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Cientistas modificam DNA no corpo humano pela primeira vez com prime editing e tentam corrigir doença genética que ataca o fígado

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Escrito por Ana Alice Publicado em 24/10/2026 às 21:03 Atualizado em 24/10/2026 às 22:10
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Cientistas usam prime editing no corpo humano pela primeira vez para tentar corrigir mutação genética que causa doença de Wilson no fígado. - Imagem: Ilustrativa via I.A
Cientistas usam prime editing no corpo humano pela primeira vez para tentar corrigir mutação genética que causa doença de Wilson no fígado. – Imagem: Ilustrativa via I.A
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Técnica de edição genética foi aplicada diretamente no organismo de um paciente com doença de Wilson e tenta corrigir uma mutação no fígado sem retirar células para modificá-las em laboratório.

Segundo a revista científica Nature, o procedimento representa o primeiro uso conhecido de prime editing diretamente dentro do corpo humano, em um teste que tenta corrigir uma mutação ligada à doença de Wilson.

O tratamento experimental foi administrado a um paciente no início de outubro de 2026 e direciona a edição para células do fígado, onde o defeito genético provoca acúmulo tóxico de cobre.

O marco faz parte de um ensaio clínico global de fase 1/2 conduzido pela empresa norte-americana Prime Medicine.

O candidato terapêutico, chamado PM577a, foi desenvolvido para corrigir a mutação H1069Q no gene ATP7B, uma das variantes mais frequentes associadas à doença de Wilson na América do Norte e na Europa.

O ineditismo não está no uso de qualquer forma de edição genética dentro do corpo humano, já que outras tecnologias derivadas de CRISPR chegaram anteriormente a testes in vivo.

O avanço específico é o prime editing realizado diretamente no organismo, sem retirar células do paciente para modificá-las em laboratório antes de devolvê-las ao corpo.

Prime editing reescreve trechos específicos do DNA

A tecnologia é considerada uma evolução das ferramentas baseadas em CRISPR porque permite realizar alterações mais específicas no DNA sem depender do corte simultâneo das duas fitas da molécula, mecanismo associado ao CRISPR-Cas9 convencional.

O prime editing foi apresentado originalmente em 2019 por pesquisadores liderados por David Liu, do Broad Institute de Harvard e MIT.

O método combina uma versão modificada da proteína Cas9 com uma enzima chamada transcriptase reversa e uma molécula de RNA-guia especializada, conhecida como pegRNA.

Na prática, esse sistema funciona de maneira semelhante a uma ferramenta molecular de busca e substituição.

A proteína localiza a região desejada do genoma, faz um corte controlado em apenas uma das fitas do DNA e utiliza a informação carregada pelo RNA-guia para escrever a nova sequência naquele local.

Essa arquitetura permite realizar substituições de bases, pequenas inserções e deleções sem provocar necessariamente uma ruptura completa da dupla hélice.

Quando a técnica foi apresentada em 2019, experimentos em células humanas mostraram que ela poderia, em princípio, corrigir grande parte das variantes genéticas conhecidas associadas a doenças.

Esse potencial, porém, não significava que a tecnologia já estivesse pronta para uso clínico.

Sete anos depois, o tratamento de um paciente com doença de Wilson representa a primeira tentativa conhecida de levar esse sistema de reescrita diretamente para dentro do organismo humano.

Representação do prime editing, técnica de edição genética que combina uma Cas9 modificada, transcriptase reversa e RNA-guia para reescrever trechos específicos do DNA. Crédito: Susanna M. Hamilton/Broad Institute Communications.

Tratamento tenta corrigir falha no gene ATP7B

A doença de Wilson é uma condição genética rara causada por alterações no gene ATP7B, responsável pela produção de uma proteína fundamental para o transporte do cobre.

Em pessoas sem a doença, o fígado elimina parte do excesso desse metal por meio da bile.

Quando o ATP7B não funciona adequadamente, o cobre começa a se acumular principalmente no fígado e, posteriormente, pode atingir cérebro, olhos, rins e outros órgãos.

Sem tratamento, níveis elevados podem provocar danos graves e potencialmente fatais.

A mutação escolhida para o primeiro programa clínico é conhecida como H1069Q.

Ela altera uma posição específica do ATP7B e está entre as variantes causadoras da doença mais frequentes nos Estados Unidos e na Europa.

O PM577a foi desenvolvido para reescrever justamente essa alteração genética.

Em vez de apenas tentar controlar as consequências do acúmulo de cobre, a proposta é fazer com que células do fígado voltem a produzir uma versão funcional da proteína ATP7B.

Se funcionar como planejado, essas células poderiam recuperar parte da capacidade de transportar o cobre e eliminá-lo pela bile.

O tratamento, entretanto, ainda está no início da avaliação em seres humanos e não existe até agora evidência clínica publicada de que o primeiro paciente tenha sido curado ou apresentado melhora.

A Prime Medicine prevê divulgar os primeiros dados do estudo em 2027.

Nanopartículas levam o editor genético até o fígado

Outro componente importante do experimento é a forma utilizada para transportar a ferramenta de edição até as células.

O PM577a é formulado em nanopartículas lipídicas direcionadas ao fígado e administrado por uma única infusão intravenosa.

Dentro dessas partículas segue o material necessário para que as células produzam temporariamente o editor e realizem a alteração planejada no DNA.

O objetivo é atingir principalmente os hepatócitos, células que realizam grande parte das funções metabólicas do fígado e nas quais o ATP7B exerce papel central na eliminação do cobre.

Depois da entrega, a maquinaria de edição não precisa permanecer permanentemente ativa.

A intenção é que o sistema faça a correção genética e desapareça, enquanto a alteração produzida no DNA permaneça nas células editadas.

Essa abordagem diferencia o tratamento de terapias que dependem da retirada de células do paciente.

No modelo conhecido como ex vivo, células são coletadas, geneticamente modificadas em laboratório, submetidas a controles e depois reinfundidas.

O Casgevy, primeira terapia baseada em CRISPR aprovada por autoridades regulatórias para doenças hereditárias do sangue, utiliza esse tipo de estratégia.

No caso do PM577a, todo o processo de edição ocorre in vivo, dentro do próprio organismo.

Isso pode simplificar tratamentos para determinados órgãos, mas também cria desafios adicionais.

Uma vez que o material é administrado no paciente, os pesquisadores precisam controlar onde as partículas chegam, quantas células são editadas, por quanto tempo os componentes permanecem ativos e se ocorrem mudanças não planejadas em outras regiões do genoma.

Estudos em animais abriram caminho para teste em humanos

Antes de chegar ao primeiro participante, a Prime Medicine realizou estudos pré-clínicos com modelos animais.

Em camundongos modificados para carregar a mutação humana H1069Q, a companhia relatou níveis elevados de correção dos hepatócitos e redução do acúmulo de cobre no fígado.

Experimentos com primatas não humanos também demonstraram edição de células hepáticas utilizando versões do sistema transportadas por nanopartículas lipídicas.

Esses resultados serviram de base para o avanço do programa clínico, mas não garantem que a mesma eficácia ou segurança será reproduzida em pessoas.

Em junho de 2026, a autoridade sanitária da Nova Zelândia autorizou o início do estudo.

No mês seguinte, a agência reguladora dos Estados Unidos também liberou a investigação clínica do PM577a.

A Prime Medicine anunciou em 5 de outubro de 2026 que o primeiro paciente havia recebido a terapia.

O estudo recebeu o identificador NCT07748403 e foi desenhado como um ensaio aberto de fase 1/2 com doses crescentes.

A primeira etapa envolve adultos com doença de Wilson clinicamente estáveis sob o tratamento convencional.

Posteriormente, o protocolo também prevê participação de adolescentes.

Segurança vem antes de qualquer conclusão sobre cura

Nesta fase, a prioridade é verificar segurança, tolerabilidade e atividade biológica inicial.

Entre as medições previstas estão exames de cobre na urina durante 24 horas, níveis de ceruloplasmina, cobre não ligado à ceruloplasmina e avaliações do transporte de cobre por exames de imagem com cobre-64.

O protocolo também pode utilizar biópsias para analisar cobre hepático e acompanhar se pacientes conseguem, futuramente e sob supervisão do estudo, reduzir tratamentos convencionais.

Atualmente, pacientes com doença de Wilson podem usar medicamentos quelantes, que ajudam a retirar cobre do organismo, ou sais de zinco, que diminuem sua absorção.

Esses tratamentos geralmente precisam ser mantidos durante toda a vida.

Nos casos em que a doença provoca insuficiência hepática grave, o transplante de fígado pode ser necessário.

É justamente essa necessidade de tratamento contínuo que torna a edição do ATP7B particularmente relevante como hipótese terapêutica.

A ideia é tentar transformar uma condição controlada diariamente por medicamentos em uma doença cuja causa genética poderia ser corrigida por uma única intervenção.

Ainda assim, o ensaio atual não permite afirmar que esse objetivo será alcançado.

Um dos principais pontos será descobrir qual porcentagem de células do fígado precisa ser corrigida para restaurar o metabolismo do cobre de maneira suficiente e duradoura.

Os pesquisadores também terão de acompanhar possíveis alterações fora do alvo, efeitos inflamatórios relacionados às nanopartículas e eventuais consequências inesperadas da edição.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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