Califórnia financia fazendas de suínos para biogás na Carolina do Norte e vende créditos de carbono no transporte, enquanto biodigestores, gasodutos de 48 km e lagoas com pulverização transformam Turkey e Warsaw em laboratório climático até 2026 sem aviso prévio
Em Turkey, na Carolina do Norte, a agenda climática ganhou um contorno inesperado quando um programa da Califórnia passou a apoiar fazendas de suínos que prometem capturar metano, produzir biogás e converter esse esforço em créditos de carbono ligados ao transporte. A infraestrutura chega com aparência discreta, mas com efeitos potenciais sobre ar, água e rotinas de vizinhança.
O conflito nasce do choque entre a promessa de combustível limpo e o histórico local de lagoas de dejetos e pulverização de resíduos em áreas rurais. Organizações de justiça ambiental descrevem surpresa e pouca transparência sobre gasodutos e instalações, enquanto empresas e defensores do modelo sustentam que a captura de metano reduz emissões e odores, e que a viabilidade depende de subsídios e regras de mercado.
Como o programa da Califórnia empurra biogás para fora do estado

O dinheiro que chegou às fazendas de suínos se conecta ao Low Carbon Fuel Standard, um mercado de créditos de carbono criado para reduzir emissões do transporte na Califórnia.
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Lançado em 2012, o programa impõe uma trajetória de queda para a intensidade média de carbono dos combustíveis, exigindo que combustíveis mais emissores comprem créditos de carbono de alternativas avaliadas como menos intensivas, incluindo biogás a partir do metano de resíduos animais e de aterros.
Esse desenho empurra impactos e infraestrutura para longe de onde os benefícios financeiros se concentram. Em 2025, o mecanismo alcançou o epicentro da suinocultura da Carolina do Norte e, no ano anterior, seis fazendas de suínos foram as primeiras do estado a receber financiamento ligado ao programa.
Para lideranças comunitárias na região de Warsaw, o atrito central é a velocidade: o comércio de créditos de carbono acelera gasodutos e obras sem que vizinhos saibam exatamente o que está sendo instalado, em que rota e com quais riscos.
O que muda nas fazendas de suínos quando entram biodigestores e lagoas

Dentro das fazendas de suínos, a tecnologia central é a instalação de biodigestores sobre lagoas de dejetos, geralmente como coberturas em formato de cúpula que capturam metano.
O gás capturado deixa de escapar diretamente da lagoa e passa a ser coletado e encaminhado para processamento, sustentando a promessa de biogás e de créditos de carbono associados ao transporte.
O ponto sensível está no restante do material e na lógica operacional do sistema. Após a captura, as águas residuais remanescentes são bombeadas para lagoas abertas de armazenamento pós digestão e, no fim do ciclo, o resíduo é pulverizado em campos agrícolas.
Críticos argumentam que a cadeia mantém o modelo de lagoas e pulverização, com risco de infiltração no lençol freático e derramamentos em enchentes, e que cobrir a lagoa não neutraliza automaticamente poluentes como nitrogênio, fósforo e partículas finas.
O resultado pode ser redução de um problema e reforço de outros, o que alimenta a controvérsia sobre vender créditos de carbono como se a equação estivesse resolvida.
Gasodutos, compressão e a planta Align RNG em Turkey

A planta de processamento associada ao projeto Align RNG foi descrita como pequena, com estruturas prateadas perto de um silo de grãos de 30 metros, em um cenário dominado por matadouros, celeiros e logística de ração.
O contraste ajuda a explicar por que moradores dizem ter sido pegos de surpresa: a instalação não tem o porte visual de uma usina, mas integra uma cadeia que liga fazendas de suínos a uma etapa industrial de compressão e refino do gás.
O desenho do projeto conecta 19 fazendas de suínos por cerca de 48 quilômetros de dutos subterrâneos a uma unidade central de processamento conhecida como Projeto Grady Road, que entrou em operação em novembro de 2022.
As fazendas ficam em um raio de aproximadamente 21 quilômetros e incluem propriedades ligadas à Smithfield ou contratadas por ela, com rebanhos descritos entre 10.000 e 20.000 porcos por fazenda.
O biogás bruto segue pelos dutos até a compressão, é refinado para atender especificações e é injetado em gasoduto de concessionária, enquanto os créditos de carbono podem ser negociados em outro mercado.
Créditos de carbono separados do combustível e a contabilidade do transporte
Uma característica do modelo é separar a molécula do atributo ambiental. O biogás, depois de processado e injetado em gasodutos, pode abastecer residências e empresas na região, enquanto os créditos de carbono são vendidos separadamente para compensar emissões do transporte em outro lugar.
Para moradores da Carolina do Norte, essa separação cria uma sensação de assimetria: o território convive com lagoas, pulverização e obras, mas o “benefício” é contabilizado onde o combustível nem sempre chega fisicamente.
Essa engenharia contábil é o centro da crítica de grupos de justiça ambiental e de organizações como a Food & Water Watch.
Um ponto citado no debate é que cerca de 45% dos créditos de carbono de biogás no mercado californiano iriam para produtores fora do estado, vinculados a 196 agricultores em diversos lugares do país, reforçando a percepção de que o programa permite compensações sem entrega local de combustível.
Quando a política é de transporte, a pergunta vira governança: qual é o limite aceitável de impacto local nas comunidades que cercam as fazendas de suínos?
Poluição local, amônia, nitratos e o argumento de troca de poluição
O leste da Carolina do Norte convive com alta densidade de criação industrial, com condados onde suínos superam habitantes em proporção de cerca de 40 para 1. A REACH atua no Condado de Duplin, citado como o segundo condado com maior densidade de suínos do país, atrás do vizinho Condado de Sampson.
Muitas operações ficam escondidas atrás de cortinas de árvores, mas os efeitos descritos há décadas incluem esterco pulverizado levado pelo vento, contaminação associada a fósforo e nitratos e impactos em rios e poços, em um território com recortes de vulnerabilidade social relevantes.
No debate técnico sobre biodigestores e biogás, surgem alertas específicos. Há menção a estudos indicando que biodigestores, dependendo da operação, podem aumentar a liberação de amônia, associada a 12.400 mortes por ano nos Estados Unidos.
Também é citado um alerta do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos de que a captura de metano pode agravar problemas de qualidade da água ao aumentar a solubilidade do nitrogênio, elevando risco de contaminação por nitratos em água potável, com preocupação particular onde muitas famílias dependem de poços.
Pesquisadores também apontam que a queima de excedentes e a infraestrutura podem adicionar óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre e material particulado, alimentando a ideia de troca de poluição.
Licenças, direitos civis e a investigação que continua aberta
A implantação de biodigestores nas fazendas de suínos virou disputa jurídica e regulatória.
Dois grupos, a Rede de Ação Comunitária por Justiça Ambiental e o Cape Fear River Watch, processaram o Departamento de Qualidade Ambiental da Carolina do Norte por autorizações concedidas para biodigestores em fazendas vinculadas à venda de créditos de carbono, alegando que o estado não considerou sistemas de tratamento menos prejudiciais e não avaliou adequadamente impactos de resíduos pós digestão.
Além do litígio estadual, uma queixa baseada no Título VI da Lei dos Direitos Civis foi apresentada à EPA contra o mesmo departamento, em nome de organizações como a NAACP do Condado de Duplin e a Campanha dos Pobres da Carolina do Norte, com alegação de impacto desproporcional em comunidades negras, latinas e indígenas.
Um juiz administrativo chefe decidiu a favor da agência estadual em 2022 no caso das licenças, mas a EPA decidiu investigar a queixa de direitos civis e a apuração foi descrita como ainda em aberto.
No lado californiano, a autoridade reguladora mencionada no debate indicou que pode invalidar créditos de carbono se houver geração ou transferência em violação de leis fora do próprio programa.
Quem lucra, quem assina e por que o subsídio decide o ritmo
A controvérsia passa por estrutura societária e por custo. O projeto Align RNG foi descrito como uma joint venture de 500 milhões de dólares entre a Dominion Energy e a Smithfield, com objetivo de processar metano de fazendas de suínos e converter o gás em combustível e em créditos de carbono.
O projeto afirmou uma meta de capturar 142.000 toneladas métricas de metano por ano, comparada a retirar 30.000 carros das ruas, um argumento desenhado para justificar o benefício climático do biogás.
Mesmo nessa escala, economistas apontam que construir e operar biodigestores custa de nove a dez vezes mais do que produzir gás natural por extração direta.
Esse diferencial explica por que biogás depende de apoio político e de créditos de carbono, com dois pilares citados como decisivos: o padrão federal de combustíveis renováveis e o padrão de baixo carbono da Califórnia.
Para a comunidade, o que importa é a contrapartida: se o subsídio viabiliza o projeto, quais obrigações de monitoramento e redução de poluição local vêm junto?
A próxima onda de gasodutos e o problema da transparência
A sensação de surpresa se repete em relatos de organizadores locais. Sherri White Williamson, do grupo EJCAN, descreveu que audiências públicas atraíram vizinhos que não sabiam do que se tratava e que a organização precisou ir de porta em porta para explicar o que eram biodigestores e rotas de biogás.
Para moradores, a pergunta deixa de ser abstrata e vira território: onde passa o gasoduto, o que muda na pulverização e quem mede a qualidade do ar ao redor das fazendas de suínos.
Há também a discussão sobre emissões da própria infraestrutura. Uma licença de qualidade do ar da unidade em Turkey foi descrita com potencial de emissão entre 64 e 220 toneladas de poluentes por ano, e moradores relataram observações de queima de gás com liberação de poluentes associados a riscos respiratórios.
Pesquisadores citados no debate alertam ainda para risco de incêndios e explosões quando metano fica concentrado em dutos e tanques, especialmente com tempestades mais intensas.
No mesmo horizonte, o estado registrava, em agosto de 2025, 30 pedidos de licença de biodigestores em análise e 59 já licenciados, enquanto a Smithfield anunciou ambição de ampliar biodigestores para grande parte das suas fazendas de suínos.
O caso das fazendas de suínos financiadas pela Califórnia mostra como uma política climática de transporte pode redesenhar infraestrutura, incentivos e risco em outro estado.
Biogás e créditos de carbono podem reduzir parte das emissões de metano, mas não eliminam automaticamente lagoas, pulverização e poluentes que afetam ar e água no leste da Carolina do Norte, onde a carga histórica já é alta.
Se a sua região recebesse biodigestores em fazendas de suínos com promessa de biogás e créditos de carbono, qual exigência você colocaria primeiro para proteger quem mora perto de lagoas e campos de pulverização, e quem deveria fiscalizar essa conta: o estado, a EPA, ou um monitoramento comunitário independente?

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