Diamantes formados a mais de 700 km de profundidade revelaram a davemaoite, um mineral raro do manto da Terra capaz de armazenar elementos radioativos que aquecem o interior do planeta.
Durante décadas, cientistas sabiam que o interior da Terra deveria conter minerais que simplesmente não podem existir nas condições de pressão e temperatura da superfície. O problema era encontrar evidências físicas desses materiais, já que o manto profundo do planeta começa a centenas de quilômetros de profundidade — muito além do alcance de qualquer perfuração humana. Essa lacuna começou a ser preenchida quando pesquisadores identificaram um mineral extremamente raro escondido dentro de um diamante formado nas profundezas da Terra. O mineral recebeu o nome de davemaoite, e sua descoberta foi oficialmente reconhecida pela Associação Mineralógica Internacional em 2021.
O que torna essa descoberta extraordinária é o fato de que a davemaoite só consegue existir em condições extremas de pressão, como aquelas encontradas no manto profundo, entre 660 e 900 quilômetros abaixo da superfície. Quando o material sobe para regiões mais rasas do planeta, ele normalmente se transforma em outros minerais mais estáveis. Por isso, durante décadas, a davemaoite existia apenas como uma previsão teórica baseada em experimentos de laboratório e modelos geofísicos. Foi apenas quando cientistas examinaram um diamante originado dessas profundezas que finalmente encontraram um fragmento preservado desse mineral.
O que é a davemaoite e por que ela é tão importante para a geologia
A davemaoite é uma forma de silicato de cálcio de alta pressão, tecnicamente classificada como CaSiO₃ perovskita. Essa estrutura cristalina só se forma em pressões extremamente altas, típicas da parte inferior do manto terrestre. Os cientistas já suspeitavam da existência desse mineral porque ele aparece com frequência em experimentos que simulam as condições do interior do planeta usando prensas de alta pressão.
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No entanto, sempre que o material era removido dessas condições extremas, ele se transformava rapidamente em outras formas minerais. Isso acontecia porque a estrutura da davemaoite não é estável nas pressões mais baixas da crosta terrestre.
O diamante que revelou o mineral funcionou como uma espécie de cápsula natural, preservando a estrutura do cristal enquanto ele era transportado lentamente para a superfície por processos geológicos. Essa preservação permitiu que os cientistas finalmente observassem a davemaoite em estado natural.
O diamante que trouxe um pedaço do manto profundo à superfície
O mineral foi identificado dentro de um diamante encontrado em Botsuana, na África, uma região conhecida por produzir diamantes formados em grandes profundidades. Esses diamantes profundos são chamados de diamantes superprofundos, porque se originam em regiões do manto muito abaixo da zona onde a maioria dos diamantes se forma.
Enquanto muitos diamantes se formam entre 150 e 200 quilômetros de profundidade, os diamantes superprofundos podem se originar a mais de 700 quilômetros abaixo da superfície.
Isso significa que eles se formam na chamada zona de transição do manto, uma região onde a estrutura dos minerais muda drasticamente devido ao aumento da pressão.
Ao examinar o interior desse diamante com técnicas de difração de raios X e microscopia avançada, os cientistas descobriram pequenas inclusões minerais que correspondiam exatamente às propriedades da davemaoite.
Uma peça essencial do quebra-cabeça do interior da Terra
A descoberta da davemaoite não é apenas uma curiosidade mineralógica. Ela tem implicações importantes para a compreensão da dinâmica interna do planeta. Os modelos geofísicos indicam que a davemaoite pode representar até 5% a 7% do volume do manto inferior, o que significa que ela pode ser um componente significativo dessa camada do planeta.
Mas o que realmente chamou a atenção dos cientistas foi a capacidade desse mineral de incorporar elementos radioativos em sua estrutura cristalina. Entre esses elementos estão:
- Urânio
- Tório
- Potássio
Esses elementos são importantes porque produzem calor por meio do decaimento radioativo. Esse processo libera energia lentamente ao longo de bilhões de anos, contribuindo para aquecer o interior do planeta.
O calor interno que mantém o planeta ativo
O interior da Terra é extremamente quente. Estima-se que a temperatura no núcleo do planeta ultrapasse 5.000 °C, comparável à superfície do Sol. Parte desse calor vem da energia residual da formação da Terra, que ocorreu há cerca de 4,5 bilhões de anos.
Outra parte significativa, porém, vem justamente do decaimento radioativo de elementos presentes nas rochas profundas do planeta. Esses elementos funcionam como pequenas fontes de calor distribuídas pelo interior da Terra.

A descoberta de que a davemaoite pode armazenar grandes quantidades desses elementos significa que ela pode desempenhar um papel fundamental na geração de calor no manto profundo. O calor é o motor que alimenta processos geológicos essenciais, como:
- movimentação das placas tectônicas
- formação de vulcões
- criação de novas crostas oceânicas
- circulação de material no manto
O manto terrestre: a maior camada do planeta
Para entender a importância dessa descoberta, é necessário compreender a estrutura interna da Terra. O planeta é dividido em quatro grandes camadas:
- Crosta – camada superficial onde vivemos
- Manto – camada intermediária que representa cerca de 84% do volume da Terra
- Núcleo externo – composto principalmente por ferro líquido
- Núcleo interno – esfera sólida de ferro
O manto sozinho possui cerca de 2.900 quilômetros de espessura. Ele é formado por rochas extremamente quentes que, embora sólidas, podem se deformar lentamente ao longo de milhões de anos.
Esses movimentos lentos formam correntes de convecção que transportam calor do interior da Terra para a superfície. A davemaoite faz parte justamente das rochas que compõem a porção inferior dessa camada gigantesca.
Como os diamantes funcionam como cápsulas do interior da Terra
Diamantes são formados em condições extremamente específicas de pressão e temperatura. Essas condições geralmente existem a centenas de quilômetros de profundidade, dentro do manto. Quando erupções vulcânicas profundas transportam material do manto para a superfície, os diamantes podem subir junto com essas rochas.
Durante esse processo, pequenos fragmentos do ambiente onde o diamante se formou podem ficar presos dentro dele. Esses fragmentos são chamados de inclusões minerais.
Essas inclusões funcionam como pequenas cápsulas do tempo geológicas, preservando minerais que normalmente não sobreviveriam às condições da superfície. Foi exatamente esse mecanismo que permitiu aos cientistas encontrar a davemaoite.
A descoberta que confirmou décadas de previsões teóricas
Por décadas, geofísicos acreditavam que a davemaoite deveria existir no interior da Terra. Experimentos de laboratório usando prensas gigantes já haviam produzido esse mineral sob pressões equivalentes às do manto profundo.
No entanto, até recentemente, nenhum espécime natural havia sido encontrado. Isso acontecia porque o mineral se transformava rapidamente quando a pressão diminuía. A identificação da davemaoite dentro de um diamante foi a primeira evidência natural desse mineral no planeta.
Essa descoberta confirmou previsões científicas feitas há mais de meio século sobre a composição do manto inferior.
O que a davemaoite pode revelar sobre a evolução do planeta
A presença de elementos radioativos nesse mineral também pode ajudar os cientistas a entender melhor como o interior da Terra evoluiu ao longo de bilhões de anos. O calor produzido por esses elementos influencia diretamente a circulação de material no manto.

Essa circulação, por sua vez, controla fenômenos fundamentais como:
- a formação de continentes
- o surgimento de cadeias de montanhas
- a atividade vulcânica
- o movimento das placas tectônicas
Sem esse fluxo constante de energia, o planeta seria geologicamente muito mais estático. A davemaoite pode ser uma das peças que explicam como esse sistema complexo se mantém ativo por bilhões de anos.
O interior da Terra ainda guarda muitos segredos
Mesmo com avanços impressionantes nas técnicas de análise mineral e geofísica, o interior da Terra continua sendo um território pouco explorado.
Grande parte do conhecimento atual sobre o manto profundo vem de modelos teóricos, experimentos de laboratório e análises indiretas de ondas sísmicas.
Descobertas como a da davemaoite mostram que diamantes podem funcionar como mensageiros das profundezas do planeta, trazendo informações sobre regiões inacessíveis.
À medida que novas técnicas de análise são desenvolvidas e mais diamantes profundos são estudados, os cientistas esperam revelar outros minerais desconhecidos que podem existir nas camadas profundas da Terra. Cada uma dessas descobertas ajuda a reconstruir a história geológica do planeta e a compreender os processos que moldaram a Terra desde sua formação.
O pequeno cristal de davemaoite encontrado dentro de um diamante revelou apenas um fragmento desse mundo profundo — um ambiente extremo que existe centenas de quilômetros abaixo de nossos pés e que continua escondendo segredos fundamentais sobre o funcionamento do planeta.

