Peixe sem olhos descoberto em uma caverna do Alabama mede menos de 5 centímetros, possui diferenças genéticas profundas e recebeu um gênero exclusivo.
Um peixe de aparência quase translúcida, sem olhos funcionais e com menos de 5 centímetros de comprimento obrigou cientistas norte-americanos a criar uma nova categoria para classificá-lo. Encontrado em uma caverna do Alabama, o animal apresentou diferenças anatômicas e genéticas tão expressivas que não foi incluído apenas como espécie inédita: tornou-se também o único integrante conhecido de um novo gênero.
Batizado de Demogorgonichthys arcanus, o organismo foi descrito em um estudo publicado em 6 de julho na revista Scientific Reports. A descoberta ocorreu em fevereiro de 2025 na Caverna Bobcat, localizada dentro do Arsenal de Redstone, na cidade de Huntsville, após aproximadamente 40 anos de investigações no ambiente subterrâneo.

Peixe permaneceu fora do alcance dos pesquisadores por décadas
A longa duração das buscas torna o encontro particularmente incomum. Durante anos, especialistas examinaram a fauna da caverna sem reconhecer qualquer exemplar que apresentasse o conjunto de características observado em 2025.
-
Por que as aves voam em formação de “V”? Estudo revela mecanismo que permite reduzir em até 11% o gasto de energia durante o voo
-
Lenovo surge com mini PC de apenas 0,8 litro equipado com AMD Ryzen 5 de 6 núcleos, 16 GB de RAM, SSD de 512 GB, expansão para dois SSDs e recursos que surpreendem pelo tamanho compacto
-
Duas estrelas do mesmo sistema podem ter explodido como supernovas em épocas diferentes e deixado remanescentes “lado a lado”, aponta estudo publicado na Nature
-
Uma peça menor que a palma da mão eliminou 19 soldas no motor de avião, reuniu 20 componentes em um único bloco e passou a ser fabricada 600 vezes por semana com impressão 3D
Jonathan Armbruster, professor do Departamento de Ciências Biológicas e curador da coleção de peixes do Museu de História Natural da Universidade de Auburn, inicialmente comparou o animal com espécies já conhecidas da região. Sua experiência com organismos subterrâneos permitiu perceber rapidamente que não se tratava apenas de uma variação de aparência.
A equipe considera que o peixe pode permanecer a maior parte do tempo em regiões profundas do aquífero, onde a presença humana é limitada. Outra possibilidade é que a população já ocupasse áreas acessíveis, mas em quantidade tão pequena que passou despercebida durante as inspeções anteriores.
Novo peixe apresentou focinho e corpo fora do padrão conhecido
A ausência de olhos não foi o único elemento usado na identificação. O formato corporal, a estrutura do focinho e a pigmentação extremamente clara separaram o animal dos chamados peixes-das-cavernas-do-sul analisados anteriormente.
Esses detalhes externos foram estudados em conjunto com a anatomia interna. Os pesquisadores recorreram à tomografia computadorizada para visualizar o esqueleto e comparar ossos, proporções e outras estruturas sem destruir os exemplares.
Os resultados confirmaram que o novo peixe possuía uma combinação própria de características. A distância em relação aos parentes conhecidos foi suficiente para justificar a criação do gênero Demogorgonichthys, ao qual pertence exclusivamente a espécie D. arcanus.

Peixe perdeu parte de gene associado à percepção de luz
A investigação genética encontrou uma alteração importante no gene da rodopsina, relacionado à sensibilidade luminosa. Parte desse gene não está presente no animal, o que indica que sua função deixou de operar normalmente.
Em outros peixes subterrâneos da região, ainda é possível detectar algum tipo de reação quando ocorre mudança na iluminação. No novo organismo, os pesquisadores não observaram comportamento semelhante, reforçando a hipótese de adaptação a um espaço praticamente sem luz.
A descoberta sugere que a permanência prolongada no ambiente subterrâneo modificou não apenas a aparência do animal, mas também mecanismos biológicos ligados à visão. A perda de estruturas sem utilidade naquele habitat pode ter ocorrido ao longo de muitas gerações.

População conhecida pode ter menos de duas dezenas de exemplares
Mesmo depois da identificação, os cientistas nunca visualizaram simultaneamente mais de aproximadamente 20 indivíduos. O número reduzido dificulta estimar o tamanho real da população e compreender como a espécie se distribui dentro do sistema de cavernas.
Os exemplares observados podem representar somente uma pequena parcela de um grupo instalado em setores mais profundos. Como aquíferos e passagens subterrâneas possuem áreas inacessíveis, a maior parte do habitat pode continuar desconhecida.
Essa limitação também aumenta a importância de futuras pesquisas. Para compreender o comportamento, a reprodução e a alimentação do peixe, será necessário obter novos registros sem comprometer uma população que aparentemente ocorre em baixa quantidade.
Nome do peixe reúne cultura popular e mitologia
A primeira parte do nome científico faz referência ao demogorgon, criatura popularizada pela série Stranger Things, da Netflix. A escolha combina a aparência incomum do animal com sua existência em um ambiente escuro e escondido.
A inspiração, porém, não se limita à produção televisiva. O termo também possui raízes em referências mitológicas e aparece em Paraíso Perdido, poema épico de John Milton publicado no século 17.
A palavra arcanus, empregada para designar a espécie, pode ser entendida como oculto ou secreto. O nome completo, portanto, destaca o caráter enigmático de um organismo que permaneceu desconhecido durante décadas de pesquisas.
A sugestão surgiu durante uma conversa entre Armbruster e Pamela Hart, coautora do trabalho e pesquisadora da Universidade do Alabama. Hart mantinha uma lista de figuras subterrâneas e seres mitológicos que poderiam inspirar a denominação de futuras espécies cavernícolas.
Descoberta foge do padrão comum de classificação
Muitas espécies novas são reconhecidas depois que cientistas reanalisam organismos já coletados ou identificam diferenças discretas dentro de grupos conhecidos. Neste caso, o encontro ocorreu com um animal que sequer havia sido observado de maneira clara nas décadas anteriores.
A situação tornou o trabalho excepcional para Armbruster. Em outras ocasiões, exemplares que pareciam distintos acabaram classificados como variações de espécies já descritas. O peixe da Caverna Bobcat, entretanto, manteve suas diferenças depois das análises físicas, esqueléticas e genéticas.
A criação de um gênero próprio mostra o tamanho dessa separação. Na classificação biológica, espécies de características próximas costumam ser reunidas dentro do mesmo gênero. Quando as diferenças são profundas, torna-se necessário estabelecer uma divisão adicional.

A descoberta evidencia o quanto sistemas de cavernas e aquíferos permanecem pouco conhecidos. Animais pequenos, de população limitada e comportamento restrito às regiões profundas podem evitar o contato com pesquisadores durante décadas.
O caso também demonstra a importância de combinar observação direta, exames de imagem e análise genética. A aparência levantou as primeiras suspeitas, mas somente o conjunto de técnicas confirmou que os cientistas estavam diante de um ramo desconhecido.
Com menos de 5 centímetros, coloração pálida e perda parcial de um gene ligado à visão, o novo peixe amplia o conhecimento sobre a evolução em ambientes sem luz. O Demogorgonichthys arcanus mostra que até uma caverna investigada por quase 40 anos pode guardar organismos que não se encaixam em nenhuma classificação conhecida.
Com informações da Revista Galileu
