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O desastre nuclear secreto que contaminou 23 cidades, expulsou 270 mil pessoas e só foi revelado 30 anos depois: o vazamento de Mayak em Kyshtym, classificado como INES-6 e mais grave que Three Mile Island

Escrito por Débora Araújo
Publicado em 14/01/2026 às 13:36
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Explosão nuclear escondida pelo regime soviético contaminou 23 cidades, forçou a evacuação silenciosa de 270 mil pessoas e foi classificada como INES-6, tornando-se mais grave que Three Mile Island e desconhecida do mundo por 30 anos.

No dia 29 de setembro de 1957, a União Soviética enfrentou um dos piores acidentes nucleares da história moderna. O episódio ficou conhecido como desastre de Kyshtym, em referência à pequena cidade homônima na região dos Montes Urais, embora o acidente tenha ocorrido na instalação secreta de Mayak, um dos centros nucleares mais sensíveis da URSS. Diferente de Chernobyl, que chocou o mundo em 1986 com imagens marcantes, Kyshtym foi completamente apagado da narrativa oficial. Apenas décadas depois pesquisadores e agências internacionais descobriram a escala real do evento.

A explosão em Mayak e a criação da “Rota da Radioatividade”

A origem do desastre estava em um tanque de armazenamento contendo dezenas de toneladas de resíduos radioativos de alto nível, produto direto do processamento de plutônio para fins militares. O sistema de resfriamento do tanque falhou e a temperatura interna subiu silenciosamente durante meses, até que a solução química entrou em decomposição térmica, resultando em uma explosão poderosa. A detonação não envolveu reação nuclear, mas lançou cerca de 70 a 80 toneladas de material altamente radioativo na atmosfera, criando uma nuvem que se espalhou ao longo de aproximadamente 800 quilômetros.

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Esse corredor de contaminação ficou posteriormente conhecido como East-Ural Radioactive Trace (EURT), uma faixa geográfica de alta radioatividade que atravessou dezenas de vilarejos, fazendas e rios, atingindo diretamente populações que não receberam qualquer alerta.

Cidades contaminadas, populações removidas e silêncio militar

Estudos históricos do Instituto de Energia Atômica de Obninsk e do International Nuclear Safety Center confirmam que 23 cidades e vilarejos foram contaminados em algum grau. A resposta oficial soviética não incluiu sirenes, comunicados públicos ou equipamentos de proteção. A evacuação começou dias depois, de forma discreta e seletiva, muitas vezes com autoridades ordenando que moradores deixassem suas casas com o que carregassem nas mãos, sem explicações.

Registros posteriormente divulgados mostram que aproximadamente 270 mil pessoas foram afetadas pela contaminação em graus variados. Uma parcela significativa foi removida silenciosamente para outras regiões, enquanto outra permaneceu e só soube da natureza radioativa anos depois, quando começaram a surgir diagnósticos de câncer, doenças hematológicas e síndromes associadas à exposição crônica.

Um acidente classificado como INES-6 e pior que Three Mile Island

Após a abertura de arquivos e análises conduzidas por pesquisadores internacionais nos anos 1990 e 2000, o desastre de Kyshtym foi classificado como nível 6 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares (INES), ficando atrás apenas de Chernobyl (nível 7, em 1986) e Fukushima (nível 7, em 2011). Para comparação, o famoso acidente norte-americano de Three Mile Island em 1979 foi catalogado como nível 5, o que torna Kyshtym mais severo do ponto de vista de impacto radiológico ambiental.

Essa classificação elevada se deve à combinação de fatores técnicos: liberação massiva de radionuclídeos atmosféricos, contaminação de solo e corpos hídricos, longa persistência tóxica e deslocamento populacional em larga escala.

O papel da Guerra Fria e a ocultação de informações estratégicas

A cronologia do silêncio não foi um acidente burocrático. Na década de 1950, a União Soviética disputava com os Estados Unidos o domínio do plutônio e da bomba termonuclear. O complexo de Mayak fazia parte desse pilar estratégico. Admitir um acidente dessa magnitude significaria revelar vulnerabilidades operacionais e falhas tecnológicas em pleno auge da corrida armamentista.

Somente nos anos 1970, por meio de relatos científicos fragmentados e trabalhos de pesquisadores soviéticos exilados, o Ocidente ouviu falar da “região radioativa dos Urais”. A confirmação oficial só ganhou corpo no final da década de 1980, durante a abertura política da Glasnost, quando Moscou começou a admitir acidentes internos. O volume de dados técnicos, no entanto, só foi liberado de forma significativa após o fim da URSS, quando historiadores, físicos nucleares e instituições internacionais passaram a reconstruir o evento.

Impactos ambientais de longo prazo e zonas restritas

A radiação não desapareceu com o passar dos anos. Parte da região mais contaminada foi convertida na chamada East Ural Nature Reserve, um parque de acesso restrito criado oficialmente para “preservação científica”, mas que na prática funciona como zona tampão para impedir ocupação humana. Pesquisas com isotopos ainda detectam concentrações anormais de estrôncio-90 e césio-137 em camadas de solo e sedimentos de rios.

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Os impactos sobre fauna e flora continuam sendo objeto de estudo. Em algumas áreas, a vegetação reconquistou o território abandonado, criando um paradoxo já observado em Chernobyl: ecossistemas prósperos do ponto de vista ecológico, mas biologicamente marcados pela radiação.

O desastre que o mundo nunca viu

Kyshtym permanece como um caso singular na história nuclear não apenas pela gravidade técnica, mas pela invisibilidade política. Sem imagens icônicas, sem manchetes internacionais e sem protestos globais, o evento quase desapareceu na sombra da Guerra Fria. Quando pesquisadores finalmente conectaram os pontos, parte das vítimas já havia morrido, cidades haviam sido removidas e o complexo de Mayak continuava operando sob sigilo.

Hoje, especialistas classificam o acidente como um dos mais graves da história da tecnologia nuclear, ao lado de Chernobyl e Fukushima. No entanto, permanece como o “desastre nuclear fantasma”, invisível ao público geral e ausente da memória global, apesar de sua escala e impacto.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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