Cingapura cobriu 45 hectares do reservatório de Tengeh, no distrito industrial de Tuas, com 122 mil painéis solares flutuantes interligados sobre dez ilhas fotovoltaicas para tentar reduzir a dependência crônica de gás natural importado que sufoca a ilha-Estado há seis décadas. Conforme a operadora Sembcorp Industries, o complexo entrou em operação plena com capacidade instalada de 60 megawatts-pico, suficiente para abastecer cerca de 16 mil residências e bombear água tratada para a vizinhança do maior porto automatizado da Ásia, segundo dados publicados pela PUB, a agência nacional de águas de Cingapura.
O projeto faz parte de uma estratégia oficial mais ampla da cidade-Estado para gerar pelo menos 2 gigawatts-pico de energia solar até 2030, uma meta ousada considerando que Cingapura tem apenas 730 quilômetros quadrados de área total e quase nenhuma terra livre disponível para painéis tradicionais em solo. Lançar a infraestrutura sobre a água virou a única saída viável, e Tengeh se tornou o primeiro grande laboratório de escala industrial dessa abordagem.
Em paralelo, a Sembcorp opera uma segunda instalação solar em Tuas, sobre 10 hectares de terreno vacante temporário, com 33.580 painéis adicionais e capacidade de 17,6 megawatts-pico. Os dois sistemas, somados, ultrapassam os 77 megawatts-pico contínuos no mesmo distrito industrial, alimentando diretamente parte das operações de logística automatizada do Porto de Tuas, considerado o maior projeto portuário do mundo concluído nos últimos cinco anos.
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Por que cobrir um reservatório com painéis se tornou a única saída de Cingapura
A ilha-Estado depende historicamente de gás natural importado da Malásia e da Indonésia para gerar 95% da sua eletricidade, vulnerabilidade que ficou exposta em vários episódios de queda de preço internacional e em tensões diplomáticas regionais. Reduzir essa dependência sempre esteve no centro da agenda do governo de Lee Hsien Loong e segue como prioridade absoluta do gabinete atual do primeiro-ministro Lawrence Wong.
O problema é geográfico. Cingapura tem 5,9 milhões de habitantes vivendo em uma das densidades populacionais mais altas do mundo, com edifícios residenciais e comerciais ocupando praticamente todo o espaço útil disponível. Sobra muito pouco solo livre para projetos solares em escala, e as opções restantes são telhados de prédios, fachadas comerciais e a superfície dos reservatórios de água potável.
Cobrir reservatórios resolve dois problemas simultaneamente. De um lado, libera energia limpa em volume relevante. De outro, reduz a evaporação da água tratada em cerca de 25%, conforme estudos preliminares da PUB, ajudando a aliviar a pressão sobre a importação de água da Malásia, que segue regulada por tratado internacional em vigor até 2061.
Como funcionam os 122 mil painéis flutuantes sobre dez ilhas no Tengeh
O design técnico foi desenvolvido em parceria entre engenheiros da Sembcorp Industries e da agência alemã de pesquisa fotovoltaica, com flutuadores de polietileno de alta densidade ancorados ao fundo do reservatório por cabos resistentes a ciclos de marés artificiais. Cada uma das dez ilhas reúne aproximadamente 12 mil painéis, conectados por inversores marinizados, à prova de umidade e calor extremo.
A estrutura precisou ser projetada para resistir a ventos de monção de até 110 quilômetros por hora, comuns no sudeste asiático entre novembro e janeiro, e a chuvas torrenciais capazes de despejar 100 milímetros em poucas horas. O cabeamento submarino que liga as ilhas à subestação terrestre opera em corrente alternada de 22 quilovolts e foi enterrado em valas no fundo do reservatório para evitar interferência com a captação de água.

Conforme dados oficiais do portal da Sembcorp dedicado à energia solar flutuante, o complexo gera energia equivalente à plantação anual de 150 mil árvores nativas e evita a emissão de 32 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, valor calculado pelo cruzamento da geração elétrica com o fator de emissão médio da matriz energética cingapuriana.
O porto automatizado de Tuas que consome metade dessa nova energia
O Porto de Tuas é o megaprojeto portuário mais ambicioso do mundo entregue na última década, construído em fases iniciadas em 2015 e com previsão de conclusão total em 2040. Quando totalmente operacional, vai movimentar 65 milhões de contêineres por ano, mais do que o dobro da capacidade combinada de todos os portos brasileiros somados, e vai concentrar 100% da movimentação de contêineres da cidade-Estado.
O terminal é totalmente automatizado, com guindastes-pórtico operados remotamente por algoritmos de inteligência artificial, veículos autônomos elétricos de transporte de contêineres e fileiras de empilhadeiras robóticas que dispensam operadores humanos no pátio. Parte significativa dessa energia elétrica vem agora dos painéis solares de Tengeh e de outras instalações solares menores ao redor do distrito industrial.
De acordo com o EDB, agência nacional de desenvolvimento econômico de Cingapura, o investimento total no Porto de Tuas ultrapassará 20 bilhões de dólares ao longo dos 25 anos de execução. A integração com energia limpa local virou requisito de projeto a partir de 2022, quando o governo formalizou metas obrigatórias de neutralidade de carbono para infraestrutura crítica.

A meta de 2 gigawatts até 2030 e o que ainda falta construir
A trajetória solar de Cingapura saltou de pouco mais de 200 megawatts-pico instalados em 2020 para aproximadamente 750 megawatts-pico em 2024, e o governo mantém a meta oficial de chegar a 2.000 megawatts-pico em 2030. Para fechar essa lacuna, o país precisa adicionar pelo menos 250 megawatts-pico por ano nos próximos seis anos, ritmo que exige escala industrial.
O Plano Nacional de Energia 2026, divulgado pela autoridade reguladora EMA no início deste ano, prevê expansão acelerada do modelo flutuante para outros reservatórios e estudos avançados para painéis em fachadas de prédios comerciais. Também há projetos em fase de avaliação para importar energia solar do interior da Austrália e da Indonésia via cabos submarinos de alta tensão.
Pesquisadores descobrem que quanto mais áreas de superfície hídrica Cingapura cobre com painéis, mais a temperatura média da própria água cai em alguns décimos de grau, reduzindo proliferação de algas e melhorando a qualidade da água tratada. Esse efeito colateral inesperado virou linha de estudo independente em parceria com universidades suíças.
Por que o Brasil acompanha de perto o modelo cingapuriano
O Brasil tem dezenas de reservatórios hidrelétricos com potencial para receber projetos similares, e empresas como a Eletrobras, Cemig e Light já estudaram propostas piloto inspiradas em Tengeh. Em particular, a usina hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, e o reservatório de Furnas, em Minas Gerais, aparecem nas avaliações preliminares de projetos para a próxima década.
O ANEEL chegou a publicar nota técnica em 2024 reconhecendo a tecnologia de solar flutuante como elegível para leilões de energia renovável a partir de 2026, abrindo caminho jurídico para que projetos brasileiros sigam o modelo asiático. Empresas chinesas e europeias já fizeram propostas para participar dos primeiros leilões dessa categoria no país.
Conforme outras descobertas sobre megaprojetos de infraestrutura e transição energética aparecem com frequência em nossas editorias de Curiosidades e Ciência, conectando avanços globais a oportunidades brasileiras na transição energética em curso.

O que pode dar errado na expansão dos próximos anos
Especialistas ouvidos por publicações setoriais alertam que a expansão acelerada do modelo flutuante traz riscos ambientais ainda mal mapeados. A redução de luz solar que atinge a coluna de água pode alterar populações de microalgas e peixes, com impacto não totalmente previsto sobre ecossistemas internos de reservatórios.
Por outro lado, o resultado já comprovado em Tengeh, mantido por mais de quatro anos sem incidentes ambientais graves, dá confiança ao governo cingapuriano para seguir adiante. A próxima fase prevê painéis flutuantes em mar aberto, em águas territoriais cingapurianas, com tecnologia desenvolvida em parceria com empresas norueguesas especializadas em estruturas offshore.
Cabe destacar que o caso de Cingapura segue como referência mundial para países pequenos, densamente povoados e dependentes de combustíveis fósseis importados. A combinação de meta clara, financiamento estatal, parceria com a iniciativa privada e tecnologia adaptada à geografia local virou modelo replicado em estudo por dezenas de cidades-Estado e por agências de meio ambiente em todos os continentes.
