Calçada de pedra de 200 anos foi construída por escravos e indígenas, tem 6 km no meio da Serra Catarinense e salvou tropas do banhado ligando Lages a Florianópolis
A poucos metros da mata fechada e dos pastos de gado na Serra Catarinense, uma calçada de pedra de 200 anos continua silenciosa sob os cascos, pneus e pés que ainda passam por ali. Quase escondida dentro de propriedades rurais, ela foi durante décadas o principal caminho entre a serra e o litoral, ligando a antiga Serra Nossa Senhora das Lajes, hoje Lages, à cidade de Desterro, atual Florianópolis. O traçado, de 6 km por 3 m de largura, é um capítulo vivo da história do Império no Sul do Brasil.
Quem nos conduz nessa viagem é seu Ivan, ex-prefeito de Alfredo Wagner e apaixonado por história local. Ele lembra que a primeira trilha foi aberta em 1797, quando tropas, imigrantes, escravos e indígenas precisavam de um caminho para descer e subir a serra. Com o tempo, o barro, a lama e os saques no banhado obrigaram o governo a intervir. Foi aí que nasceu a calçada de pedra de 200 anos, pavimentando um trecho crítico da estrada real e mudando a rotina das tropas.
Um caminho de 6 km na serra para fugir do banhado

Antes da calçada, a ligação entre Lages e Florianópolis era apenas uma trilha aberta na raça. Quase todo mundo passava a pé, alguns poucos a cavalo ou em mulas de carga, em expedições de gente em busca de terras e oportunidades.
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A região recebia principalmente alemães e, mais adiante, italianos, espalhando-se pelos vales e lombas da serra.
O problema era o banhado. As mulas afundavam na lama, as bruacas encostavam no chão e os animais ficavam quase suspensos, presos, vulneráveis. Nesse cenário, os índios saqueavam as cargas, aproveitando a dificuldade das tropas.
Para resolver a situação, veio uma decisão imperial: em vez de apenas mudar a trilha para alguns metros ao lado, optou-se por calçar de pedra o trecho problemático. Assim nasceu a calçada de pedra de 200 anos, como um corredor sólido no meio do terreno encharcado.
Escravos, indígenas e a força bruta por trás das pedras
Segundo os registros citados por seu Ivan, a calçada de pedra de 200 anos foi construída por escravos, indígenas considerados na época como “domesticados” e pessoas que trocavam serviço por comida.
Começou com dezenas de escravos e chegou a centenas para dar conta da obra, que deve ter levado mais de cinco anos, concluída entre a primeira e a segunda década de 1800.
As pedras impressionam até hoje. Há blocos com mais de 500 kg, que eram arrastados sobre couro de boi, molhado quando secava para facilitar o deslizamento.
Outra ferramenta importante era a bimbarra, uma espécie de alavanca de madeira usada para mover as pedras com menos esforço.
Cada metro da calçada de pedra de 200 anos carrega a marca do trabalho forçado, da técnica rústica e da adaptação ao relevo difícil da serra.
Guardas, tropas e a proteção das cargas na estrada real
Com o calçamento pronto, o Império decidiu reforçar a segurança da região. Seis soldados foram enviados para uma localidade que até hoje se chama Guarda Velha.
Eles deveriam proteger o trânsito de tropas e mercadorias, mas o frio intenso fez com que abandonassem o posto poucos dias depois.
A resposta foi reorganizar a defesa. O governo ordenou que os militares saíssem de outro ponto, acompanhassem os cursos d’água e instalassem uma colônia militar em área mais estratégica.
Assim surgiu a vila de Catuíra, em terras doadas pela imperatriz Teresa Cristina, com cerca de 100 hectares para a comunidade.
Dali, os soldados passaram a escoltar as tropas que subiam de Florianópolis para Lages e as que desciam da serra para o litoral, até praticamente eliminar o saque às cargas.
A calçada de pedra de 200 anos era um elo fundamental dessa estrada real que cruzava vales, rios e montanhas.
Cadeado, tropeiros sem pressa e o tempo da viagem
Um dos pontos mais curiosos do caminho é o morro do Cadeado. Lá existe um campo de cerca de 50 hectares, peral para cima, peral para baixo, com uma única entrada e uma única saída, por isso o nome.
Ali, o ponteiro da tropa cercava a parte de baixo e o fim da tropa cercava a parte de cima, enquanto os animais descansavam, engordavam e esperavam passar temporais que impediam a viagem.
Seu Ivan descreve o ritmo dos tropeiros como uma vida sem pressa. Tropeiro dormia hoje em um ponto, almoçava ali mesmo no dia seguinte e, se precisasse, dormia de novo, sempre obedecendo ao tempo, à condição dos animais e à segurança da estrada.
A calçada de pedra de 200 anos era uma das poucas garantias de firmeza sob os cascos em meio a um caminho cheio de ladeiras, rios e lama.
Cercas, caminhões e o quase desaparecimento da calçada
Quando criança, seu Ivan ainda viu a calçada de pedra de 200 anos completamente exposta, sendo usada por quem morava na região de Catuíra e precisava ir a Bom Retiro. Não havia outro caminho, todos passavam por ali.
Com o tempo, porém, as grandes áreas foram divididas em propriedades menores, apareceram cercas e o “progresso” mudou o cenário.
Caminhões de tora passaram pelo antigo traçado e, em alguns trechos, afundaram as pedras e marcaram trilhos sobre o calçamento, enquanto em outros pontos a grama cobriu quase tudo.
A rota começou a perder importância quando chegaram carroças e novas estradas foram abertas. Um exemplo é o avô de seu Ivan, que comprou um caminhão F8 em 1949.
Para chegar onde morava, no Rio do Engano, ele precisou literalmente construir parte da estrada, abrindo caminho entre praias, rios e serras.
A mudança mais decisiva veio na década de 1980, com a construção da BR-282. A rodovia moderna assumiu o papel de eixo principal entre o litoral e a serra, e a antiga estrada real, com a sua calçada de pedra de 200 anos, ficou restrita a trechos pouco visíveis, dentro de fazendas.
Cavalgadas, memória e o desafio de manter o acesso aberto
Quando a BR-282 começou a sair do papel, seu Ivan recebeu a sugestão de organizar a “última cavalgada” entre Florianópolis e Lages, marcando simbolicamente a despedida da antiga rota.
Ele gostou da ideia e mobilizou prefeitos vizinhos e grupos de cavalarianos. Vieram CTGs recém-criados, gente do litoral, da serra e do Vale do Itajaí.
A cavalgada chegou ao parque de exposições como um cortejo de memória, refazendo parte do caminho histórico.
Não foi exatamente o fim. Outras cavalgadas aconteceram depois, usando principalmente os trechos calçados da estrada real. Só que há um obstáculo: a rota passa por dentro de propriedades privadas, a maioria fechada ao público.
Para atravessar, é preciso pedir autorização, abrir porteira, convencer os donos a participar. No dia seguinte, as cercas voltam a se fechar, já que o gado precisa ficar contido.
Mesmo assim, a calçada de pedra de 200 anos continua lá, em fragmentos mais visíveis ou quase engolidos pela vegetação.
Cada pedra é um vestígio de um tempo em que tropeiro não tinha pressa, vivia ao ritmo da natureza, da chuva, do frio da serra e da força das mulas, confiando nesse corredor de pedra para cruzar a paisagem.
E você, teria coragem de percorrer hoje a calçada de pedra de 200 anos no meio da serra catarinense, imaginando o passo lento dos tropeiros e das tropas que passaram por ali?


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