Após anos como referência mundial, sistema educacional finlandês registra queda consistente em rankings globais e levanta questionamentos sobre mudanças recentes no ensino
Durante décadas, a Finlândia foi considerada um verdadeiro exemplo global em educação. Seu modelo, marcado por foco no bem-estar dos alunos, valorização dos professores e ausência de excesso de provas padronizadas, inspirou países ao redor do mundo — incluindo o Brasil. No entanto, esse cenário começou a mudar nos últimos anos.
A informação foi divulgada pelo “g1”, com base em entrevistas com especialistas e autoridades educacionais, incluindo o próprio ministro da Educação finlandês, Anders Adlercreutz, que reconheceu a queda nos resultados e admitiu: “Sinceramente, não sabemos o que aconteceu” .
Queda de desempenho acende alerta após anos no topo
Desde 2012, os resultados da Finlândia em avaliações internacionais como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) vêm apresentando uma queda consistente. Entre 2012 e 2022, o desempenho dos alunos caiu mais de 20 pontos em disciplinas como matemática, leitura e ciências .
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Além disso, o país deixou de figurar entre os líderes globais. Em matemática, por exemplo, saiu do TOP 10 já em 2012. Em leitura, em 2022, ficou atrás até dos Estados Unidos — um dado que chamou atenção internacionalmente .
No exame Timss de 2023, a situação também preocupa: a Finlândia ficou apenas na 15ª posição em matemática entre alunos do 8º ano, atrás de diversos países asiáticos e europeus .
Mudanças no modelo educacional podem explicar a queda
Diante desse cenário, especialistas apontam algumas mudanças importantes no sistema educacional finlandês. Uma delas é a maior flexibilização do currículo, com foco em ensino interdisciplinar e projetos integrados.
Embora esse modelo estimule criatividade e pensamento crítico — habilidades valorizadas no mundo moderno — ele pode ter impactado negativamente o desempenho em testes tradicionais, que exigem conhecimento mais direto e específico.
Por isso, o governo decidiu agir. Entre as medidas adotadas está o aumento da carga horária de disciplinas fundamentais, como matemática e leitura, especialmente nas séries iniciais .
Uso excessivo de tecnologia entra no radar
Outro fator que passou a ser investigado é o impacto da digitalização nas escolas. Nos últimos anos, a Finlândia investiu fortemente no uso de tecnologia em sala de aula, incentivando atividades digitais, redes sociais e ferramentas interativas.
No entanto, especialistas alertam que o uso excessivo de dispositivos pode ter efeitos negativos, como:
- distração durante as aulas
- redução do hábito de leitura
- problemas de concentração
- prejuízos ao sono
Diante disso, uma das medidas mais recentes foi a proibição do uso de celulares em sala de aula, em uma tentativa de recuperar o foco dos estudantes .
Desigualdade crescente também influencia resultados
Além das mudanças pedagógicas, fatores sociais também passaram a impactar o desempenho escolar. A Finlândia, historicamente conhecida por sua igualdade social, enfrenta hoje um aumento da desigualdade.
O índice de Gini, que mede a concentração de renda, subiu de 22 em 1996 para 26,6 em 2022 . Embora ainda seja baixo em comparação com países como o Brasil, esse aumento já traz reflexos na educação.
Outro ponto relevante é o crescimento da imigração. A proporção de alunos imigrantes passou de 1,2% em 2000 para 6,8% em 2022, grupo que, em média, apresenta maior dificuldade de adaptação e aprendizado devido à barreira do idioma .
Cortes de investimento e impacto no suporte escolar
O sistema também sofreu com cortes de investimento ao longo dos anos. Após crises econômicas, houve redução de até 25% nos gastos públicos com educação, além da diminuição de recursos destinados a bibliotecas e programas de apoio .
Como consequência, escolas passaram a:
- aumentar o número de alunos por turma
- reduzir profissionais de apoio
- limitar programas de recuperação escolar
Isso afetou diretamente o suporte oferecido a alunos com dificuldades, que era um dos pilares do sucesso finlandês.
O que a Finlândia está fazendo para tentar reverter a situação
Diante dos desafios, o país já começou a implementar mudanças estratégicas para recuperar sua posição de destaque.
Entre as principais ações estão:
- proibição de celulares em sala de aula
- aumento da carga horária de matemática e leitura
- manutenção do ensino por projetos, mas com maior equilíbrio
- reforço no apoio a alunos com dificuldades
- discussão sobre novos investimentos na educação
A ideia é encontrar um ponto de equilíbrio entre inovação e tradição, mantendo as características modernas do ensino sem comprometer o aprendizado básico.
Um alerta global para países que seguem o modelo
O caso da Finlândia levanta um questionamento importante: até que ponto mudanças no modelo educacional podem impactar os resultados no longo prazo?
Países como o Brasil, que se inspiraram em diversos aspectos do sistema finlandês, agora observam atentamente essa transição. Afinal, o que antes era considerado referência absoluta passa a enfrentar desafios reais.
Portanto, mais do que uma crise isolada, o cenário atual da Finlândia serve como um alerta global — mostrando que até os modelos mais bem-sucedidos precisam se adaptar constantemente às mudanças sociais, tecnológicas e econômicas.
