Início Era do petróleo vai acabar muito antes que o petróleo acabe: para atingir meta de emissão zero, haverá corte de 75% na demanda por petróleo até 2050 e Brasil, Venezuela, Equador e Colômbia ficam de ‘saia justa’

Era do petróleo vai acabar muito antes que o petróleo acabe: para atingir meta de emissão zero, haverá corte de 75% na demanda por petróleo até 2050 e Brasil, Venezuela, Equador e Colômbia ficam de ‘saia justa’

9 de junho de 2022 às 12:55
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Trabalhador em plataforma de petróleo offshore

Países mais dependentes do petróleo sofrerão com a transição energética, mas não significa o fim iminente da indústria petroleira

Ahmed Zaki Yamani, ministro do Petróleo da Arábia Saudita disse uma sábia frase: “A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra, e a idade do petróleo vai acabar muito antes que o petróleo acabe.” A mesma, tem sido usada no setor de energia como um aviso para um mundo em que o petróleo e seus derivados não sejam mais o principal combustível. A transição energética é um objetivo favorável para o planeta, mas o que significa para os países produtores de petróleo da América Latina? Brasil arrecada cerca de 2 bilhões de dólares em último leilão de petróleo e gás do pré-sal.

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A COP26, realizada no mês passado, onde governos e empresas de todo o mundo anunciam querer caminhar em direção à emissão zero de gases de efeito estufa, sendo necessário reduzir as emissões globais de CO2 em 45% até 2030, tornou esse presságio cada vez mais próximo.

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Para atingir a meta global de emissão zero, será necessário um corte na demanda por petróleo bruto de 75%

Existem alguns cenários apontando que, para atingir a meta de emissão zero, será necessário um corte na demanda por petróleo bruto de 75% a partir de agora até 2050, diz Francisco Monaldi, diretor do Programa Latino-Americano de Energia do Baker Institute da Universidade Rice, no Estado americano do Texas. Mas há outros analistas que avaliam que haverá pouca oscilação na demanda e que, em em 2050, ela estará inclusive um pouco acima de onde está atualmente.

“Este último cenário indica que vamos chegar a um pico de demanda e que, a partir dali, vai começar a diminuir, mas obviamente não seria um cenário nem remotamente tão catastrófico. De qualquer forma, é inevitável que a transição energética ocorra, e que a demanda por petróleo não siga crescendo como no passado”, completa.

As incertezas sobre o ritmo de execução da transição energética afetarão, por exemplo, a facilidade de obtenção de recursos para financiar novos projetos na área de óleo e gás, já que alguns demandam cifras elevadas e implicam em décadas de produção, com extração de petróleo por 20 ou 30 anos.

“Imagine, por exemplo, um projeto de exploração em águas profundas do Golfo do México. Vamos ver cada vez menos esse tipo de projeto. Os que já estão em andamento, como os que o Brasil tem no Pré-Sal, vão ser desenvolvidos, mas os novos terão mais dificuldade.”

“O Brasil, por exemplo, não tem se saído bem nas últimas rodadas de licitações, em parte porque aumentaram os riscos de que os vencedores dos leilões acabem ficando com ativos em que investiram pesadamente, mas não vão conseguir continuar usando porque a transição energética está se acelerando”, avalia.

Países mais dependentes do petróleo sofrerão com a transição energética

Apesar da queda da demanda de petróleo afetar todos os produtores da região, segundo Monaldi, os países com maior dependência do petróleo como Venezuela, Equador e Colômbia, são os que mais vão sobrar com a meta global de energia limpa.

Podemos citar a Venezuela, que por exemplo, tem 95% das suas divisas provenientes do petróleo – isso até o aprofundamento da crise no país, com redução acentuada da produção pela petroleira estatal PDVSA e as sanções impostas pelos Estados Unidos.

Em 2019, as vendas do petróleo do Equador, somaram US$ 7,8 bilhões, 34% do valor das exportações. Já a Colômbia, as vendas de petróleo ao exterior somaram US$ 13 bilhões, o equivalente a 32% das exportações, ainda de acordo com os dados do OEC.

Ainda de acordo com o especialista, apesar de não dependerem do petróleo, a transição energética pode afetar também o México, Brasil e Argentina, uma vez que, a commodity tem um peso significativo na economia, representando importantes receitas de exportação, arrecadação fiscal e de investimentos.

Para o Brasil, Monaldi, diz que o país se tornou “o grande produtor de petróleo da América Latina”, com quase três milhões de barris por dia, número semelhante ao alcançado pela Venezuela e pelo México “nos seus melhores dias”.

“O Brasil não depende do petróleo bruto, mas o tamanho da Petrobras e sua importância o tornam uma questão relevante para o futuro”, afirma.

No caso da Argentina, o especialista destaca que o país descobriu jazidas de óleo não convencional – conhecido como xisto ou óleo de xisto – que têm um enorme potencial, mas cuja descoberta coincide com este momento de transição energética.

Transição energética não significa o fim iminente da indústria do petróleo

Apesar da transição energética trazer dúvidas e incertezas aos investidores de petróleo, não significa o fim iminente da indústria petroleira, que mesmo no contexto atual, os países produtores têm algumas oportunidades.

“Os cenários mais razoáveis ​​indicam que muito petróleo ainda será consumido nas próximas três décadas. Os países que vão conseguir continuar a produzir e rentabilizar o negócio são aqueles que conseguirem duas coisas: primeiro, ser muito mais eficientes e reduzir os custos de produção e, em segundo lugar, reduzir sua pegada de carbono e de outros gases de efeito estufa”, diz Monaldi.

Para o especialista, a gigante do petróleo brasileiro Petrobras, pode ter êxito nessa estratégia por contar com poços em águas profundas muito produtivos, o que favorece a empresa do ponto de vista da intensidade de carbono.

Em sua visão, três fatores vão definir quais projetos sobreviverão: custos, intensidade das emissões de gases de efeito estufa e o tipo de investimento necessário, se de ciclo curto ou longo.

“Todos esses países têm que se preparar para essa transição, aproveitando as oportunidades que estão dentro da lógica da política global contra as mudanças climáticas, mas entendendo que se trata de um negócio em declínio”, alerta.

por – Ángel Bermúde BBC News Mundo

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