Cerca de 300 voluntários e moradores participaram da construção de 25 moradias emergenciais para famílias Guarani Mbya na Terra Indígena Jaraguá, em São Paulo, durante uma mobilização realizada em setembro de 2026.
Cerca de 300 voluntários e moradores participaram, nos dias 19 e 20 de setembro de 2026, da construção de 25 moradias emergenciais nas aldeias Tekoa Ytu e Tekoa Pyau, na Terra Indígena Jaraguá, na zona noroeste de São Paulo.
A ação foi organizada pela TETO Brasil e representou a maior mobilização desse tipo realizada pela operação paulista da entidade nos últimos sete anos.
As casas foram destinadas a famílias Guarani Mbya que vivem nas duas comunidades.
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Em vez de contratar uma construtora convencional, a TETO utiliza um sistema de montagem coletiva: estruturas pré-fabricadas de madeira são levadas até o território e erguidas com a participação dos próprios moradores e de equipes de voluntários.
A iniciativa faz parte de uma atuação mais ampla da organização em comunidades com condições habitacionais consideradas de hipervulnerabilidade, conceito usado pela TETO para situações em que problemas de moradia se combinam com dificuldades de acesso a saneamento, infraestrutura e outros serviços básicos.
Casas emergenciais podem ser erguidas em até 48 horas
As moradias construídas pela TETO não têm a proposta de substituir políticas habitacionais permanentes.
Elas são apresentadas pela organização como uma resposta emergencial para famílias que vivem em estruturas extremamente precárias.
O modelo padrão possui aproximadamente 15 m² ou 18 m² e utiliza painéis pré-fabricados de madeira.
A estrutura fica elevada do solo por 12 estacas, recurso que reduz o contato direto com umidade, água da chuva e animais.
Segundo a organização, uma equipe de pelo menos dez pessoas consegue concluir uma unidade em cerca de dois dias, sempre com participação da família que receberá a casa.
Esse método permitiu que as 25 unidades fossem levantadas simultaneamente no Jaraguá durante um único fim de semana.
A preparação, porém, começa antes do mutirão, com identificação das famílias, planejamento da logística, transporte das estruturas e organização dos grupos responsáveis por cada construção.
A TETO já mantinha uma relação com as comunidades da Terra Indígena Jaraguá antes da operação de setembro.
Dados divulgados pela própria entidade indicam que o trabalho na Tekoa Pyau ocorre há mais de uma década.

Levantamento mostra precariedade habitacional na Tekoa Pyau
A dimensão do problema pode ser observada em um levantamento realizado pela TETO em parceria com o Insper e a consultoria Diagonal.
O estudo identificou 91 domicílios na Tekoa Pyau em 2023.
Desse total, 61 eram moradias da TETO remanescentes de construções anteriores e outras 17 foram erguidas naquele ano.
Somadas, elas representavam aproximadamente 86% das residências mapeadas na comunidade.
O levantamento estimou ainda cerca de 230 famílias e 945 indígenas vivendo na Terra Indígena Jaraguá, distribuídos entre diferentes aldeias Guarani Mbya.
A Tekoa Pyau estava entre os territórios avaliados em maior profundidade.
Em publicação de agosto de 2026 baseada nesse mesmo diagnóstico, a TETO informou que quase todas as casas da Tekoa Pyau eram feitas de madeira e que aproximadamente um terço tinha piso de terra.
Parte das famílias também enfrentava dificuldades relacionadas a água e saneamento.
Esses dados ajudam a explicar por que a organização direcionou uma das maiores operações recentes de São Paulo para as aldeias do Jaraguá.

O que a TETO considera uma situação de hipervulnerabilidade
A expressão usada pela entidade vai além da renda familiar.
Em um estudo sobre nove territórios atendidos pela organização, 43% das moradias pesquisadas eram feitas de madeira ou sucata, enquanto 20% tinham pisos de terra ou madeira.
Problemas ambientais e estruturais também apareceram com frequência.
Segundo a TETO, 69% das famílias consultadas conviviam com pelo menos uma situação como calor ou frio excessivos, roedores, insetos, infiltrações ou umidade.
Outro dado mostra a dimensão das limitações de infraestrutura: apenas 30% dos moradores das comunidades avaliadas tinham acesso formal a sistemas de água, saneamento e eletricidade.
É para situações com múltiplas privações desse tipo que a entidade direciona suas moradias emergenciais e projetos comunitários.
No caso do Jaraguá, a construção das 25 casas se concentrou em duas aldeias onde a organização já vinha realizando levantamentos e trabalhos anteriores.
Estudo da FGV avaliou impactos das moradias
Além da proteção física proporcionada pelas novas estruturas, a TETO também já teve o impacto de seu modelo habitacional analisado por pesquisadores da Fundação Getulio Vargas.
Uma avaliação realizada durante a pandemia comparou famílias que receberam moradias emergenciais da organização com outras que também estavam aptas ao programa, mas ainda não haviam recebido as casas.
A pesquisa envolveu 524 entrevistas quantitativas em 31 comunidades, além de entrevistas com lideranças.
Os pesquisadores identificaram melhora em indicadores relacionados à saúde mental entre as famílias beneficiadas, incluindo menores níveis de preocupação, solidão e estresse.
O estudo também apontou menor uso relatado de medicamentos para depressão ou ansiedade no grupo atendido.
A FGV destacou que os resultados estavam relacionados tanto à melhoria física da moradia quanto à interação comunitária envolvida no processo de construção.
A pesquisa, entretanto, foi realizada em outro período e com outros beneficiários; portanto, seus resultados não constituem uma avaliação específica das 25 casas entregues agora na Terra Indígena Jaraguá.
Essa distinção é relevante porque os efeitos da nova ação somente poderão ser medidos posteriormente, após as famílias passarem a utilizar as moradias.
TETO já construiu mais de 5,3 mil moradias no Brasil
Criada no Chile em 1997, a organização se expandiu pela América Latina e hoje está presente em 18 países.
No Brasil, tornou-se conhecida principalmente pelos mutirões que reúnem famílias e voluntários na construção de soluções emergenciais de habitação.
Em agosto de 2026, a TETO Brasil informou ter mobilizado mais de 100 mil voluntários, construído mais de 5.300 moradias e realizado mais de 327 projetos de impacto comunitário ao longo de sua trajetória no país.
Na América Latina e no Caribe, a rede internacional TECHO atingiu em 2025 a marca de 150 mil moradias construídas, segundo dados divulgados pela própria organização.
A atuação também vem incorporando outras soluções.
Desde 2024, a entidade desenvolve no Brasil um modelo chamado Moradia Resiliente, pensado para comunidades expostas a enchentes e temperaturas extremas e equipado com recursos como ventilação cruzada, isolamento térmico e estrutura elevada.
As unidades construídas nas Tekoas Ytu e Pyau em setembro fazem parte do modelo emergencial.
A mobilização ocorreu poucos dias antes da publicação da reportagem e colocou novamente a situação habitacional da Terra Indígena Jaraguá no centro das ações da organização em São Paulo.

