Café raro encontrado no Pará chega a 11 metros, tem frutos gigantes e sabor diferenciado. Conheça a espécie estudada por pesquisadores.
Uma espécie rara de café encontrada no Nordeste do Pará está sendo estudada por pesquisadores devido ao tamanho das árvores, às características dos frutos e ao potencial de aproveitamento agrícola. Conhecida como “café beirão”, a Coffea liberica pode atingir 11 metros de altura, apresenta frutos de até o dobro do tamanho dos encontrados no arábica e possui um sabor que combina notas frutadas e herbais. Apesar dessas particularidades, a espécie ainda não é cultivada comercialmente no Brasil, e os estudos buscam ampliar o conhecimento sobre suas características e possibilidades de utilização.
Café gigante foi encontrado no quintal de agricultor no Pará
O maior exemplar identificado até agora pelos pesquisadores está no município de Irituia, no quintal da família do agricultor Agílio Cordeiro Vieira. A árvore se destaca pelo tamanho, já que a espécie pode alcançar 11 metros de altura e desenvolver troncos com até 60 centímetros de diâmetro.
Além do porte, o café beirão apresenta folhas de grandes dimensões e frutos que adquirem uma coloração alaranjada quando amadurecem. Em alguns casos, esses frutos chegam a ter o dobro do tamanho daqueles produzidos pelo café arábica.
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O ambiente onde as plantas foram encontradas também chamou a atenção dos pesquisadores. Enquanto lavouras tradicionais de arábica e canéfora são cultivadas a pleno sol, os exemplares identificados no Pará crescem à sombra de árvores nativas, em solos frescos e com grande quantidade de matéria orgânica.
Até o momento, o levantamento identificou apenas sete plantas de Coffea liberica no estado, todas localizadas de maneira isolada em quintais produtivos.
Espécie representa apenas 0,01% da produção mundial de café
Embora seja pouco conhecida no Brasil, a Coffea liberica já é produzida em pequena escala em países como Malásia, Costa do Marfim, Filipinas, Libéria e Indonésia. Sua participação, entretanto, é bastante limitada e corresponde a apenas 0,01% da produção global de café.
A presença dessas árvores na Amazônia ainda é investigada. Uma das hipóteses consideradas pelos pesquisadores é que as primeiras mudas tenham chegado à região durante a expedição militar de Francisco Palheta, realizada há quase 300 anos.

Apesar dessa possível ligação histórica, a origem das plantas encontradas no Pará ainda não foi confirmada, e a espécie permanece sem cultivo comercial no território brasileiro.
Café beirão apresenta sabor frutado e notas que lembram chá-verde
As diferenças em relação aos cafés mais conhecidos também aparecem na bebida. De acordo com o barista Adriano Vitti Mota, o café preparado exclusivamente com grãos de libérica apresenta um perfil mais frutado que o arábica, acompanhado de características herbais que lembram o sabor do chá-verde.
A quantidade de cafeína também distingue a espécie das variedades tradicionais. Seu teor fica entre o encontrado no arábica e no canéfora, sendo superior ao primeiro e inferior ao segundo.
Essas características sensoriais estão entre os aspectos que despertam interesse pelo café raro encontrado no Pará, embora ainda existam obstáculos para uma eventual produção comercial.
Árvores altas e casca resistente dificultam a produção comercial
Uma das principais dificuldades para cultivar a espécie em maior escala está justamente no tamanho das árvores. Com exemplares que podem alcançar 11 metros, a colheita manual se torna mais complicada, exigindo técnicas de manejo e poda capazes de reduzir a altura das plantas.
O processamento dos frutos representa outro desafio, pois a casca é bastante dura e pode dificultar o beneficiamento com equipamentos convencionais. Por isso, uma eventual expansão do cultivo poderá depender da adaptação de máquinas existentes ou do desenvolvimento de soluções específicas.
Mesmo diante dessas limitações, a Coffea liberica já contribuiu para a agricultura brasileira. Sua elevada resistência à ferrugem, doença que afeta os cafeeiros, permitiu que a espécie fosse utilizada em programas de melhoramento genético do café arábica.
Pesquisa recebeu R$ 115 mil e terá nova etapa para avaliar potencial do café
As amostras coletadas pelos pesquisadores foram encaminhadas à Embrapa, em Belém, onde passam por diferentes procedimentos de conservação e documentação. O trabalho envolve prensagem, secagem em estufa, congelamento e digitalização do material vegetal antes de sua incorporação ao herbário, que reúne aproximadamente 206 mil amostras de plantas.
A primeira etapa da pesquisa contou com cerca de R$ 115 mil em recursos da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). A expectativa agora é que novos investimentos sejam destinados à Embrapa para acelerar a segunda fase dos estudos.
Nessa próxima etapa, os pesquisadores deverão avaliar o potencial do café libérica para o mercado local e para exportação, considerando as particularidades da espécie e os desafios envolvidos em seu aproveitamento.
