamente o mesmo aumento de consumo em todos os veículos.
A dimensão desse efeito é justamente um dos pontos que os novos ensaios deverão medir.

Carros antigos exigem atenção nos testes
A análise ganha importância quando entram em cena veículos antigos ou modelos desenvolvidos exclusivamente para gasolina.
Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, afirmou à Autoesporte que determinados automóveis mais antigos não foram preparados para teores tão elevados de etanol.
Entre os componentes que precisam ser observados estão borrachas, elastômeros, mangueiras, vedações e outros materiais que mantêm contato permanente com o combustível.
Gabriel Estevam Domingos, engenheiro e diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ambipar, também ressaltou a necessidade de avaliar como esses componentes se comportam durante longos períodos de utilização.
A preocupação coincide com os pontos registrados pelo TCU sobre durabilidade, corrosão e compatibilidade de materiais no longo prazo.
Testes precisam ir além do funcionamento imediato
Verificar se um carro consegue ligar e circular com determinada mistura é apenas uma parte da avaliação.
Os ensaios previstos para a E35 deverão observar impactos que podem aparecer somente após uso prolongado, além de medir consumo, emissões, dirigibilidade e resposta de diferentes sistemas do veículo.
O Ministério de Minas e Energia vinha estruturando uma rede nacional de pesquisa com participação de governo, universidades, indústria automotiva, fabricantes de motores, empresas de combustíveis e centros de pesquisa.
A proposta é reunir dados técnicos suficientes para embasar uma eventual decisão sobre misturas com maior participação de biocombustíveis.
Governo relaciona maior teor de etanol à segurança energética
Ao justificar a adoção temporária da E32, o Ministério de Minas e Energia afirmou que uma participação maior de etanol reduz a necessidade de importar gasolina.
A pasta estimou uma redução anual de aproximadamente 900 milhões de litros nas importações, considerando os efeitos projetados da mistura.
O governo também relacionou a medida à volatilidade internacional do petróleo e dos combustíveis.
Esses argumentos fazem parte da política prevista na Lei do Combustível do Futuro, que procura ampliar a participação de biocombustíveis e estabelecer critérios para novas misturas.
A eventual chegada aos 35%, entretanto, continua condicionada aos resultados técnicos.
E35 ainda não tem data para chegar às bombas
Mesmo com o avanço do plano de testes, não existe uma data confirmada para que a E35 substitua a E32 nos postos brasileiros.
Primeiro, os ensaios precisam ser executados.
Depois, os resultados deverão demonstrar a viabilidade técnica da composição, conforme exige a legislação.
Somente após essa etapa o CNPE poderá decidir se eleva ou não o percentual obrigatório de etanol anidro na gasolina.
Até que isso aconteça, a referência para os motoristas continua sendo a E32 na gasolina comum e aditivada, enquanto a gasolina premium mantém 25% de etanol.
A nova rodada de testes terá justamente a função de responder às dúvidas que ganharam força durante a discussão sobre a E32: quanto o consumo pode mudar, quais veículos são mais sensíveis ao aumento do teor de etanol e como componentes de motores e sistemas de combustível se comportam depois de milhares de quilômetros de uso.

