Entre bilhões movimentados pela família Lego e um projeto ambiental que alcançou o Pacífico, Sofie Kirk Kristiansen direcionou parte de sua fortuna para áreas naturais, ilhas e iniciativas de conservação em diferentes continentes.
Uma das herdeiras da família que transformou pequenos blocos coloridos em um império mundial de brinquedos decidiu direcionar parte de sua fortuna para um patrimônio completamente diferente.
Sofie Kirk Kristiansen vendeu uma parcela de suas ações na holding familiar por bilhões de coroas dinamarquesas e ampliou investimentos destinados à conservação da natureza, que chegaram a um arquipélago de 21 ilhas no Pacífico.
Bisneta de Ole Kirk Kristiansen, fundador da Lego em 1932, Sofie integra a quarta geração da família controladora da fabricante dinamarquesa.
-
Airfryer com os dias contados: Dako lança forno de embutir com tecnologia Air Fryer embutida, preparo mais rápido e até 250 °C de temperatura
-
Deputado propõe nova lei da CNH que exige prova oral para candidatos não alfabetizados e acaba com requisito de saber ler e escrever
-
Adeus gasolina: Can-Am inova e surge com uma de suas primeiras motos elétricas full size, que entrega 47 cv, 72 Nm, vai de 0 a 100 km/h em 4,3 segundos e alcança 145 km de autonomia
-
Casa da família de Bela Gil na serra do Rio sai de um campo de futebol invadido por bambu, ganha nova função durante a pandemia, adota a agrofloresta para produzir parte dos alimentos sem depender de insumos químicos e transforma o antigo gramado da propriedade em área de cultivo integrada à floresta
Aos 50 anos, continua ligada à fortuna construída em torno da marca: em agosto de 2026, a Forbes estimava seu patrimônio em US$ 8,1 bilhões.
A dimensão do patrimônio, porém, ajuda a explicar apenas uma parte da história.
O destino dado a bilhões liberados por uma operação realizada em 2023 revela um projeto que já ultrapassa a Dinamarca e alcança florestas, áreas de turfeira, savanas, florestas tropicais e ecossistemas marinhos.
Herdeira da Lego vendeu parte das ações por cerca de 6,32 bilhões de coroas
A operação que chamou atenção do mercado aconteceu em 2023, mas há uma diferença importante em relação à maneira simplificada como a história costuma ser contada.
Sofie não vendeu todas as suas ações da Lego nem abandonou a família controladora.
Segundo a Bloomberg, ela negociou 4 milhões de ações da Kirkbi, holding da família Kirk Kristiansen que controla 75% do Lego Group.
O valor foi de aproximadamente 6,32 bilhões de coroas dinamarquesas, equivalentes a cerca de US$ 930 milhões na cotação informada na época.
Cada papel foi negociado por aproximadamente 158 mil coroas.
A própria Kirkbi informou que as ações adquiridas foram posteriormente canceladas, aumentando proporcionalmente a participação dos demais acionistas familiares.
Mais importante do que a engenharia financeira foi a justificativa.
Em declaração reproduzida pela Fortune, a Kirkbi afirmou que Sofie havia concordado em vender uma pequena parcela de suas ações para dedicar mais tempo e recursos a projetos privados de conservação e preservação da natureza.
Foi uma pista bastante clara sobre o destino de parte do dinheiro.

Compra de 21 ilhas levou projeto ambiental até Papua-Nova Guiné
Dois anos depois, o projeto ganhou uma escala que dificilmente passaria despercebida.
Em 2025, Sofie criou a Earthkeeper Sanctuaries Fonden, fundação destinada a reunir e preservar seus projetos ambientais no longo prazo.
Documentos financeiros da própria fundação confirmam que ela passou a ter participação indireta em um atol de 21 ilhas em Papua-Nova Guiné por meio da aquisição da Coral Islands Limited, empresa que detém os ativos da região.
As ilhas ficam na província de Milne Bay, em uma área remota do Pacífico associada ao arquipélago conhecido como Conflict Islands.
Um relatório de conservação da região descreve o atol como composto por 21 ilhas, cercadas por ecossistemas marinhos onde também são realizadas ações de proteção de tartarugas-verdes e tartarugas-de-pente.
No início de 2026, a operação ainda dependia de uma etapa regulatória importante.
Em 6 de janeiro de 2026, a Independent Consumer and Competition Commission de Papua-Nova Guiné autorizou a Earthkeeper Sanctuaries a seguir com a aquisição de 100% da Coral Islands Limited.
A decisão foi divulgada pelo órgão em 15 de janeiro.
Meses depois, o relatório anual da Earthkeeper Sanctuaries já descrevia o arquipélago como indiretamente adquirido pela fundação, indicando que a transação havia avançado após a autorização.

Por que alguém compraria 21 ilhas e deixaria tudo sem construir?
É justamente aqui que a história se distancia de outras aquisições de ilhas feitas por bilionários.
O objetivo declarado não é construir resorts privados, grandes mansões ou transformar cada pedaço de terra em empreendimento imobiliário.
A missão estabelecida pela Earthkeeper Sanctuaries é preservar ecossistemas autênticos e a biodiversidade, inclusive por meio da aquisição direta ou indireta de áreas naturais.
A publicação dinamarquesa especializada em filantropia Filantropi registrou que o primeiro grande projeto da nova fundação era justamente o grupo de 21 ilhas no Pacífico.
Segundo a organização, a intenção é conservar tanto os ecossistemas terrestres quanto a biodiversidade marinha ao redor do arquipélago.
Essa lógica ajuda a explicar uma decisão aparentemente contraditória: comprar grandes extensões de terra para evitar que elas sejam intensamente exploradas.

Projeto de Sofie começou muito antes das ilhas no Pacífico
As 21 ilhas chamam atenção pela localização, mas não representam o início do interesse da herdeira pela conservação.
Na Dinamarca, Sofie está ligada há anos à Klelund Dyrehave, uma grande área dedicada à biodiversidade.
A propriedade de Klelund foi adquirida por Sofie e Christopher Kiær Thomsen em 2005.
Em 2010, cerca de 1.415 hectares foram cercados para formar uma área de manejo com grandes animais e processos naturais.
Um estudo da Universidade de Aarhus acompanhou o local entre 2010 e 2020 e encontrou evidências de evolução positiva da biodiversidade em espécies, habitats e processos ecológicos.
A área abriga populações de cervos, corços e javalis, cujo comportamento e pastagem ajudam a modificar a vegetação de maneira mais próxima de um ecossistema natural.
Há ainda um visitante que tornou o lugar especialmente incomum para os padrões dinamarqueses: o lobo.
Documentos do município de Varde mostram que lobos se reproduziram em Klelund em 2021, 2022 e 2023, levando inclusive à criação temporária de zonas de menor perturbação humana para proteger os animais durante a reprodução.
Conservação também chegou à floresta tropical do Equador
O mapa de propriedades e projetos de Sofie continuou crescendo.
Em 2023, a Randers Regnskov anunciou uma parceria com a herdeira para ampliar a conservação de florestas no Equador.
Naquele momento, a iniciativa estava em processo de adquirir aproximadamente 6 mil hectares de floresta tropical, com objetivo de chegar a até 15 mil hectares ao longo dos três anos seguintes.
As áreas escolhidas ficam em regiões de grande diversidade biológica, incluindo zonas próximas aos Andes, à planície costeira e à floresta amazônica.
Na declaração divulgada pela própria parceria, Sofie explicou que seu envolvimento tinha origem em algo anterior às decisões de investimento.
Ela afirmou que sua vida é, em muitos aspectos, movida pelo amor pela natureza e que havia muito tempo desejava ampliar suas atividades de conservação para a floresta tropical.
A Earthkeeper também passou a reunir projetos no Quênia, voltados à conservação de áreas de savana e à redução da fragmentação dos habitats.
Na Escócia, antiga propriedade de caça entrou na mesma estratégia
Outro ponto do mapa fica nas Highlands escocesas.
A empresa Strathconon Estates integra o conjunto de iniciativas associadas a Sofie.
A própria autoridade de concorrência de Papua-Nova Guiné descreveu Strathconon como uma antiga propriedade voltada à caça posteriormente direcionada para restauração da natureza.
O projeto possui dimensões enormes.
Um levantamento publicado em 2026 sobre a concentração de terras na Escócia coloca Strathconon Estate com aproximadamente 43,5 mil hectares, entre as maiores propriedades privadas do país.
Parte do trabalho ambiental envolve restauração de turfeiras.
Um projeto apresentado às autoridades escocesas, por exemplo, prevê recuperação de áreas degradadas para elevar o nível de água, favorecer vegetação típica de zonas úmidas, estimular biodiversidade e recuperar a capacidade natural de armazenar carbono.
Fortuna da herdeira continua ligada ao império Lego
Apesar dos bilhões movimentados em projetos ambientais, Sofie continua associada à propriedade do grupo familiar.
A Forbes a classifica como proprietária de quarta geração da Lego e informa que ela, o pai e os irmãos dividem o controle familiar sobre a participação de 75% na fabricante de brinquedos.
A marca nasceu de maneira bem mais modesta.
Ole Kirk Kristiansen começou produzindo brinquedos de madeira em sua oficina na Dinamarca em 1932.
A família avançou posteriormente para os brinquedos de plástico que tornariam a Lego conhecida mundialmente.
Décadas depois, a fortuna gerada pelo negócio ajudou a colocar seus descendentes entre os maiores bilionários da Dinamarca.
No caso de Sofie, entretanto, uma parte crescente desse patrimônio passou a seguir outra direção.
Fundação foi criada para fazer os projetos sobreviverem à própria bilionária
Um detalhe ajuda a entender por que a Earthkeeper Sanctuaries assumiu a forma de uma fundação independente.
Segundo a documentação apresentada às autoridades de Papua-Nova Guiné, Sofie criou a entidade para assegurar que seus esforços filantrópicos em benefício da natureza possam continuar além de sua própria vida.
A estrutura não possui acionistas ou empresa controladora e é administrada de acordo com estatuto próprio e conselho independente.
A filosofia aparece também na declaração de fundação divulgada na Dinamarca.
Sofie descreve como objetivo imaginar um mundo no qual seres humanos reconheçam o valor próprio dos demais seres vivos, independentemente da utilidade que tenham para as pessoas.

