A Temperatta, fabricante mineira de temperos, molhos e especiarias, decidiu investir cerca de R$ 6 milhões em uma nova fábrica no Paraguai justamente enquanto amplia vendas e faturamento no Brasil. A unidade deverá dobrar a capacidade produtiva e terá entre seus objetivos abastecer consumidores brasileiros no Sul e em São Paulo, criando um contraste que reacende o debate sobre competitividade industrial entre os dois países.
Uma empresa fundada em Minas Gerais, com faturamento superior a R$ 30 milhões, crescimento anual próximo de 30% e planos de conquistar novos mercados brasileiros decidiu que uma parte importante de sua próxima expansão industrial acontecerá fora do país. O destino escolhido pela Temperatta foi Ciudad del Este, no Paraguai.
Serão aproximadamente R$ 6 milhões aplicados na nova planta, cujo projeto já está em andamento. A previsão divulgada pela companhia é concluir as obras em cerca de 12 meses e colocar a operação em ritmo pleno em 2027, aumentando lançamentos e, principalmente, dobrando a atual capacidade de produção.
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O detalhe que transforma uma expansão empresarial comum em uma decisão incômoda para o Brasil está no destino dos produtos. A fábrica não foi pensada apenas para conquistar consumidores paraguaios. A estratégia inclui utilizar Ciudad del Este para avançar sobre São Paulo, os estados do Sul e outros mercados do Mercosul.
Empresa cresce no Brasil, mas escolhe produzir também no Paraguai

Segundo o Diário do Comércio, o sócio-diretor Fernando Seabra relacionou a escolha à logística de Ciudad del Este, à proximidade dos mercados do Mercosul e às condições oferecidas pelo Paraguai. O executivo afirmou que os benefícios encontrados no país vizinho são “imensamente superiores aos do Brasil”.
A comparação ganha peso porque não se trata de uma companhia encolhendo ou tentando sobreviver. A Temperatta encerrou 2025 com faturamento acima de R$ 30 milhões, cresceu 26% segundo declaração divulgada em janeiro e chegou a 2026 projetando nova expansão, além de manter cerca de 180 profissionais na operação.
Seu portfólio já ultrapassa 120 produtos, e outros 20 itens estavam previstos até o fim de 2026. A empresa atua com marca própria e também fabrica para grandes varejistas no modelo private label, segmento que já representava aproximadamente R$ 12 milhões a R$ 13 milhões por ano.
Antes do Paraguai, fábrica de R$ 10 milhões em Minas foi pausada
Existe ainda um capítulo anterior que aumenta o desconforto. Em maio de 2025, a Temperatta anunciou um projeto de R$ 10 milhões para construir um parque industrial próprio em Minas Gerais, com terreno de 20 mil m² e previsão de quadruplicar a produção.
Em janeiro de 2026, porém, Seabra informou que o projeto havia passado por uma pausa, citando questões burocráticas relacionadas ao terreno, negociações municipais e uma nova possibilidade capaz de levar a companhia a uma expansão internacional. Meses depois, veio o anúncio da fábrica paraguaia.
As fontes disponíveis não confirmam que o empreendimento no Paraguai substituiu definitivamente o projeto mineiro. Também não há anúncio de fechamento da operação em Minas ou transferência de empregos. A sequência dos acontecimentos, contudo, expõe uma escolha empresarial que dificilmente passa despercebida.
Paraguai produz e o Brasil compra
O contexto regional ajuda a entender por que Ciudad del Este entrou no radar. Dados oficiais do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai mostram que as exportações das indústrias enquadradas no regime de maquila chegaram a US$ 717 milhões no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 25%.
E há um dado especialmente provocador para o debate brasileiro: 62% dessas exportações tiveram o Brasil como destino, enquanto 78% seguiram para países do Mercosul. Alto Paraná, departamento onde está Ciudad del Este, concentrava sozinho 48% das empresas com programas de maquila aprovados.
Não existe confirmação pública de que a Temperatta operará especificamente sob o regime de maquila. O que está confirmado é mais simples: uma indústria mineira em expansão viu vantagem estratégica em instalar uma fábrica do outro lado da fronteira e usá-la também para crescer no Brasil.
A Temperatta continua ligada a Minas, mantém operação brasileira e segue investindo no mercado nacional. Mas a decisão deixa uma pergunta difícil para além da própria empresa: quando produzir em outro país se torna parte da estratégia para vender mais ao consumidor brasileiro, quem está realmente ganhando a disputa pela próxima fábrica?
