Trajetória marcada por mais de 15 anos nas ruas ganhou outro rumo após acolhimento, tratamento e recuperação em Santa Catarina, até transformar uma experiência de vulnerabilidade em trabalho diário de apoio a pessoas que enfrentam problemas semelhantes e buscam reorganizar a própria vida.
Depois de passar mais de 15 anos em situação de rua e conviver com a dependência química, Rafael Novaes, de 46 anos, foi acolhido pela rede municipal de Blumenau, em Santa Catarina, encaminhado para tratamento e hoje trabalha como monitor em uma comunidade terapêutica.
Na função atual, ele acompanha pessoas que enfrentam problemas semelhantes aos que marcaram sua própria trajetória, transformando a experiência de vulnerabilidade e recuperação em uma rotina profissional dedicada ao apoio de outros dependentes durante diferentes etapas do tratamento.
Segundo a Prefeitura de Blumenau, o acolhimento ocorreu no início de 2025, quando a equipe de Abordagem Social do município identificou a situação de Rafael e articulou, com a rede de assistência, o encaminhamento necessário para que ele recebesse tratamento.
-
Encontrada com 1 ano e 10 meses em um lixão e acolhida por uma lavadeira, menina cresce em meio à pobreza, passa a vender coxinhas nas ruas aos 8 anos, constrói carreira no varejo e décadas depois chega ao comando de três negócios no setor de alimentação com projeção de R$ 8 milhões
-
Arqueólogos encontram a 6,5 quilômetros da costa uma cidade egípcia desaparecida há mais de mil anos onde templos gigantes, estátuas de 5 metros, joias de ouro e navios continuam enterrados sob o fundo do Mediterrâneo
-
Aos 14 anos, baiano vendia picolé e cobrava dívidas para pagar as próprias despesas; aos 18 chegou a Brasília com apenas R$ 500, virou porteiro das 19h às 7h, estudava durante o dia e, aos 20, conquistou a aprovação para policial legislativo do Senado Federal
-
Filho de agricultores e sem internet em casa, jovem trabalha durante o dia em um mercadinho, estuda sozinho das 19h às 23h na casa do tio, não consegue pagar cursinho e conquista uma vaga em Medicina na Universidade Federal do Piauí
A partir desse atendimento, o processo passou a reunir acompanhamento social, internação e suporte voltado à recuperação, até que Rafael deixasse a condição registrada anteriormente nas ruas e começasse a reorganizar a própria rotina mantendo a sobriedade.
Rafael Novaes voltou a Blumenau trabalhando como monitor
Quando retornou a Blumenau, em junho de 2026, Rafael encontrou novamente profissionais e representantes do município que haviam participado do atendimento, mas dessa vez chegou à cidade fora das ruas, em recuperação e exercendo uma nova função profissional.
Em Petrolândia, também em Santa Catarina, ele passou a trabalhar como monitor de uma comunidade terapêutica, onde acompanha pessoas em tratamento contra a dependência e usa a experiência acumulada durante a própria recuperação como parte das atividades desempenhadas diariamente.
A mudança ocorreu depois de um período prolongado de vulnerabilidade, já que a Prefeitura registra mais de 15 anos de vida em situação de rua enquanto Rafael enfrentava a dependência química e as dificuldades associadas à ausência de uma rotina estável.
Ao falar sobre essa etapa, ele descreveu o tratamento como um ponto de virada para recuperar autonomia e voltar a tomar decisões sobre a própria vida, destacando que permanecer longe das drogas exige uma escolha consciente renovada todos os dias.
Recuperação da dependência química mudou a rotina
Dentro dessa nova rotina, a sobriedade deixou de estar associada apenas ao tratamento e passou a envolver trabalho, responsabilidade e acompanhamento constante, elementos que Rafael relaciona diretamente à possibilidade de manter distância da dependência que atravessou tantos anos de sua trajetória.
Essa reconstrução também modificou seu papel dentro do ambiente terapêutico, porque ele deixou de ocupar somente a posição de pessoa atendida e passou a exercer uma função de suporte para quem ainda percorre etapas semelhantes às que enfrentou.
No trabalho realizado em Petrolândia, Rafael se dedica integralmente ao acompanhamento de outros dependentes, participando de uma rotina voltada ao apoio de pessoas em tratamento e mantendo contato diário com situações que, em diferentes momentos, fizeram parte da própria história.
Ele atribui parte importante desse recomeço ao apoio e à orientação recebidos durante o período de recuperação, enquanto afirma que o foco atual está em ajudar outras pessoas que também tentam reorganizar a vida e permanecer afastadas das drogas.
Rede de assistência social participou do acolhimento
O acolhimento inicial em Blumenau foi realizado pela rede de Abordagem Social, responsável pelo atendimento informado pela administração municipal, enquanto o encaminhamento posterior para tratamento ocorreu de forma articulada com os demais serviços de assistência envolvidos no caso.
Durante a visita de Rafael à Prefeitura, o prefeito Egidio Ferrari relembrou que acompanhou o começo desse processo, desde uma operação de rua até a internação involuntária que integrou o encaminhamento adotado pela rede municipal naquele momento.
Segundo a administração de Blumenau, o atendimento reuniu abordagem ativa, acompanhamento e encaminhamento para serviços destinados a pessoas em vulnerabilidade, dentro de uma atuação que envolveu diferentes áreas da rede pública de proteção e assistência social do município.
O secretário de Desenvolvimento Social, Rafael Burgonovo, afirmou que o caso mobilizou essa estrutura integrada, que mantém ações de abordagem, encaminhamentos relacionados à saúde e iniciativas voltadas à reintegração social de pessoas atendidas em condições semelhantes.
De pessoa atendida a monitor de comunidade terapêutica
Ao reencontrar os profissionais ligados ao período em que vivia nas ruas, Rafael apareceu em uma condição diferente daquela registrada no início do acompanhamento, agora com uma rotina profissional definida e dedicação integral ao suporte oferecido pela comunidade terapêutica.
Nessa nova fase, o contato com pessoas em recuperação faz parte de suas atividades diárias, enquanto a experiência vivida no próprio tratamento permanece associada ao trabalho que ele desempenha junto de quem ainda enfrenta a dependência.
O ambiente da comunidade terapêutica, segundo o relato apresentado pela Prefeitura, ofereceu apoio, orientação e uma oportunidade de recomeço durante a recuperação de Rafael, que posteriormente passou a participar do atendimento de pessoas submetidas a processos semelhantes.
Hoje, a função exercida em Petrolândia mantém Rafael diretamente ligado ao universo da recuperação, embora em uma posição diferente daquela que ocupava quando recebeu atendimento, combinando o cuidado com a própria sobriedade ao acompanhamento de outros dependentes.
Mais de 15 anos depois de viver nas ruas enfrentando a dependência química, sua rotina passou a envolver justamente o auxílio a pessoas que buscam reorganizar a própria vida, enquanto ele mantém a recuperação como uma responsabilidade construída diariamente.
Ao falar sobre autonomia, Rafael relacionou a recuperação à capacidade de voltar a decidir sobre a própria vida e permanecer longe das drogas, ao mesmo tempo em que transformou essa experiência em uma atividade profissional centrada no apoio a outras pessoas.
Quantas trajetórias poderiam tomar um rumo diferente quando acolhimento, tratamento e acompanhamento conseguem alcançar pessoas em situação de rua e oferecer condições para que elas recuperem autonomia, reorganizem a rotina e encontrem novas formas de participar da vida social?

