1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Fósseis de 2,1 bilhões de anos estavam escondidos na parede de uma universidade federal e milhares de estudantes passaram décadas caminhando ao lado deles sem saber
Faça um comentário 7 min de leitura

Fósseis de 2,1 bilhões de anos estavam escondidos na parede de uma universidade federal e milhares de estudantes passaram décadas caminhando ao lado deles sem saber

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 28/07/2026 às 15:02 Atualizado em 28/07/2026 às 15:07
Fósseis de 2,1 bilhões de anos foram identificados no mármore de uma universidade federal em Belo Horizonte. Veja onde estão e como reconhecê los.
Fósseis de 2,1 bilhões de anos foram identificados no mármore de uma universidade federal em Belo Horizonte. Veja onde estão e como reconhecê los.
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

O professor que identificou as marcas desconfiava delas havia cerca de oito anos antes de confirmar. As formas circulares no mármore lembram pelagem de onça e correspondem a colônias de bactérias que cresceram uma sobre a outra, como moedas empilhadas.

Fósseis de estromatólitos com aproximadamente 2,1 bilhões de anos foram identificados no revestimento de mármore da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, conforme divulgado pela própria instituição em 27 de julho de 2026. As estruturas estão entre os registros fósseis mais antigos já encontrados no Brasil e ficam expostas no hall de entrada do prédio, em área de circulação diária.

A identificação foi feita pelo professor Kennedy Martinez, do Departamento de Anatomia e Imagem da universidade federal. Ele suspeitava da presença daquelas formas havia cerca de oito anos, e a confirmação só veio depois de um processo de documentação fotográfica, comparações detalhadas e consultas a especialistas em paleontologia.

O que são estromatólitos, afinal

O nome é técnico e a explicação é simples. Estromatólitos são estruturas formadas por colônias de cianobactérias, microrganismos que viviam agrupados em ambientes aquáticos rasos.

O processo de formação envolve acúmulo. Essas colônias retinham sedimentos que passavam pela água e produziam camadas minerais sucessivas, uma sobre a outra, ao longo de períodos muito longos. Com o tempo, esse empilhamento endureceu e virou rocha.

O que sobrou dessa atividade não é um esqueleto nem uma concha, como no caso de fósseis mais familiares ao público. É o registro da própria construção feita pelas bactérias, uma espécie de arquitetura microbiana preservada na pedra.

Estromatólitos e os organismos que os produziram dominaram o registro fóssil do planeta inteiro por mais de 2 bilhões de anos. Durante boa parte da história da Terra, eles eram praticamente o único vestígio de vida disponível.

Oito anos de desconfiança até a confirmação

Fósseis de 2,1 bilhões de anos foram identificados no mármore de uma universidade federal em Belo Horizonte. Veja onde estão e como reconhecê los.
Fósseis de 2,1 bilhões de anos foram identificados no mármore de uma universidade federal em Belo Horizonte. Veja onde estão e como reconhecê los.

A história por trás da identificação tem um elemento humano que costuma se perder nas manchetes: ninguém acorda um dia e descobre um fóssil de 2 bilhões de anos na parede do trabalho.

Kennedy Martinez observava aquelas formas arredondadas no revestimento havia anos, e a suspeita começou cerca de oito anos antes do anúncio. Ele passou a fotografá las sistematicamente para investigar a origem.

A confirmação exigiu método. Foi preciso reunir documentação fotográfica, fazer comparações detalhadas com registros conhecidos e consultar pesquisadores da área de paleontologia, que é uma especialidade distinta da dele, ligada à anatomia.

Há um detalhe institucional curioso nisso. A identificação partiu de um professor de anatomia, não de um geólogo ou paleontólogo, e chegou ao resultado justamente por consultar quem tinha a formação específica. É um exemplo prático de como observação atenta e colaboração entre áreas produzem resultado dentro de uma universidade federal.

Por que as marcas lembram pelagem de onça

A comparação visual usada pelos pesquisadores é o que ajuda o leitor a entender o que está vendo, e é bastante precisa.

No mármore da faculdade, os estromatólitos aparecem em cortes transversais. Isso acontece porque a pedra foi serrada para virar revestimento, e o corte atravessou as antigas colônias, expondo o interior delas.

O resultado são desenhos elípticos e circulares distribuídos pela superfície, com contornos que lembram a pelagem de uma onça. Não é padrão decorativo escolhido por arquiteto: é o desenho que a natureza produziu e que a serra revelou por acaso.

Sobre o que cada mancha representa, o professor usa uma analogia bastante direta. Cada uma dessas marcas corresponde a uma antiga colônia de cianobactérias que cresceu verticalmente, em processo comparável ao empilhamento de moedas. Quem olha para a parede está vendo o corte de uma pilha.

De onde veio a pedra

O material tem endereço conhecido e ele não fica longe de Belo Horizonte. O revestimento é um mármore dolomítico extraído da antiga Pedreira Cumbi, na região de Ouro Preto.

Mármore dolomítico é uma rocha natural composta por carbonato de cálcio e magnésio, diferente do mármore calcítico mais comum. A pedreira era conhecida justamente pela extração desse tipo de material.

A escolha da pedra, na época da construção, foi certamente estética e prática. Ninguém no processo tinha ideia de que estava instalando registros de vida primitiva nas paredes de uma escola de medicina.

Isso significa que material semelhante pode estar em outros lugares. Se a pedreira forneceu para uma obra, provavelmente forneceu para outras, e é razoável supor que existam estromatólitos do mesmo período em outros edifícios revestidos com pedra da mesma origem.

Quando Minas Gerais estava debaixo do mar

O contexto geológico é o que dá sentido à idade dos fósseis, e ele contraria a imagem que qualquer pessoa tem de Minas Gerais.

Há cerca de 2 bilhões de anos, grande parte do território que hoje corresponde ao estado era coberta por mares rasos e quentes. Esse ambiente é exatamente o mais favorável à proliferação de cianobactérias, que precisam de luz, água calma e temperatura elevada.

O estado mais montanhoso e mais distante do litoral do Sudeste brasileiro era, naquele período, fundo de mar. As mesmas serras que hoje separam Minas do oceano se formariam muito depois, em processos geológicos posteriores.

A pedra que reveste o prédio não veio de outro país nem de outro continente, veio de uma pedreira a poucas horas de distância, e carrega o registro daquele mar antigo.

O papel das cianobactérias na atmosfera que respiramos

Aqui está a parte da história que ultrapassa a curiosidade local, porque envolve todo mundo que respira.

Cianobactérias realizam fotossíntese e liberam oxigênio como subproduto. Durante um período longuíssimo da história da Terra, essa atividade foi a principal responsável por aumentar a quantidade de oxigênio disponível na atmosfera do planeta.

Antes disso, a atmosfera terrestre era essencialmente sem oxigênio livre. A transformação promovida por esses microrganismos é considerada uma das grandes mudanças da história do planeta e abriu caminho para praticamente todas as formas de vida complexa que vieram depois.

Os exemplares identificados na universidade federal datam de aproximadamente 2,1 bilhões de anos, período que se situa logo após o intervalo em que essa oxigenação da atmosfera avançou de forma decisiva. São, portanto, testemunhas contemporâneas de uma das viradas mais importantes que já aconteceram na Terra.

Onde exatamente dá para ver

Para quem quiser conferir, os fósseis não estão em sala fechada nem em vitrine de museu. Eles estão à vista.

As estruturas podem ser observadas no saguão principal da Faculdade de Medicina, na região hospitalar de Belo Horizonte, e também em áreas da biblioteca da unidade.

O revestimento é original e nunca passou por reformas significativas desde a construção do edifício, segundo o professor responsável pela identificação. É exatamente por isso que as marcas continuam lá.

Vale um alerta de expectativa. Trata-se de revestimento de parede em prédio universitário em funcionamento, não de atração turística com sinalização, iluminação dirigida e visita guiada. Quem for até lá precisa saber o que está procurando, e a comparação com pelagem de onça é a melhor pista disponível.

O que essa identificação significa de fato

Vale calibrar o alcance da notícia, porque manchetes sobre fósseis costumam gerar expectativa desproporcional.

Não se trata da descoberta de uma nova espécie nem de uma escavação paleontológica em campo. Trata-se do reconhecimento de que um material geológico com valor científico e histórico estava, sem que ninguém soubesse, cumprindo função de revestimento em um prédio público.

Isso não diminui a relevância. Estar entre os registros fósseis mais antigos do Brasil é um dado significativo, e o fato de estarem acessíveis em área de circulação transforma o edifício em uma espécie de arquivo geológico aberto, com valor didático imediato para estudantes de várias áreas.

O caso também levanta uma pergunta prática que ninguém respondeu ainda. Não há informação pública sobre se as paredes receberão sinalização explicativa, se haverá algum tipo de proteção do revestimento ou se o material será estudado de forma mais aprofundada por pesquisadores da área.

O que sobra dessa história

Um mármore serrado em pedreira mineira, colônias de bactérias que viveram quando Minas era mar, um professor de anatomia que passou oito anos desconfiando de umas manchas na parede e décadas de estudantes atravessando o saguão sem olhar para cima. A identificação na universidade federal mostra que patrimônio geológico não está só em parque nacional: às vezes está no corredor do prédio onde você passa todo dia.

E você, já reparou nas pedras dos lugares por onde passa? Sabendo disso, olharia com outros olhos o piso de mármore do fórum, do shopping ou do prédio da sua cidade? Você acha que a universidade deveria sinalizar essas paredes para o público ou que o melhor é deixar como está, sem chamar atenção e sem risco de dano? E mais: qual foi a coisa mais surpreendente que você descobriu sobre um lugar que frequentava há anos? Comente aí, principalmente se você é da área de geologia, biologia ou arquitetura e já topou com algo parecido.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x