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Cidade nos EUA com mais de 2 mil moradores, espalhou óleo com dioxina nas ruas para conter a poeira, descobriu a contaminação anos depois e acabou esvaziada, demolida e transformada em parque após uma gigantesca operação de limpeza

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 14/08/2026 às 17:04 Atualizado em 14/08/2026 às 17:09
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Times Beach, no Missouri, recebeu óleo residual para conter a poeira das estradas sem saber que o material carregava dioxina; após uma inundação em 1982, autoridades recomendaram o abandono da cidade, que décadas depois foi transformada em parque.

Uma pequena cidade do Missouri, nos Estados Unidos, tentou resolver um problema comum das estradas de terra no início dos anos 1970 espalhando óleo residual para reduzir a poeira. Anos depois, descobriu-se que parte daquele material continha dioxina, substância altamente tóxica que desencadearia a retirada permanente da população de Times Beach.

O caso ganhou dimensão ainda maior após uma forte inundação do rio Meramec em dezembro de 1982. Com a cidade alagada e a contaminação já identificada, autoridades federais recomendaram que os moradores não retornassem.

A limpeza acabaria envolvendo um incinerador temporário que tratou 265.354 toneladas de materiais contaminados por dioxina.

Óleo usado contra poeira escondia uma contaminação perigosa

Times Beach ficava no condado de St. Louis, aproximadamente 20 milhas — cerca de 32 quilômetros — a sudoeste da cidade de St. Louis. Suas ruas não pavimentadas recebiam óleo residual como forma de controlar a poeira levantada pelo tráfego.

Segundo o histórico publicado pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, o transportador de óleo usado Russell Bliss havia sido contratado no início dos anos 1970 para retirar resíduos de uma instalação química em Verona, também no Missouri.

Parte desses resíduos continha 2,3,7,8-tetraclorodibenzo-p-dioxina, conhecida como TCDD, uma forma de dioxina. Bliss misturou o material ao óleo usado que posteriormente foi aplicado para controlar poeira.

A EPA registra que a mistura contaminada foi espalhada em mais de 25 locais no Missouri, incluindo estradas de terra, pistas utilizadas por cavalos e Times Beach. A agência classifica a dioxina envolvida no episódio como altamente tóxica e associa a exposição a diferentes danos à saúde.

Os primeiros sinais graves surgiram longe de Times Beach. Em 1971, mais de 40 cavalos morreram em Shenandoah Stables, uma das propriedades onde Bliss havia espalhado o material. Aves, cães e gatos também foram encontrados mortos, e uma menina de seis anos ficou gravemente doente.

Investigações posteriores relacionaram os episódios à dioxina.

Inundação ao longo do rio Meramec, dezembro de 1982. (Crédito da foto: Serviço Nacional de Meteorologia)
Inundação ao longo do rio Meramec, dezembro de 1982. (Crédito da foto: Serviço Nacional de Meteorologia)

Contaminação em Times Beach veio à tona em 1982

Em março de 1982, a EPA recebeu registros do então Centers for Disease Control, o CDC, relacionados à contaminação por dioxina no Missouri e passou a desenvolver planos para analisar diferentes locais do estado.

Em novembro daquele ano, Times Beach recebeu as primeiras informações sobre a possibilidade de suas ruas também estarem contaminadas. A EPA começou a coletar e analisar amostras de solo.

Foi justamente nesse momento que uma emergência natural tornou a situação ainda mais grave.

Em dezembro de 1982, uma inundação recorde atingiu o rio Meramec. Times Beach ficou alagada e seus moradores precisaram sair de suas casas.

A contaminação não havia sido causada pela enchente: o óleo contendo dioxina já tinha sido aplicado nas ruas anos antes. O temor das autoridades era de que a água pudesse espalhar ainda mais o material contaminado pelo município.

Diante desse risco, EPA e CDC recomendaram que Times Beach não fosse novamente habitada.

Governo decidiu pela retirada permanente dos moradores

A situação tomou um rumo definitivo em 22 de fevereiro de 1983.

Naquele dia, EPA, Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) e governo do Missouri anunciaram recursos para a realocação permanente dos moradores de Times Beach.

O comunicado oficial da EPA divulgado em fevereiro de 1983 informa que a decisão ocorreu depois que o CDC analisou extensas amostragens de solo e concluiu que a contaminação representava uma ameaça contínua à saúde dos habitantes.

Foram analisadas aproximadamente 255 amostras coletadas depois da inundação. Em ruas, acostamentos e valas, as concentrações encontradas variavam de níveis não detectáveis a 100 partes por bilhão.

Alguns quintais e uma residência apresentaram concentrações superiores a 1 parte por bilhão e inferiores a 5 partes por bilhão.

A então administradora da EPA, Anne M. Burford, anunciou a transferência de US$ 33,1 milhões do Superfund para a FEMA com o objetivo de financiar a realocação.

O estado do Missouri participaria da implementação e arcaria com 10% dos custos, de acordo com as regras previstas para a operação.

A retrospectiva da EPA informa que Times Beach tinha mais de 2 mil moradores e que o plano envolvia a compra de cerca de 800 propriedades residenciais e 30 estabelecimentos comerciais.

A cidade, na prática, deixou de existir como comunidade habitada.

Um incinerador foi construído onde antes existia a cidade

Retirar os moradores, porém, não solucionava a contaminação.

Em 1988, a EPA aprovou um incinerador temporário em Times Beach para tratar materiais contaminados tanto da antiga cidade quanto de outros pontos do leste do Missouri.

Dois anos depois, em 1990, um acordo estabeleceu responsabilidades para a descontaminação. Solos contaminados de outros locais seriam escavados e levados até Times Beach, enquanto estruturas e detritos remanescentes da antiga cidade também entrariam no processo de limpeza.

A operação em escala plena do incinerador começou em março de 1996 e seguiu até junho de 1997.

Os números registrados pela EPA mostram a dimensão da operação.

Ao todo, foram tratadas 265.354 toneladas de materiais contaminados por dioxina provenientes de 27 locais do leste do Missouri.

Desse total, 37.234 toneladas eram provenientes da própria Times Beach. Portanto, as mais de 265 mil toneladas frequentemente associadas ao caso não estavam originalmente concentradas apenas dentro da cidade.

O restante foi levado de outros pontos contaminados da região para tratamento no incinerador instalado ali.

O relatório histórico da EPA sobre a retirada de Times Beach da lista de prioridades do Superfund informa ainda que os resíduos sólidos resultantes da incineração foram depositados no próprio local depois que testes confirmaram que os níveis de tratamento exigidos haviam sido atingidos.

Antiga cidade desapareceu e terreno virou parque

Depois da conclusão da descontaminação, Times Beach passou por uma transformação radical.

Casas e outras estruturas haviam sido demolidas, os moradores e estabelecimentos comerciais tinham sido realocados e o terreno passou por trabalhos de restauração.

Em setembro de 1999, o Missouri anunciou a abertura do Route 66 State Park, instalado justamente na área ocupada anteriormente por Times Beach.

A EPA informa que o parque ocupa 409 acres, cerca de 1,65 quilômetro quadrado, e recebeu esse nome por causa da histórica Route 66, que atravessa a região.

Em 25 de setembro de 2001, Times Beach foi oficialmente retirada da National Priorities List, a relação federal de locais prioritários do programa Superfund.

EPA e governo do Missouri concluíram que o local já não representava ameaça significativa à saúde pública ou ao meio ambiente e que novas medidas de remediação não eram necessárias.

A transformação completou uma trajetória incomum: um município onde óleo contaminado havia sido espalhado para resolver um problema de poeira perdeu toda sua população, recebeu materiais tóxicos de dezenas de outros locais para incineração e, após anos de descontaminação, deu lugar a um parque estadual.

Hoje, o espaço preserva vestígios de Times Beach e funciona também como lembrança de um dos episódios ambientais mais marcantes já enfrentados pelo Missouri.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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