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Filho de diarista e pedreiro começou a trabalhar aos 15 anos, virou garçom para pagar transporte e comida, chegou a conciliar três empregos e sofreu anos de reprovações até vencer 8.861 candidatos, tornar-se diplomata do Itamaraty e prometer aposentar a mãe após 40 anos trabalhando como diarista

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Escrito por Ana Alice Publicado em 15/08/2026 às 03:06 Atualizado em 15/08/2026 às 03:07
Assista o vídeoDouglas Rocha durante a trajetória que o levou ao Itamaraty e, à direita, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a aprovação na carreira diplomática. Fotos: Montagem/Arquivo pessoal (esq.) e Ricardo Stuckert/PR (dir.)
Douglas Rocha durante a trajetória que o levou ao Itamaraty e, à direita, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após a aprovação na carreira diplomática. Fotos: Montagem/Arquivo pessoal (esq.) e Ricardo Stuckert/PR (dir.)
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Entre bandejas, ônibus, bolsas de estudo e sucessivas tentativas no concurso, Douglas Rocha construiu um caminho improvável até o Itamaraty, onde passou a integrar a carreira diplomática depois de anos conciliando trabalho e formação.

Durante anos, Douglas Rocha Almeida carregou bandejas nos fins de semana enquanto tentava pagar ônibus, alimentação e os estudos entre Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, e Brasília.

Em outros momentos, dividiu uma república de três quartos com cerca de 20 pessoas, viveu durante semanas basicamente de macarrão e ovo e chegou a enfrentar sucessivas reprovações no concurso que havia escolhido como objetivo profissional.

A sequência mudou definitivamente em 20 de janeiro de 2026, quando Douglas, aos 31 anos, tomou posse na carreira diplomática brasileira como terceiro-secretário do Ministério das Relações Exteriores.

Um dia depois, a própria Capes destacou oficialmente a trajetória do ex-bolsista, que passou pelo mestrado antes de chegar ao Itamaraty.

Filho de mãe diarista e pai pedreiro, Douglas começou a conciliar estudo e trabalho aos 15 anos e passou por estágio, festas infantis, serviços como garçom, traduções e consultorias antes de conseguir se dedicar de maneira mais consistente ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, o CACD.

Douglas terminou na 46ª colocação geral, com nota final de 710,27, dentro das 50 vagas oferecidas para a classe inicial da carreira.

A aprovação também trouxe uma mudança financeira que ele próprio definiu como drástica.

A remuneração inicial bruta prevista para o cargo de terceiro-secretário era de R$ 22.558,56, valor mantido no edital seguinte do Instituto Rio Branco, em 2026.

Para Douglas, uma das primeiras prioridades com a nova renda não estava ligada a algum plano de consumo.

Ele dizia querer permitir que a mãe, depois de cerca de quatro décadas trabalhando como diarista, reduzisse o ritmo de trabalho.

O que eu quero fazer com esse dinheiro mesmo é aposentar minha mãe da profissão de diarista”, disse. Segundo Douglas, Cida já acumulava cerca de 40 anos trabalhando como diarista e enfrentava problemas de saúde.

Douglas Rocha Almeida tomou posse na carreira diplomática brasileira em janeiro de 2026, depois de anos conciliando trabalho, estudos e preparação para o CACD. Crédito: Arquivo pessoal / CAPES.
Douglas Rocha Almeida tomou posse na carreira diplomática brasileira em janeiro de 2026, depois de anos conciliando trabalho, estudos e preparação para o CACD. Crédito: Arquivo pessoal / CAPES.

Aos 15 anos, estágio de R$ 290 ajudava Douglas a pagar o transporte

Douglas nasceu em Brasília, mas cresceu como morador de Luziânia, em Goiás.

Aos 15 anos, ingressou no Centro de Ensino Médio Elefante Branco, no Distrito Federal, e começou a estagiar no então Ministério da Fazenda.

Recebia R$ 290 por mês.

O dinheiro ajudava principalmente a pagar o transporte entre Luziânia e o Plano Piloto.

Dentro do ministério, começou trabalhando no almoxarifado. Posteriormente, foi levado para o setor de tecnologia da informação.

Foi nessa experiência que passou a observar mais de perto o funcionamento do serviço público.

Ao mesmo tempo, a escola abriu outra possibilidade que até então não fazia parte de seu cotidiano.

Douglas contou que chegou ao ensino médio sem conhecer a Universidade de Brasília.

“Até então, nunca tinha ouvido falar da Universidade de Brasília (UnB), eu só fui ouvir falar quando comecei o ensino médio no Elefante Branco, porque era o desejo da maioria dos estudantes de lá”, afirmou ao Correio Braziliense.

Trabalho em festas veio antes das mesas de restaurante

Na casa de Douglas, a renda dependia principalmente do trabalho da mãe, Cida, que sustentava a família como diarista.

Ela também tinha outras três filhas.

Além do estágio, o adolescente buscou outras formas de complementar o orçamento.

Durante um período, passou a trabalhar em uma casa de festas nos fins de semana. Começou como monitor dos brinquedos e fazia pinturas no rosto das crianças.

O trabalho de garçom viria depois, quando as despesas com a universidade aumentaram.

Em 2014, Douglas conseguiu uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos, o ProUni, para cursar Relações Internacionais na Universidade Católica de Brasília.

Paralelamente, começou Letras-Espanhol na UnB.

As duas graduações criavam uma rotina geográfica complicada.

Era preciso sair de Luziânia, seguir para a região do Pistão Sul, onde estudava na Universidade Católica, e depois chegar à Asa Norte, onde ficava parte de sua rotina na UnB.

Transporte e alimentação pesavam no orçamento. Foi nesse período que Douglas começou a trabalhar como garçom.

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Trabalho de garçom ajudava a bancar duas graduações

Segundo Douglas, o trabalho como garçom rendia aproximadamente R$ 300 por fim de semana, além das gorjetas.

O dinheiro servia para financiar deslocamentos e alimentação.

“O custo da passagem de Luziânia para o Pistão Sul, onde fica a Universidade Católica de Brasília, e depois até a Asa Norte, onde fica a UnB, era muito alto”, relatou.

Durante cerca de um ano, surgiu uma alternativa.

Um professor o contratou para traduzir livros do português para o inglês.

Com essa renda, Douglas conseguiu interromper temporariamente os serviços como garçom.

A melhora, porém, não eliminou as dificuldades daqueles anos.

“Foram quatro anos de muito sufoco”, resumiu.

Enquanto cursava Relações Internacionais, começou a entender melhor uma profissão cujo nome já tinha ouvido, mas sobre a qual sabia pouco: diplomata.

Morte da irmã mudou a maneira como Douglas pensava no futuro

O interesse pela carreira começou a ganhar forma em 2017.

Douglas contou que a morte da irmã Thayná provocou um período de reflexão sobre o que faria nos anos seguintes.

“Eu e minha mãe sentimos muito, e um dia, eu pensei no que poderia ser meu futuro e comecei a me decidir pela diplomacia. Mas ainda era um sonho meio distante à época”, afirmou.

Douglas Rocha ao lado da mãe, Francisca, no Ministério das Relações Exteriores depois da aprovação que o levou à carreira diplomática. Crédito: Arquivo pessoal.
Douglas Rocha ao lado da mãe, Francisca, no Ministério das Relações Exteriores depois da aprovação que o levou à carreira diplomática. Crédito: Arquivo pessoal.

Depois de terminar Relações Internacionais e Letras-Espanhol, Douglas decidiu sair novamente da rotina conhecida.

Desta vez, o destino era o Rio de Janeiro.

Mestrado no Rio começou com R$ 600 e uma república lotada

Douglas foi aprovado em primeiro lugar em um mestrado na Escola Superior de Guerra, vinculada ao Ministério da Defesa.

Chegou ao Rio sem conhecer a cidade e, segundo seu relato, tinha R$ 600 disponíveis.

A expectativa era receber uma bolsa.

O problema apareceu no intervalo entre o início do curso e a liberação do dinheiro.

Douglas encontrou lugar em uma república que tinha três quartos e aproximadamente 20 moradores.

Boa parte dos recursos já havia sido consumida com a passagem e outras despesas iniciais.

Sem a bolsa, comprou alimentos baratos para atravessar as semanas seguintes.

“Comprei macarrão e ovo para viver durante dois meses, no fim desse período, nem ovo havia mais para misturar no macarrão”, contou ao Correio Braziliense.

Ele disse ter emagrecido bastante naquele período.

A situação melhorou quando o auxílio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a Capes, começou a ser pago.

Com a bolsa, pôde melhorar a alimentação e posteriormente alugar um quarto individual em Copacabana.

Primeira tentativa no CACD terminou na prova discursiva de inglês

Depois do mestrado, o concurso para diplomata deixou de ser apenas uma possibilidade distante.

Douglas começou a preparação de maneira mais direta em março de 2021.

A primeira prova chegou três meses depois. Ele passou na etapa inicial, resultado que afirmou não esperar com tão pouco tempo de estudo.

A trajetória naquele concurso terminou na segunda fase. Douglas foi eliminado na prova discursiva de inglês.

Três trabalhos dividiram espaço com os estudos em 2022

No ano seguinte, a dificuldade deixou de estar apenas no conteúdo das provas.

Douglas precisava trabalhar.

Ele relatou que voltou a atuar como garçom, auxiliava um professor da UnB na redação de um livro e ainda fazia trabalhos freelancers para consultorias políticas.

“Praticamente três empregos”, resumiu.

Com tantas atividades, a preparação ficou limitada.

Douglas citou uma dificuldade específica envolvendo os simulados de inglês. Segundo ele, candidatos costumavam pagar cerca de R$ 200 por exercícios semanais corrigidos por professores.

Na mesma época, afirmou que ganhava R$ 150 trabalhando como garçom.

Sem conseguir pagar por aquele tipo de preparação, voltou a ser eliminado na prova discursiva de inglês em 2022.

Bolsa-Prêmio de R$ 30 mil permitiu dedicação integral ao CACD

Douglas foi contemplado pela Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, vinculada ao Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco.

O programa foi criado para ampliar a igualdade de oportunidades no acesso à carreira diplomática e concedia R$ 30 mil para custear a preparação de candidatos negros ao CACD.

Pela primeira vez, Douglas conseguiu concentrar a rotina nos estudos.

O efeito apareceu em 2023. Ele passou pelas etapas que anteriormente haviam interrompido sua trajetória e ficou muito perto da aprovação.

Segundo seu relato, entre os candidatos que ficaram fora das vagas naquele ano, terminou na terceira posição.

“Então, cheguei muito perto de ser aprovado”, afirmou.

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Em 2024, aprovação no Itamaraty voltou a escapar por pouco

Douglas voltou a trabalhar presencialmente em uma consultoria política em 2024.

Mais uma vez, conciliou emprego e preparação.

Conseguiu passar pelas fases do CACD, mas terminou na lista dos não aprovados.

No ano seguinte, outra mudança ajudaria a reorganizar a rotina. Douglas mudou-se para Paranaguá, no Paraná, cidade de sua esposa, Hellen Leite.

Também conseguiu um trabalho remoto como especialista em políticas educacionais.

Trabalho remoto abriu mais horas para estudar em 2025

Na nova atividade, Douglas trabalhava em uma pesquisa relacionada ao Ministério da Educação.

A jornada era de meio período e realizada de forma remota.

“Era um trabalho muito bom, meio período e remoto. Então, era bastante flexível para conciliar com os estudos”, contou.

O CACD de 2025 ofereceu 50 vagas para diplomata na classe inicial de terceiro-secretário.

O edital previa remuneração bruta inicial de R$ 22.558,56 e provas de Português, História do Brasil, História Mundial, Geografia, Inglês, Política Internacional, Economia, Direito e outro idioma.

O Correio Braziliense registrou 8.861 inscritos naquele concurso.

Dessa vez, Douglas não ficou do lado de fora.

Filho de diarista e pedreiro, Douglas Rocha Almeida supera origem humilde, vence concurso concorrido e inicia carreira no Itamaraty (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
Filho de diarista e pedreiro, Douglas Rocha Almeida supera origem humilde, vence concurso concorrido e inicia carreira no Itamaraty (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Resultado do CACD colocou Douglas Rocha na 46ª posição

O resultado definitivo foi homologado em 4 de novembro de 2025, e não apenas em outubro, como indicavam relatos preliminares sobre as etapas da seleção.

No documento oficial do Cebraspe, Douglas Rocha Almeida aparece com 710,27 pontos e 46ª colocação geral.

Como o concurso oferecia 50 vagas, a classificação garantiu o ingresso dentro do número previsto.

Em janeiro de 2026, a etapa que havia começado anos antes finalmente chegou à posse.

Douglas tornou-se terceiro-secretário da carreira diplomática do quadro permanente do Ministério das Relações Exteriores.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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