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Com mais de US$ 115 bilhões investidos, centenas de quilômetros de túneis e prédios planejados para substituir funções de Pequim, a Nova Área de Xiong’an, lançada por Xi Jinping como “cidade do futuro”, avança lentamente e enfrenta retorno econômico incerto

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/02/2026 às 16:40
Atualizado em 10/02/2026 às 16:43
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Créditos: The Economist
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Com mais de US$ 115 bilhões investidos, Xiong’an foi lançada pela China como cidade do futuro, mas enfrenta prédios vazios, desaceleração e retorno econômico incerto.

A Nova Área de Xiong’an foi oficialmente anunciada em 1º de abril de 2017, pelo Conselho de Estado da República Popular da China, como um projeto estratégico nacional localizado na província de Hebei, a cerca de 100 quilômetros ao sul de Pequim, abrangendo os municípios de Xiongxian, Rongcheng e Anxin. A iniciativa foi apresentada pessoalmente pelo presidente Xi Jinping como uma das decisões mais importantes de seu governo, com o objetivo de criar uma cidade-modelo capaz de aliviar a pressão urbana, administrativa e ambiental da capital chinesa. Desde então, o projeto passou a receber investimentos diretos do Estado chinês, bancos públicos e estatais de infraestrutura, acumulando cifras superiores a US$ 100 bilhões até meados da década de 2020, segundo dados divulgados por órgãos governamentais chineses, reportagens da Reuters e análises do Brookings Institution.

Desde o início, Xiong’an foi concebida não como uma cidade comum, mas como um experimento político, econômico e urbano de longo prazo. Diferentemente de zonas econômicas especiais voltadas ao mercado, como Shenzhen nos anos 1980, Xiong’an nasceu com forte controle estatal, planejamento centralizado e uma ênfase incomum em infraestrutura subterrânea, cidades inteligentes e redistribuição administrativa.

O projeto previa transferir para a nova área universidades, centros de pesquisa, empresas estatais, hospitais e até departamentos governamentais atualmente concentrados em Pequim, reduzindo congestionamentos, poluição e o custo social da megacidade.

Onde tudo começou: o território escolhido para a cidade do futuro chinesa

A região escolhida para Xiong’an não foi aleatória. Localizada na planície do norte da China, próxima ao lago Baiyangdian, a área era historicamente composta por cidades pequenas, vilarejos agrícolas e zonas alagadiças. Antes de 2017, Xiongxian e Rongcheng tinham economias modestas, baseadas principalmente em manufaturas leves, agricultura e pequenos serviços locais.

A decisão de transformar essa área em um polo urbano de escala nacional exigiu desapropriações extensas, reassentamento populacional e a reconstrução completa da paisagem urbana.

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Milhares de moradores foram realocados nos primeiros anos do projeto, com indenizações e novos conjuntos habitacionais planejados pelo governo provincial de Hebei.

Paralelamente, o lago Baiyangdian passou por um amplo programa de recuperação ambiental, com controle de poluição, dragagem e restrições industriais, já que o corpo d’água foi incorporado ao conceito urbano como elemento central do ecossistema da nova cidade.

Infraestrutura subterrânea: a cidade invisível sob Xiong’an

Um dos aspectos mais ambiciosos e menos visíveis de Xiong’an é sua infraestrutura subterrânea. Relatórios técnicos divulgados por autoridades chinesas e cobertos por veículos como a Reuters indicam que a cidade foi projetada com centenas de quilômetros de túneis destinados a abrigar redes de energia, água, telecomunicações, aquecimento urbano, esgoto e logística.

O objetivo é eliminar a necessidade de obras frequentes na superfície, reduzir falhas de serviços e criar uma cidade mais limpa e eficiente.

Esse conceito, conhecido na China como “cidade esponja inteligente integrada”, combina drenagem avançada, reutilização de água, sensores digitais e corredores subterrâneos multifuncionais.

Em algumas áreas centrais, praticamente toda a infraestrutura pesada foi enterrada antes mesmo da construção dos edifícios na superfície, elevando drasticamente os custos iniciais, mas prometendo menor manutenção ao longo de décadas.

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Além disso, Xiong’an foi planejada para operar com sistemas digitais integrados, incluindo monitoramento em tempo real de tráfego, consumo energético e gestão ambiental, alinhando-se à estratégia chinesa de cidades inteligentes sob controle estatal.

O volume de investimentos e o papel do Estado chinês

Desde 2017, o financiamento de Xiong’an ocorreu majoritariamente por meio de bancos estatais, como o China Development Bank, governos locais e empresas públicas de infraestrutura e construção.

Estimativas consolidadas por analistas internacionais apontam que os investimentos diretos e indiretos já superaram US$ 115 bilhões, considerando obras de transporte, habitação, saneamento, prédios públicos e infraestrutura subterrânea.

Diferentemente de projetos orientados ao capital privado, Xiong’an não dependeu inicialmente de demanda espontânea do mercado imobiliário.

O governo impôs controles rígidos à compra e venda de imóveis, restringindo especulação e impedindo que investidores privados inflassem preços antes da consolidação da cidade. Essa abordagem reforçou o caráter político do projeto, mas também limitou o dinamismo econômico nos primeiros anos.

Transferência de funções de Pequim: promessa ainda incompleta

Um dos pilares centrais do projeto era a transferência gradual de funções “não essenciais” de Pequim para Xiong’an. Entre elas estavam universidades, centros de pesquisa, hospitais de referência, empresas estatais e parte da burocracia administrativa.

Na prática, até meados da década de 2020, essa transferência ocorreu de forma mais lenta do que o inicialmente anunciado.

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Algumas instituições educacionais e empresas estatais abriram filiais ou sedes secundárias na nova área, mas grandes ministérios e órgãos centrais permaneceram majoritariamente em Pequim.

Analistas do Brookings Institution destacam que a relutância em mover estruturas administrativas estratégicas reflete tanto preocupações políticas quanto dúvidas sobre a atratividade real da nova cidade para profissionais altamente qualificados.

Prédios vazios e retorno econômico incerto

Imagens de satélite e reportagens internacionais publicadas entre 2022 e 2024 mostraram bairros inteiros de Xiong’an com edifícios modernos, avenidas largas e infraestrutura completa, mas com baixa ocupação. Embora autoridades chinesas rejeitem o rótulo de “cidade fantasma”, reconhecem que a ocupação populacional ainda está muito abaixo da capacidade projetada.

O plano original previa que Xiong’an pudesse abrigar milhões de habitantes ao longo de décadas. No entanto, a desaceleração do setor imobiliário chinês, a crise de grandes incorporadoras e a mudança de prioridades econômicas do governo central reduziram o ritmo de novos investimentos e atrasaram metas populacionais.

Desaceleração e reavaliação estratégica

A partir de 2023, sinais de desaceleração tornaram-se mais evidentes. O governo chinês passou a adotar uma postura mais cautelosa em relação a megaprojetos imobiliários, priorizando estabilidade financeira, inovação tecnológica e segurança econômica.

Embora Xiong’an continue oficialmente sendo um projeto estratégico, o ritmo de obras diminuiu, e o discurso passou a enfatizar desenvolvimento gradual, sustentabilidade fiscal e uso mais eficiente da infraestrutura já construída.

Reportagens da Reuters indicam que autoridades locais foram orientadas a evitar novos endividamentos excessivos e a focar na atração de atividades econômicas compatíveis com a realidade atual do país, em vez de expandir indefinidamente a construção urbana.

O significado político de Xiong’an no governo Xi Jinping

Mesmo com desafios econômicos e ocupação lenta, Xiong’an mantém enorme importância simbólica. Trata-se de um projeto diretamente associado à liderança de Xi Jinping, frequentemente citado em discursos oficiais como exemplo de planejamento de longo prazo e governança centralizada.

Abandonar ou reduzir drasticamente o projeto teria implicações políticas relevantes, o que torna improvável um cancelamento completo.

Em vez disso, especialistas apontam que Xiong’an deve se transformar em um laboratório urbano de ritmo lento, servindo mais como vitrine tecnológica, administrativa e ambiental do que como um novo polo econômico comparável a Shenzhen ou Xangai.

Um experimento urbano que ainda busca seu papel

A Nova Área de Xiong’an representa um dos mais ambiciosos experimentos urbanos do século XXI. Com investimentos bilionários, infraestrutura subterrânea de escala inédita e planejamento centralizado, a cidade simboliza a tentativa da China de redesenhar seu modelo de urbanização e governança.

Ao mesmo tempo, a baixa ocupação, o retorno econômico incerto e a desaceleração recente expõem os limites do planejamento estatal quando dissociado da dinâmica real de pessoas, empresas e mercado de trabalho.

O futuro de Xiong’an permanece em aberto. Ela pode, ao longo de décadas, consolidar-se como um centro administrativo e tecnológico estável, ou permanecer como um exemplo de como até mesmo projetos colossais enfrentam dificuldades para se materializar plenamente. O que já é certo é que Xiong’an se tornou um marco da engenharia, da política urbana e da estratégia de poder do Estado chinês no século XXI.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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