Durante praticamente toda a vida, a escola permaneceu distante de Manoel Lourenço de Oliveira, trabalhador que começou ainda criança na roça, criou 12 filhos e construiu sua trajetória profissional como mestre de obras. Aos 77 anos, na Bahia, ele aprendeu a ler e escrever, passou a assinar o próprio nome e recebeu um certificado de alfabetização em uma cerimônia que reuniu centenas de estudantes.
Durante décadas, Manoel Lourenço de Oliveira soube erguer construções, trabalhar com as próprias mãos e sustentar uma família numerosa. Mas atividades simples para milhões de brasileiros, como ler uma placa ou descobrir sozinho o destino de um ônibus, ainda dependiam da ajuda de outras pessoas.
Aos 77 anos, essa realidade mudou. Manoel concluiu um processo de alfabetização em Feira de Santana, na Bahia, e participou, em 11 de janeiro de 2026, de uma cerimônia no Centro de Convenções da cidade organizada para celebrar jovens, adultos e idosos que aprenderam a ler e escrever.
O trabalho começou ainda na infância e empurrou a escola para longe
Natural de Alagoas e descendente de indígenas, segundo reportagem do portal local Acorda Cidade, Manoel começou a trabalhar ainda criança na roça. Durante anos, participou de atividades agrícolas e, posteriormente, encontrou na construção civil o caminho para sustentar a família.
-
Família paga R$ 1,2 milhão por chácara de 20 mil m², manda cercar o terreno e então descobre que quase 3 mil m² estão faltando, um sumiço que pode valer cerca de R$ 180 mil e virar disputa na Justiça
-
Caribe e México enfrentam 27 milhões de toneladas de sargaço no Atlântico em julho, enquanto praias ficam cobertas por algas em decomposição, vendas caem até 30% em áreas turísticas e governo mexicano anuncia US$ 115 milhões para combater uma invasão que pode despejar 9 mil toneladas por dia no litoral
-
Homem passa semanas empilhando 120 toneladas de madeira até erguer uma torre colossal de 24 metros feita para desaparecer em chamas numa única noite, mas governo proíbe a fogueira e ele coloca a estrutura inteira à venda por cerca de R$ 37,5 mil
-
David Beckham transformou o jardim de sua propriedade nos Cotswolds em uma horta produtiva, começou a plantar favas, cebolas roxas, cenouras e pepinos, passou a acompanhar a irrigação e colher os vegetais no próprio terreno e converteu parte da área residencial em fonte de alimentos frescos para a família na Inglaterra
Ele se tornou mestre de obras, criou 12 filhos e hoje também é avô de 10 netos. Enquanto trabalhava para garantir condições melhores aos filhos, o desejo de estudar permaneceu adiado.
A história de Manoel reproduz uma realidade que atravessou gerações brasileiras: pessoas que ingressaram muito cedo no mercado de trabalho e chegaram à velhice sem terem tido acesso efetivo à alfabetização.

Não conseguir ler transformava tarefas simples em obstáculos diários
A dificuldade não aparecia apenas diante de livros ou documentos. Manoel contou que, antes de aprender a ler, precisava pedir ajuda para situações rotineiras.
Um exemplo era o transporte público. Ao chegar a um ponto de ônibus, não conseguia identificar sozinho o destino indicado no veículo e precisava perguntar a outra pessoa para onde aquela linha seguia.
Depois de aproximadamente cinco meses de aulas, ele passou a escrever, ler palavras e assinar o próprio nome. A conquista trouxe uma independência que, embora pareça pequena para quem sempre teve acesso à escola, alterou tarefas básicas de sua rotina.
Cinco meses de aulas culminaram em uma formatura na Bahia
Manoel participou da Jornada de Alfabetização de Jovens, Adultos e Idosos nas Periferias Urbanas, iniciativa ligada ao projeto Mãos Solidárias Bahia.
Em Feira de Santana, o programa chegou a cerca de 60 turmas. A cobertura oficial do Governo da Bahia informou que a cerimônia de janeiro reuniu cerca de mil alfabetizandos, enquanto o Acorda Cidade registrou que mais de 600 participantes concluíram o processo de alfabetização.
As aulas utilizam o método cubano “Sim, Eu Posso!”, adaptado à educação popular e baseado também nas experiências acumuladas pelos próprios estudantes ao longo da vida.
Para aproximar a escola de pessoas que historicamente ficaram longe dela, turmas funcionaram em diferentes espaços comunitários, incluindo associações, igrejas e terreiros.
Aos 77 anos, o certificado não encerrou o desejo de estudar
A cerimônia representou uma chegada, mas não necessariamente um ponto final. Depois de finalmente aprender a ler e escrever, Manoel manifestou o desejo de continuar estudando.
O caso ganha dimensão ainda maior quando colocado diante dos números brasileiros. Dados da PNAD Contínua divulgados pelo IBGE mostram que, em 2025, aproximadamente 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais ainda não sabiam ler nem escrever.
O Nordeste concentrava 4,8 milhões dessas pessoas. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, cerca de 4,9 milhões ainda eram analfabetos, evidenciando como as dificuldades de acesso à educação das décadas passadas permanecem vivas entre as gerações mais velhas.
Manoel passou boa parte da vida construindo casas e ajudando a construir o futuro de seus 12 filhos. Aos 77 anos, conseguiu começar uma construção diferente: a autonomia de ler sozinho as palavras que, durante décadas, estiveram diante de seus olhos.
E quantas histórias semelhantes ainda esperam pela primeira oportunidade de abrir uma sala de aula?
