Episódio 130 de Dragon Ball Super levou milhares às praças mexicanas, provocou disputa por direitos autorais e mobilizou até a diplomacia japonesa.
Em março de 2018, o que deveria ser apenas a chegada do penúltimo episódio de Dragon Ball Super transformou-se em um fenômeno público no México. Prefeituras anunciaram telões em praças e estádios para exibir a batalha entre Goku e Jiren, a Toei Animation reagiu dizendo que não havia autorizado aquelas transmissões e até a Embaixada do Japão no México entrou no caso para pedir respeito aos direitos da obra. Segundo o El Universal, depois de negociações envolvendo Ciudad Juárez, a exibição foi mantida e uma estimativa posterior colocou cerca de 15 mil pessoas na Plaza de la Mexicanidad em 17 de março de 2018.
Uma reportagem publicada logo após o evento falou em aproximadamente 20 mil segundo seus organizadores, mostrando que não existe uma contagem única e definitiva do público.
A dimensão ultrapassou Ciudad Juárez. Em San Luis Potosí, mais de 10 mil pessoas acompanharam o mesmo episódio em uma praça pública; outras cidades também planejavam ou realizaram eventos, enquanto algumas cancelaram depois da controvérsia jurídica.
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Tudo começou com pedidos de fãs para colocar Goku em uma tela gigante
A mobilização em Ciudad Juárez não começou como uma grande operação planejada pelo poder público. Fãs passaram a enviar pedidos pelas redes sociais para que o governo municipal organizasse uma exibição pública do episódio 130 de Dragon Ball Super, cuja estreia estava marcada para aquele fim de semana.

O então prefeito Armando Cabada Alvídrez decidiu apoiar a ideia. A prefeitura anunciou que disponibilizaria tela, sistema de som e cadeiras na Plaza de la Mexicanidad, além de estrutura de segurança para manter a concentração organizada. Segundo Cabada, a proposta também tinha uma dimensão de convivência e coesão social entre os jovens.
A notícia rapidamente extrapolou Ciudad Juárez. Outros governos municipais perceberam o interesse extraordinário e começaram a receber pedidos semelhantes. Em poucos dias, exibições estavam sendo anunciadas em localidades como San Luis Potosí, Pachuca, Ciudad Madero e Zacatecas.
O episódio 130 não era o final da série, mas carregava a luta que todos esperavam
Parte da confusão na época veio da descrição do episódio como “o final de Dragon Ball Super”. Tecnicamente, isso estava errado.
O capítulo 130 era o penúltimo episódio da série, enquanto o episódio 131 encerraria aquela fase do anime uma semana depois.
Mas o 130 concentrava justamente o confronto que havia dominado a expectativa dos fãs: Goku contra Jiren, representantes dos universos 7 e 11 no Torneio do Poder. A própria Crunchyroll hoje lista o capítulo como “O maior combate de todos os tempos! A batalha definitiva pela sobrevivência!”.
Era, portanto, o momento em que uma trama acompanhada durante meses chegava à sua batalha mais aguardada. Essa combinação ajuda a entender por que fãs não queriam simplesmente assistir em televisores ou celulares dentro de casa.
Em várias cidades latino-americanas, a lógica passou a ser semelhante à de uma final de futebol: reunir milhares de pessoas diante de uma tela gigante.
A Toei Animation descobriu as exibições e avisou que não havia dado autorização
Quando os anúncios de governos municipais começaram a ganhar visibilidade, surgiu um problema que os fãs não poderiam resolver apenas com entusiasmo: direitos autorais e direitos de exibição pública.
A Toei Animation divulgou um comunicado dizendo que havia tomado conhecimento dos planos de exibir o episódio 130 em estádios, praças e outros espaços públicos da América Latina, mas esclareceu que não havia autorizado aquelas apresentações.

A empresa também afirmou que não apoiava nem patrocinava os eventos e pediu que o público acompanhasse a produção pelas plataformas e emissoras oficialmente licenciadas, em vez de apoiar projeções não autorizadas.
A questão era importante porque o fato de um evento ser gratuito não significa automaticamente que uma obra audiovisual possa ser projetada publicamente sem autorização. Os direitos de assistir individualmente a um conteúdo e os direitos para organizar sua exibição coletiva são questões distintas.
Prefeituras mexicanas ficaram diante de um problema que não esperavam
Até a manifestação da Toei, parte dos governos locais tratava a iniciativa principalmente como evento recreativo. Depois do comunicado, a situação mudou.
Alguns municípios começaram a buscar autorização, enquanto outros cancelaram as projeções planejadas.
A controvérsia atingiu localidades de diferentes estados e gerou debate sobre quem poderia conceder os direitos necessários para uma exibição daquele tamanho.
No México e em outros países latino-americanos, a transmissão digital oficial de Dragon Ball Super estava vinculada à Crunchyroll, enquanto a própria série permanecia protegida pelos direitos de seus detentores japoneses. A Toei atualmente identifica Dragon Ball Super como propriedade ligada a Bird Studio, Shueisha e Toei Animation.
O que havia começado como “vamos colocar Goku em um telão” passava, de repente, por contratos, licenciamento e propriedade intelectual internacional.
A Embaixada do Japão entrou no caso um dia antes da grande exibição
A história ganhou seu componente diplomático em 16 de março de 2018, um dia antes das transmissões programadas.
Segundo reconstrução publicada pelo El Universal, baseada originalmente em reportagem da BBC, uma carta da Embaixada do Japão no México, dirigida ao governador de Coahuila, Miguel Ángel Riquelme Solís, ecoou as preocupações apresentadas pela Toei Animation e pediu que projeções ilegais fossem canceladas.
A coincidência tornava a situação ainda mais curiosa: naquele mesmo ano, México e Japão comemoravam 130 anos de relações diplomáticas, aniversário oficialmente celebrado pelos dois governos.
Enquanto algumas cidades cancelavam, Ciudad Juárez continuou negociando
O aviso não significou o fim automático de todas as exibições. Ciudad Juárez tentou preservar o evento buscando uma solução com os titulares e distribuidores envolvidos.
Reportagens posteriores registram que o prefeito Armando Cabada anunciou que as negociações haviam avançado e que a projeção poderia acontecer com autorização. O El Universal descreveu o resultado como uma negociação bem-sucedida que permitiu que os fãs de Ciudad Juárez assistissem ao episódio.
Antes mesmo da controvérsia chegar ao auge, Cabada já havia afirmado publicamente que a transmissão seria realizada com os direitos e permissões correspondentes.
San Luis Potosí também encontrou um caminho. O El Universal informou na noite do evento que o município havia recebido autorização da Crunchyroll Latinoamérica para exibir o episódio 130.
Milhares começaram a ocupar a Plaza de la Mexicanidad
No sábado, 17 de março de 2018, o experimento finalmente saiu das redes sociais e chegou às ruas.
Em Ciudad Juárez, fãs ocuparam a Plaza de la Mexicanidad para acompanhar o episódio em uma tela gigante. Imagens da época mostram a grande concentração reunida diante do sistema de projeção enquanto as vozes japonesas dos personagens ecoavam pela praça.

A estimativa de público varia conforme a fonte. A reconstrução publicada anos depois pelo El Universal fala em 15 mil pessoas. Já a reportagem publicada na própria noite de 17 de março citou os responsáveis pela transmissão e estimou aproximadamente 20 mil.
Por isso, a formulação jornalisticamente mais segura é dizer que dezenas de milhares de pessoas participaram das exibições mexicanas e que Ciudad Juárez reuniu algo entre 15 mil e 20 mil segundo estimativas publicadas, sem tratar nenhum desses números como uma contagem oficial exata.
Em San Luis Potosí, mais de 10 mil pessoas fizeram o mesmo
Ciudad Juárez não foi um caso isolado. Na Plaza de los Fundadores, em San Luis Potosí, o episódio reuniu mais de 10 mil pessoas, segundo reportagem publicada pelo El Universal no mesmo dia.
A concentração começou ainda antes do anoitecer. Uma grande tela foi instalada na praça e o público acompanhou coletivamente o confronto entre Goku e Jiren.
A reportagem registrou inclusive comentários de participantes comparando a quantidade de pessoas com atos políticos recentes.
Em um México que se aproximava das eleições federais de julho de 2018, uma animação japonesa havia conseguido lotar espaços públicos sem campanha eleitoral, show musical ou partida de futebol.
Somando apenas as estimativas publicadas para Ciudad Juárez e San Luis Potosí, a mobilização ultrapassava 25 mil pessoas. Outras localidades também realizaram transmissões. Não há, porém, uma contagem nacional consolidada e suficientemente confiável para afirmar um número exato de participantes em todo o México.
O episódio 130 entregou justamente a batalha que havia criado toda a mobilização
Quando a projeção começou, o público recebeu aquilo que vinha esperando. No episódio 130, Goku alcança seu confronto máximo com Jiren durante os momentos finais do Torneio do Poder. A Crunchyroll resume o capítulo como uma batalha em que os dois guerreiros ultrapassam seus limites enquanto lutam pela sobrevivência de seus respectivos universos.
O capítulo foi lançado na plataforma em 18 de março de 2018, considerando sua publicação internacional, enquanto os eventos mexicanos ocorreram na noite de 17 de março em razão da diferença de horário com a transmissão japonesa.
Uma semana depois chegaria o episódio 131, encerrando a série televisiva Dragon Ball Super com a conclusão do Torneio do Poder.
O que deveria ser uma sessão coletiva terminou entrando para a história da cultura pop mexicana
Visto anos depois, o tamanho do episódio não está apenas na quantidade de pessoas que apareceu em uma praça.
A sequência começou com fãs mandando mensagens para prefeituras. Governos locais aceitaram instalar telas. Outras cidades copiaram a ideia. A Toei Animation descobriu que sua produção seria projetada em locais públicos e informou que não havia dado autorização.
A controvérsia atravessou o sistema de licenciamento, chegou à Embaixada do Japão e obrigou municípios interessados em manter os eventos a buscar permissões.
No final, Ciudad Juárez manteve sua transmissão e reuniu uma multidão estimada entre 15 mil e 20 mil pessoas. San Luis Potosí colocou outras mais de 10 mil diante de um telão.


