Alberto Saraiva perdeu o pai durante um assalto, assumiu uma padaria endividada enquanto cursava Medicina e criou o Habib’s, rede brasileira com cerca de 300 restaurantes e 500 milhões de esfihas vendidas anualmente.
Em agosto de 1973, Antônio Alberto Saraiva havia acabado de entrar no curso de Medicina da Santa Casa de São Paulo quando recebeu a notícia que transformaria sua vida. Seu pai havia sido assassinado durante um assalto à padaria que a família tinha comprado apenas 19 dias antes.
Com 20 anos, o jovem assumiu um estabelecimento antigo, equipado com máquinas ultrapassadas e funcionários que ainda precisavam de treinamento. Ele aprendeu a produzir pães, manteve os estudos, concluiu a faculdade e, depois de administrar diferentes negócios de alimentação, abriu o primeiro Habib’s em 1988.
Alberto Saraiva nasceu em Portugal e chegou ainda bebê ao Brasil
Alberto Saraiva nasceu em uma pequena aldeia portuguesa e era filho de camponeses. Quando tinha apenas seis meses, mudou-se com os pais para o Brasil, onde a família buscava melhores oportunidades de trabalho e uma vida mais estável.
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A família se estabeleceu em Santo Antônio da Platina, no interior do Paraná. Seu pai mantinha um pequeno negócio dedicado à distribuição de doces, atividade que colocou Alberto em contato com o comércio ainda durante a juventude.
No início da década de 1970, os Saraiva se mudaram para um apartamento modesto no bairro do Pari, em São Paulo. Alberto pretendia entrar em uma faculdade de Medicina e construir uma carreira distante do comércio familiar.
Jovem enfrentou dezenas de vestibulares antes de entrar em Medicina
A entrada na faculdade não aconteceu na primeira tentativa. Em 1971, Alberto prestou vestibular para cinco instituições e foi reprovado em todas as provas realizadas naquele ano.
No ano seguinte, tentou outras seis seleções e novamente não conseguiu uma vaga. Mesmo depois de 11 resultados negativos, decidiu continuar estudando e se inscreveu em mais sete vestibulares em 1973.
Na terceira tentativa anual, foi aprovado em todas as sete instituições. Alberto escolheu a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e começou a graduação que havia perseguido durante anos.
Pai comprou uma padaria apenas 19 dias antes de ser assassinado
Enquanto Alberto iniciava a vida universitária, seu pai investiu em uma padaria na capital paulista. O estabelecimento havia sido adquirido havia somente 19 dias quando ocorreu o crime que mudaria os planos da família.
Na noite de 19 de agosto de 1973, o pai de Alberto trocou seu turno habitual pelo período noturno. O filho o levou até o estabelecimento e voltou às 23 horas para buscá-lo, quando o encontrou sem vida depois de um assalto.
Alberto tinha completado 20 anos em junho daquele ano. Além da perda familiar, passou a enfrentar a responsabilidade por uma padaria recém-comprada e ainda sem uma operação organizada.
Padaria herdada possuía máquinas antigas e funcionários despreparados
O próprio empresário descreveu o estabelecimento como uma padaria velha, com equipamentos ultrapassados e trabalhadores sem a preparação necessária. Diante da situação, sua primeira intenção foi vender o negócio.
A decisão começou a mudar durante uma conversa com um taxista. Ao ouvir que Alberto pretendia desistir, o motorista o aconselhou a continuar, usando palavras semelhantes às que seu pai repetia durante os anos de vestibular.
O jovem decidiu permanecer no estabelecimento e aprender o trabalho. Em vez de depender completamente dos funcionários, passou a conhecer a produção, o atendimento e a administração da padaria.
Estudante de Medicina aprendeu pessoalmente a fabricar os pães
Alberto começou a acompanhar a rotina dos padeiros e aprendeu as etapas necessárias para produzir os alimentos. O conhecimento permitiria manter a padaria funcionando mesmo quando algum funcionário faltasse ou deixasse o emprego.
A experiência no balcão também aproximou o jovem dos consumidores. Ele conseguia observar o que os clientes procuravam, comparar preços e identificar quais mudanças poderiam aumentar o movimento do estabelecimento.
A padaria deixou de ser apenas uma obrigação deixada pela morte do pai. Ela se transformou na primeira experiência prática de Alberto com produção, preços, atendimento e administração de um negócio de alimentação.
Preços menores ajudaram a transformar o estabelecimento
Uma das estratégias adotadas foi vender os pães por valores aproximadamente 30% inferiores aos preços praticados pela concorrência. Alberto também passou a oferecer duas unidades adicionais a cada grupo de dez pães comprados.
A oferta atraiu vendedores ambulantes que compravam grandes quantidades para revender nas ruas. O volume maior compensava a redução aplicada no preço individual dos produtos.
Esse princípio acompanharia os negócios posteriores de Alberto Saraiva. Em vez de depender de margens elevadas em cada item, ele passou a procurar preços acessíveis capazes de atrair um grande número de consumidores.
Alberto concluiu o curso de Medicina antes de escolher o comércio
Apesar das novas responsabilidades, Alberto não abandonou definitivamente a graduação. Ele manteve os estudos, concluiu o curso e recebeu o diploma de Medicina pela Santa Casa de São Paulo.
Depois da formatura, precisou decidir entre trabalhar como médico ou continuar administrando estabelecimentos. A experiência na padaria havia revelado uma habilidade para comércio, criação de ofertas e relacionamento com clientes.
Alberto escolheu permanecer no setor de alimentação. O diploma representou a conclusão de um antigo objetivo, mas sua vida profissional passou a ser construída principalmente dentro de padarias, lanchonetes e restaurantes.
Casas do Pastel, da Fogazza e do Nhoque vieram antes do Habib’s
A padaria não foi o único negócio administrado por Alberto antes da criação da rede. Ele montou estabelecimentos chamados Casa do Pastel, Casa da Fogazza, Casa do Nhoque e Casa da Pizza Rodízio.
Cada empreendimento permitia testar produtos, formatos de atendimento e estratégias de preço. Algumas ideias funcionaram melhor que outras, mas todas contribuíram para o conhecimento acumulado pelo futuro fundador do Habib’s.
Alberto percebeu que alimentos populares poderiam alcançar um público maior quando combinavam padronização, rapidez e preço reduzido. Faltava encontrar um produto capaz de sustentar uma rede de restaurantes em grande escala.
Cozinheiro de 70 anos apresentou as receitas árabes ao empresário
A oportunidade apareceu quando Alberto preparava uma lanchonete na Rua Lins de Vasconcelos, em São Paulo. Um homem de 70 anos chamado Paulo Abud entrou no local e pediu uma oportunidade de trabalho.
Abud havia trabalhado como cozinheiro na região da Rua 25 de Março, conhecida pela presença de imigrantes e comerciantes árabes. Ele sabia preparar homus, tabule, coalhada, quibe cru, quibe frito e outras receitas tradicionais.
Alberto aprendeu com ele os processos de preparação desses alimentos. Nas primeiras unidades do Habib’s, o próprio fundador entrava nas cozinhas e reproduzia as receitas ensinadas pelo cozinheiro.
Primeiro Habib’s foi inaugurado em São Paulo em 1988
A primeira loja do Habib’s foi inaugurada em 1988 na Rua Cerro Corá, na região da Lapa, em São Paulo. O restaurante permanece ligado à história da companhia e chegou a receber peças relacionadas à trajetória da marca.
O estabelecimento combinava receitas de inspiração árabe com produtos conhecidos pelo consumidor brasileiro. Esfihas, quibes e outros pratos eram vendidos ao lado de opções mais próximas das tradicionais lanchonetes.
Desde o começo, a proposta era manter preços acessíveis. A rede afirma que nasceu com a missão de democratizar o acesso aos restaurantes de refeições rápidas, combinando variedade com valores reduzidos.
Nome Habib’s surgiu de uma expressão árabe
Segundo a empresa, o nome foi inspirado em um amigo que chamava Alberto de “habib”. A palavra pode ser traduzida como “querido” ou “querido amigo” em árabe.
A escolha produziu uma marca curta e relacionada ao tipo de culinária oferecida. O apóstrofo e a letra “s” foram acrescentados ao nome usado comercialmente pela rede.
A comunicação também passou a usar referências visuais ligadas ao Oriente Médio. Com o crescimento, o nome Habib’s se tornou conhecido mesmo entre consumidores que nunca haviam experimentado comida árabe antes da chegada da rede.
Esfiha barata virou o principal símbolo da companhia
O produto de maior destaque foi a esfiha aberta. Ela podia ser produzida em grande quantidade, assada rapidamente e vendida por um valor menor que o de muitos lanches completos.
A partir de 2000, a companhia passou a chamar oficialmente suas esfihas de Bib’sfihas. A mudança transformou o nome do produto em uma identificação própria ligada à marca.
Segundo o Habib’s, aproximadamente 500 milhões de Bib’sfihas são vendidas por ano. O número é uma estimativa divulgada pela própria empresa e mostra a importância do item dentro do cardápio.
Modelo de preços baixos dependia de grandes volumes
A estratégia criada na antiga padaria foi adaptada aos restaurantes. Produtos de entrada com preços chamativos atraíam consumidores e ajudavam a aumentar a circulação dentro das unidades.
O cliente que entrava para comprar esfihas também encontrava quibes, pratos, pizzas, bebidas, sobremesas e outros itens. Dessa maneira, a rede podia manter preços reduzidos em produtos estratégicos e ampliar o valor total dos pedidos.
O modelo exigia controle sobre compras, produção, desperdício e distribuição. A empresa aponta a verticalização e a padronização dos produtos como elementos importantes para manter o custo-benefício oferecido nas lojas.
Rede ultrapassou a marca de 300 restaurantes pelo Brasil
A expansão levou o Habib’s a ultrapassar 300 lojas espalhadas pelo território brasileiro. A própria companhia divulgava essa dimensão em sua página institucional e em seus materiais de apresentação da franquia.
Em julho de 2026, uma reportagem baseada em documentos judiciais apontou que a rede mantinha cerca de 300 restaurantes Habib’s. O grupo também controlava aproximadamente 200 unidades do Ragazzo, além de lojas híbridas.
Parte das unidades é administrada diretamente pelo grupo e parte funciona por meio de franquias. Esse formato permitiu levar a marca a diferentes estados sem depender exclusivamente de restaurantes próprios.
Grupo reúne mais de 17 mil trabalhadores em 18 estados
A página destinada aos interessados em abrir franquias informa que o grupo possui mais de 17 mil colaboradores e está presente em 18 estados brasileiros.
A empresa também afirma receber mais de 200 milhões de passagens de consumidores pelos restaurantes durante o ano. O número deve ser entendido como movimento ou atendimentos, pois uma mesma pessoa pode visitar as unidades diversas vezes.
Além do Habib’s, o grupo desenvolveu marcas como Ragazzo e Tendall Grill. Também criou estruturas de produção e apoio destinadas a abastecer a rede e manter maior regularidade entre as unidades.
Habib’s se apresenta como a maior rede de comida árabe do mundo
Nos materiais institucionais, a companhia se define como o maior fast-food genuinamente brasileiro e a maior marca de comida árabe do mundo. A declaração considera o número de unidades alcançado pela rede.
O crescimento levou um tipo de alimentação antes concentrado em determinados bairros e comunidades a cidades de diferentes regiões. Muitos consumidores brasileiros conheceram esfihas abertas, quibes e outros pratos por meio da marca.
A rede não funciona como um restaurante árabe tradicional. Seu modelo combina receitas adaptadas, produção padronizada, atendimento rápido e um cardápio ampliado para atender públicos variados.
Companhia enfrenta um desafio financeiro em 2026
Apesar de sua dimensão, o grupo controlador do Habib’s entrou em 2026 enfrentando dificuldades financeiras. Em julho, a empresa recorreu à Justiça para suspender temporariamente ações de cobrança enquanto negociava com credores.
O processo apontou dívidas acumuladas de aproximadamente R$ 312,4 milhões. A companhia relacionou parte dos problemas aos efeitos da pandemia, às mudanças no consumo provocadas pelos aplicativos de entrega e ao aumento dos custos financeiros.
A proteção parcial concedida pela Justiça buscava permitir a manutenção das operações durante as negociações. O caso mostra que uma marca nacional de grande porte também precisa adaptar lojas, serviços e estrutura financeira para permanecer competitiva.
Padaria herdada depois de uma tragédia deu origem a uma rede nacional
A história empresarial de Alberto Saraiva começou de maneira inesperada. Ele se preparava para estudar Medicina quando a morte do pai o colocou diante de uma padaria adquirida havia menos de três semanas.
Ao aprender a produzir pães e trabalhar com preços menores, transformou o estabelecimento e descobriu uma vocação para o comércio. Depois de concluir Medicina, escolheu continuar no setor de alimentação e testou diferentes restaurantes até encontrar o modelo do Habib’s.
A primeira unidade, aberta em 1988, tornou-se uma rede com cerca de 300 restaurantes. A esfiha vendida a preços populares passou a movimentar centenas de milhões de unidades por ano e transformou o negócio criado por um médico em uma das marcas brasileiras mais reconhecidas do setor.

