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Cingapura cobriu 45 hectares do reservatório de Tengeh em Tuas com 122 mil painéis solares flutuantes para tentar reduzir a dependência crônica de gás natural importado que sufoca a ilha-Estado há 60 anos, e o resultado já gera 60 megawatts em corrente contínua suficiente para abastecer 16 mil residências e alimenta parte do maior porto automatizado da Ásia

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 18/05/2026 às 11:00
Atualizado em 18/05/2026 às 11:02
Vista aérea da fazenda solar flutuante de Tengeh em Tuas, Cingapura, com 122 mil painéis
Vista aérea da fazenda solar flutuante de Tengeh em Tuas, Cingapura, com 122 mil painéis
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Cingapura cobriu 45 hectares do reservatório de Tengeh, no distrito industrial de Tuas, com 122 mil painéis solares flutuantes interligados sobre dez ilhas fotovoltaicas para tentar reduzir a dependência crônica de gás natural importado que sufoca a ilha-Estado há seis décadas. Conforme a operadora Sembcorp Industries, o complexo entrou em operação plena com capacidade instalada de 60 megawatts-pico, suficiente para abastecer cerca de 16 mil residências e bombear água tratada para a vizinhança do maior porto automatizado da Ásia, segundo dados publicados pela PUB, a agência nacional de águas de Cingapura.

O projeto faz parte de uma estratégia oficial mais ampla da cidade-Estado para gerar pelo menos 2 gigawatts-pico de energia solar até 2030, uma meta ousada considerando que Cingapura tem apenas 730 quilômetros quadrados de área total e quase nenhuma terra livre disponível para painéis tradicionais em solo. Lançar a infraestrutura sobre a água virou a única saída viável, e Tengeh se tornou o primeiro grande laboratório de escala industrial dessa abordagem.

Em paralelo, a Sembcorp opera uma segunda instalação solar em Tuas, sobre 10 hectares de terreno vacante temporário, com 33.580 painéis adicionais e capacidade de 17,6 megawatts-pico. Os dois sistemas, somados, ultrapassam os 77 megawatts-pico contínuos no mesmo distrito industrial, alimentando diretamente parte das operações de logística automatizada do Porto de Tuas, considerado o maior projeto portuário do mundo concluído nos últimos cinco anos.

Painéis solares flutuantes ancorados ao reservatório de Tengeh por flutuadores de polietileno
Painéis solares flutuantes ancorados ao reservatório de Tengeh por flutuadores de polietileno

Por que cobrir um reservatório com painéis se tornou a única saída de Cingapura

A ilha-Estado depende historicamente de gás natural importado da Malásia e da Indonésia para gerar 95% da sua eletricidade, vulnerabilidade que ficou exposta em vários episódios de queda de preço internacional e em tensões diplomáticas regionais. Reduzir essa dependência sempre esteve no centro da agenda do governo de Lee Hsien Loong e segue como prioridade absoluta do gabinete atual do primeiro-ministro Lawrence Wong.

O problema é geográfico. Cingapura tem 5,9 milhões de habitantes vivendo em uma das densidades populacionais mais altas do mundo, com edifícios residenciais e comerciais ocupando praticamente todo o espaço útil disponível. Sobra muito pouco solo livre para projetos solares em escala, e as opções restantes são telhados de prédios, fachadas comerciais e a superfície dos reservatórios de água potável.

Cobrir reservatórios resolve dois problemas simultaneamente. De um lado, libera energia limpa em volume relevante. De outro, reduz a evaporação da água tratada em cerca de 25%, conforme estudos preliminares da PUB, ajudando a aliviar a pressão sobre a importação de água da Malásia, que segue regulada por tratado internacional em vigor até 2061.

Como funcionam os 122 mil painéis flutuantes sobre dez ilhas no Tengeh

O design técnico foi desenvolvido em parceria entre engenheiros da Sembcorp Industries e da agência alemã de pesquisa fotovoltaica, com flutuadores de polietileno de alta densidade ancorados ao fundo do reservatório por cabos resistentes a ciclos de marés artificiais. Cada uma das dez ilhas reúne aproximadamente 12 mil painéis, conectados por inversores marinizados, à prova de umidade e calor extremo.

A estrutura precisou ser projetada para resistir a ventos de monção de até 110 quilômetros por hora, comuns no sudeste asiático entre novembro e janeiro, e a chuvas torrenciais capazes de despejar 100 milímetros em poucas horas. O cabeamento submarino que liga as ilhas à subestação terrestre opera em corrente alternada de 22 quilovolts e foi enterrado em valas no fundo do reservatório para evitar interferência com a captação de água.

Porto automatizado de Tuas, megaprojeto portuário que consome parte da energia solar do reservatório
Porto automatizado de Tuas, megaprojeto portuário que consome parte da energia solar do reservatório

Conforme dados oficiais do portal da Sembcorp dedicado à energia solar flutuante, o complexo gera energia equivalente à plantação anual de 150 mil árvores nativas e evita a emissão de 32 mil toneladas de dióxido de carbono por ano, valor calculado pelo cruzamento da geração elétrica com o fator de emissão médio da matriz energética cingapuriana.

O porto automatizado de Tuas que consome metade dessa nova energia

O Porto de Tuas é o megaprojeto portuário mais ambicioso do mundo entregue na última década, construído em fases iniciadas em 2015 e com previsão de conclusão total em 2040. Quando totalmente operacional, vai movimentar 65 milhões de contêineres por ano, mais do que o dobro da capacidade combinada de todos os portos brasileiros somados, e vai concentrar 100% da movimentação de contêineres da cidade-Estado.

O terminal é totalmente automatizado, com guindastes-pórtico operados remotamente por algoritmos de inteligência artificial, veículos autônomos elétricos de transporte de contêineres e fileiras de empilhadeiras robóticas que dispensam operadores humanos no pátio. Parte significativa dessa energia elétrica vem agora dos painéis solares de Tengeh e de outras instalações solares menores ao redor do distrito industrial.

De acordo com o EDB, agência nacional de desenvolvimento econômico de Cingapura, o investimento total no Porto de Tuas ultrapassará 20 bilhões de dólares ao longo dos 25 anos de execução. A integração com energia limpa local virou requisito de projeto a partir de 2022, quando o governo formalizou metas obrigatórias de neutralidade de carbono para infraestrutura crítica.

Engenheiros da Sembcorp inspecionam plataforma de manutenção da fazenda solar flutuante
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A meta de 2 gigawatts até 2030 e o que ainda falta construir

A trajetória solar de Cingapura saltou de pouco mais de 200 megawatts-pico instalados em 2020 para aproximadamente 750 megawatts-pico em 2024, e o governo mantém a meta oficial de chegar a 2.000 megawatts-pico em 2030. Para fechar essa lacuna, o país precisa adicionar pelo menos 250 megawatts-pico por ano nos próximos seis anos, ritmo que exige escala industrial.

O Plano Nacional de Energia 2026, divulgado pela autoridade reguladora EMA no início deste ano, prevê expansão acelerada do modelo flutuante para outros reservatórios e estudos avançados para painéis em fachadas de prédios comerciais. Também há projetos em fase de avaliação para importar energia solar do interior da Austrália e da Indonésia via cabos submarinos de alta tensão.

Pesquisadores descobrem que quanto mais áreas de superfície hídrica Cingapura cobre com painéis, mais a temperatura média da própria água cai em alguns décimos de grau, reduzindo proliferação de algas e melhorando a qualidade da água tratada. Esse efeito colateral inesperado virou linha de estudo independente em parceria com universidades suíças.

Por que o Brasil acompanha de perto o modelo cingapuriano

O Brasil tem dezenas de reservatórios hidrelétricos com potencial para receber projetos similares, e empresas como a Eletrobras, Cemig e Light já estudaram propostas piloto inspiradas em Tengeh. Em particular, a usina hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, e o reservatório de Furnas, em Minas Gerais, aparecem nas avaliações preliminares de projetos para a próxima década.

O ANEEL chegou a publicar nota técnica em 2024 reconhecendo a tecnologia de solar flutuante como elegível para leilões de energia renovável a partir de 2026, abrindo caminho jurídico para que projetos brasileiros sigam o modelo asiático. Empresas chinesas e europeias já fizeram propostas para participar dos primeiros leilões dessa categoria no país.

Conforme outras descobertas sobre megaprojetos de infraestrutura e transição energética aparecem com frequência em nossas editorias de Curiosidades e Ciência, conectando avanços globais a oportunidades brasileiras na transição energética em curso.

Navio metaneiro chega a terminal cingapuriano, fonte de gás natural que o país quer substituir
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O que pode dar errado na expansão dos próximos anos

Especialistas ouvidos por publicações setoriais alertam que a expansão acelerada do modelo flutuante traz riscos ambientais ainda mal mapeados. A redução de luz solar que atinge a coluna de água pode alterar populações de microalgas e peixes, com impacto não totalmente previsto sobre ecossistemas internos de reservatórios.

Por outro lado, o resultado já comprovado em Tengeh, mantido por mais de quatro anos sem incidentes ambientais graves, dá confiança ao governo cingapuriano para seguir adiante. A próxima fase prevê painéis flutuantes em mar aberto, em águas territoriais cingapurianas, com tecnologia desenvolvida em parceria com empresas norueguesas especializadas em estruturas offshore.

Cabe destacar que o caso de Cingapura segue como referência mundial para países pequenos, densamente povoados e dependentes de combustíveis fósseis importados. A combinação de meta clara, financiamento estatal, parceria com a iniciativa privada e tecnologia adaptada à geografia local virou modelo replicado em estudo por dezenas de cidades-Estado e por agências de meio ambiente em todos os continentes.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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