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Medindo até 2 metros e cerca de 200 kg, água-viva-de-Nomura está entre as maiores do planeta e pode ficar maior que uma pessoa; atualmente, pesquisadores procuram maneiras de transformá-la em recurso econômico

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Escrito por Ruth Rodrigues Publicado em 06/09/2026 às 22:30 Atualizado em 06/09/2026 às 22:31
A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca.
A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)
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A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca.

Uma Água-viva de Nomura (Nemopilema nomurai) pode começar a vida com dimensões próximas às de um grão de arroz e, em apenas seis meses, ultrapassar 1,8 metro de largura.

Na fase adulta, exemplares podem alcançar 2 metros de diâmetro e cerca de 200 quilos, proporções que transformam suas grandes concentrações em um problema capaz de interferir diretamente na atividade pesqueira do Leste Asiático. O impacto deixou de ser apenas uma preocupação teórica.

Segundo o The Telegraph, em 2009, um barco de pesca de aproximadamente 10 toneladas virou próximo a Chiba, na Baía de Tóquio, enquanto três tripulantes tentavam recolher uma rede carregada com dezenas desses animais. Os pescadores foram resgatados por outra embarcação.

Crescimento acelerado ajuda a criar animais de proporções excepcionais

A Água-viva de Nomura pertence ao grupo das águas-vivas rizostomáticas e está entre as espécies de maiores dimensões conhecidas. Seu tamanho adulto pode ser ligeiramente superior à altura média de uma pessoa.

A aparência, entretanto, não é uniforme. Segundo estudo publicado em 2006 na revista Marine Ecology Progress Series, exemplares capturados nas regiões de Tsushima e das Ilhas Iki apresentam corpo translúcido esbranquiçado, acompanhado por estruturas orais que podem assumir tonalidades rosadas ou avermelhadas.

Boa parte de sua capacidade de deslocamento está ligada à musculatura presente na estrutura em forma de sino. Pesquisa publicada em 2019 na revista BMC Biology identificou expressão de famílias de genes relacionadas ao músculo estriado nessa região, reforçando a importância desse tecido para a movimentação do animal.

O organismo utiliza a contração corporal para avançar pela água, característica especialmente relevante diante da enorme diferença de escala entre indivíduos jovens e adultos.

A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca.
A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

Grandes concentrações afetam redes e operações pesqueiras

A espécie ocorre principalmente nas águas localizadas entre China e Japão, com presença importante no Mar Amarelo e no Mar da China Oriental.

Durante determinadas fases do ano, mudanças nas condições da água influenciam seu deslocamento. Entre junho e julho, alterações de salinidade estão associadas à passagem de indivíduos em desenvolvimento pelo Estreito de Tsushima.

O problema para a pesca surge quando as populações aumentam intensamente. Redes destinadas a peixes podem acabar recebendo grandes quantidades de medusas, acrescentando peso e dificultando o trabalho das embarcações.

Grandes proliferações da água-viva-de-Nomura eram historicamente raras, com episódios expressivos registrados em 1920, 1958 e 1995, mas passaram a ocorrer com muito mais frequência no início do século XXI.

Conforme estudo publicado na revista científica Marine Ecology Progress Series, explosões populacionais de Nemopilema nomurai ocorreram no Mar do Japão em 2002 e 2003, provocando graves prejuízos à atividade pesqueira e marcando a primeira ocorrência conhecida de abundâncias dessa magnitude em dois anos consecutivos.

O fenômeno voltou a ganhar proporções excepcionais em 2005. Segundo estudo publicado em 2008 na revista Plankton and Benthos Research, aquela proliferação pode ter sido a maior registrada até então.

Durante o verão, estimativas indicaram que entre 300 milhões e 500 milhões de águas-vivas-de-Nomura atravessavam diariamente o Estreito de Tsushima, enquanto mais de 100 mil reclamações de pescadores comerciais foram registradas.

O mesmo estudo aponta que, ao longo da costa japonesa, os impactos sobre as pescarias atingiram seu estágio mais grave e disseminado no fim de outubro, antes de diminuírem gradualmente com a aproximação do inverno.

Mudanças ambientais estão entre as hipóteses para as proliferações

Não existe uma única causa estabelecida para explicar o aumento das populações de Nemopilema nomurai observado em determinados períodos.

Entre as possibilidades investigadas aparecem mudanças climáticas, sobrepesca e transformações na zona costeira. Modificações realizadas próximo ao litoral podem acrescentar superfícies adequadas para a fixação dos pólipos, estágio no qual ocorre reprodução assexuada.

Entre 1989 e 2009, os surtos populacionais aparentaram aumentar em frequência. A alimentação da espécie também varia conforme o desenvolvimento.

O zooplâncton constitui uma importante fonte de alimento durante seu ciclo de vida, enquanto indivíduos maiores conseguem consumir presas de dimensões superiores.

Entre seus predadores conhecidos estão atuns, peixes-espada, peixes-lua, tartarugas-de-couro e seres humanos.

A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca.
A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca. Fonte: iNaturalist United Kingdom.

Veneno pode provocar desde dor até danos musculares

O tamanho não é o único fator de risco relacionado à Água-viva de Nomura. O contato com seus nematocistos pode provocar envenenamento.

Entre os sintomas registrados estão coceira, inchaço, dor intensa, vermelhidão local e inflamação. Casos graves podem evoluir para consequências muito mais sérias, inclusive morte.

As pesquisas mostram que o veneno é formado por uma mistura complexa de proteínas. Entre os componentes identificados estão metaloproteinases e fosfolipases A2, além de substâncias relacionadas à atividade hemolítica.

Estudos experimentais também observaram miotoxicidade, edema da pele e, em determinadas circunstâncias, necrose do tecido muscular. Experimentos com batimastat e EDTA indicaram capacidade de inibir parte desses efeitos associados às metaloproteinases.

Ainda não foi estabelecida, porém, uma correspondência completa entre cada componente do veneno e os diferentes sintomas provocados em pessoas atingidas.

Cientistas investigam se o problema pode virar matéria-prima

A quantidade de animais encontrada durante grandes proliferações estimulou uma linha diferente de pesquisa: em vez de apenas retirar as medusas do ambiente, pesquisadores passaram a procurar maneiras de transformá-las em recurso econômico.

Uma das possibilidades envolve justamente o veneno. Experimentos com células HepG2 verificaram que substâncias obtidas de Nemopilema nomurai conseguiram inibir a transição epitélio-mesenquimal em condições laboratoriais.

Esse processo celular está relacionado a etapas iniciais da metástase, mas os resultados permanecem no campo experimental e não significam que o veneno esteja estabelecido como tratamento contra o câncer.

Outra proposta patenteada envolve a mucina obtida da espécie para possíveis aplicações relacionadas à osteoartrite. Nesse caso, também faltam dados clínicos que comprovem uma utilização terapêutica.

Água-viva já foi usada até na produção de sorvete

As tentativas de aproveitamento não se restringem à pesquisa médica. A empresa japonesa Tango Jersey Dairy já utilizou a Água-viva de Nomura na fabricação de um sorvete de baunilha com água-viva.

A espécie é comestível, embora não seja considerada um produto de alta qualidade gastronômica. O consumo exige cuidados porque partes tóxicas precisam ser adequadamente removidas e o animal deve passar pelo preparo correto.

Há também pesquisas voltadas ao uso do organismo na agricultura. Um estudo analisou extrato aquoso de metanol produzido a partir de medusas secas para verificar sua capacidade de reduzir o crescimento de mudas de plantas consideradas ervas daninhas.

Outra possibilidade é simplesmente utilizar a biomassa coletada como fertilizante, convertendo grandes quantidades de animais retirados do ambiente em material aproveitável.

A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca.
A Água-viva de Nomura pode atingir 2 metros e 200 kg, formar grandes proliferações no Leste Asiático e causar prejuízos à pesca. (Imagem meramente ilustrativa gerada por IA)

Nome da espécie surgiu de um exemplar enviado para estudo em 1921

A história científica da espécie também envolve uma descoberta feita a partir de material enviado por uma estação de pesca japonesa.

No início de dezembro de 1921, Kan’ichi Nomura, diretor-geral da Estação Experimental de Pesca da Prefeitura de Fukui, enviou ao professor Kishinouye um exemplar vivo mantido em um tanque de madeira de 72 litros.

O pesquisador percebeu que se tratava de uma espécie até então desconhecida e dedicou-se ao estudo do animal.

O nome de Nomura acabou incorporado à identificação pela qual a medusa se tornou conhecida. Atualmente, Nemopilema nomurai é a única espécie reconhecida em seu gênero.

Água-viva de Nomura combina tamanho extremo e impacto econômico

Poucos animais marinhos mostram de maneira tão evidente como crescimento individual e explosões populacionais podem se somar para criar um problema econômico.

Uma única Água-viva de Nomura pode alcançar centenas de quilos. Quando dezenas desses animais entram simultaneamente em uma rede de pesca, o peso deixa de ser apenas uma curiosidade biológica e passa a interferir diretamente na operação das embarcações.

Ao mesmo tempo, a própria abundância que causa prejuízos vem levando pesquisadores a testar aplicações para aquilo que antes era tratado somente como descarte. Veneno, mucina, biomassa e até alimentos já entraram nessa busca.

A espécie permanece, assim, em uma posição incomum: é ao mesmo tempo um dos gigantes dos mares do Leste Asiático, uma ameaça recorrente à pesca em períodos de proliferação e uma fonte de materiais que a ciência ainda tenta compreender e aproveitar.

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Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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