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Estatueta com lábios costurados de 11.000 anos intriga arqueólogos na Turquia e revela como viviam, pensavam e faziam rituais as primeiras comunidades humanas do mundo

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado em 10/02/2026 às 10:51
Atualizado em 10/02/2026 às 10:56
Um pilar e uma estátua recuperados em Karahantepe, no sudeste de Türkiye. (Fulya Ozerkan/AFP)
Um pilar e uma estátua recuperados em Karahantepe, no sudeste de Türkiye. (Fulya Ozerkan/AFP)
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A descoberta de uma estatueta de pedra com lábios costurados em Karahan Tepe, no sudeste da Turquia, soma-se a outros achados de 11.000 anos e reforça evidências de sistemas simbólicos, rituais complexos e organização social avançada nas primeiras comunidades sedentárias do Neolítico

Uma Estatueta de pedra com lábios costurados, datada de cerca de 11.000 anos, foi encontrada no sítio arqueológico de Karahan Tepe, no sudeste da Turquia, junto a rostos esculpidos em pedra e uma conta de serpentinita preta, revelando novos dados sobre crenças, rituais e a transição para a vida sedentária no Neolítico.

Estatueta e outros achados ampliam o conjunto simbólico neolítico

A Estatueta integra um grupo de descobertas recentes realizadas nas colinas com vista para as planícies do sudeste da Turquia. Entre os objetos estão esculturas humanas em pedra, rostos esculpidos e uma conta de serpentinita preta com faces expressivas em ambos os lados.

Esses achados arqueológicos oferecem pistas diretas sobre sistemas de crenças e práticas rituais de comunidades que viveram há aproximadamente 11.000 anos. A recorrência da figura humana nos objetos encontrados reforça a centralidade do corpo e da experiência humana nesse período.

Segundo os arqueólogos, o aumento no número de esculturas humanas está associado ao processo de sedentarização.

A Estatueta, com seus lábios costurados, se destaca pela complexidade simbólica e pelo cuidado técnico de sua execução.

Vida sedentária e centralidade da figura humana

Para Necmi Karul, arqueólogo responsável pelas escavações em Karahan Tepe, o crescimento do número de esculturas humanas reflete uma mudança profunda na relação das comunidades com o ambiente. À medida que a vida sedentária se consolidou, a figura humana passou a ocupar posição central no universo simbólico.

Karul aponta que essa transformação marca um distanciamento gradual da natureza. Um exemplo citado é um rosto humano esculpido em um pilar em forma de T, encontrado no sítio, que reforça a ênfase na representação humana.

A Estatueta com lábios costurados se insere nesse contexto mais amplo, no qual a experiência humana se torna o foco das expressões simbólicas, indicando mudanças sociais e culturais estruturais.

Projeto Colinas de Pedra e o contexto regional

As escavações em Karahan Tepe fazem parte do projeto “Colinas de Pedra”, iniciativa apoiada pelo governo turco e lançada em 2020. O projeto envolve 12 sítios arqueológicos na província de Sanliurfa, descrita pelo ministro da Cultura, Nuri Ersoy, como a capital neolítica do mundo.

Entre os sítios incluídos está Göbekli Tepe, reconhecido como Patrimônio Mundial da UNESCO e conhecido por abrigar as estruturas megalíticas mais antigas da Alta Mesopotâmia. As escavações nesse local começaram em 1995, sob liderança do arqueólogo alemão Klaus Schmidt.

O conjunto de sítios do projeto permite comparar diferentes expressões culturais do mesmo período. Enquanto Karahan Tepe apresenta forte simbolismo humano, Göbekli Tepe é marcado pela predominância de imagens de animais.

Novos dados e limites da interpretação arqueológica

Lee Clare, do Instituto Alemão de Arqueologia, afirma que as descobertas em exibição no centro de visitantes de Karahan Tepe desafiam narrativas tradicionais sobre a transição de sociedades nômades para assentamentos permanentes. Cada edifício escavado oferece um vislumbre da vida individual no Neolítico.

Segundo Clare, a ausência de registros escritos limita as interpretações. As esculturas e a Estatueta datam de um período anterior à escrita, o que torna impossível identificar com precisão quem ou o que elas representavam.

Ainda assim, o volume crescente de dados obtidos nos últimos cinco anos permite análises estatísticas e comparações significativas entre os sítios. Esses estudos ajudam a compreender os contextos em que as esculturas aparecem e suas possíveis funções simbólicas.

Organização social e surgimento de hierarquias

De acordo com Karul, os assentamentos começaram a surgir após a última Era Glacial, quando mudanças ambientais criaram condições mais férteis. Isso permitiu que as pessoas se alimentassem sem depender exclusivamente da caça constante, favorecendo o crescimento populacional.

Com a estabilização das comunidades, novas dinâmicas sociais emergiram. Clare destaca que a produção de excedentes levou ao surgimento de diferenças econômicas, com os primeiros indícios de hierarquia social observáveis no registro arqueológico.

Emre Guldogan, da Universidade de Istambul e arqueólogo chefe em Sefer Tepe, afirma que Karahan Tepe e o projeto Colinas de Pedra revelam uma sociedade altamente organizada, com estruturas de crenças e um mundo simbólico próprio, refutando a ideia de um Neolítico primitivo.

Impacto cultural e interesse turístico crescente

As descobertas arqueológicas também ampliaram o interesse por uma região antes conhecida principalmente por sua associação com o profeta Abraão, figura central no judaísmo, cristianismo e islamismo. Historicamente, o turismo local era majoritariamente religioso.

Segundo o guia turístico Yakup Bedlek, o surgimento de novas zonas arqueológicas atraiu um público mais diversificado. A Estatueta e outros achados contribuíram para reposicionar a região como um polo de interesse científico e cultural.

À medida que as escavações continuam, cada nova descoberta levanta novas questões sobre as pessoas por trás dessas criações. Mesmo com lacunas inevitávies, os sítios do sudeste da Turquia seguem transformando a compreensão do Neolítico e de suas sociedades complexas.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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