Francine Atalita Marques troca o mundo corporativo pelo próprio negócio, acumula importação, vendas, redes sociais e administração, fecha e-commerce e espaço colaborativo na pandemia e reorganiza a carreira em mentorias
Francine Atalita Marques passou mais de 10 anos trabalhando em grandes empresas, deixou a carreira corporativa após uma crise grave de ansiedade e, em 2015, tornou-se MEI para abrir o próprio e-commerce. Porém, a mudança não trouxe a rotina mais leve que ela esperava: o acúmulo de funções voltou a provocar exaustão e, anos depois, levou a empreendedora a encerrar dois negócios e reconstruir sua forma de trabalhar, conforme informações publicadas pelo UOL.
A trajetória de Francine ajuda a mostrar um problema comum entre quem empreende sozinho. O MEI pode precisar cuidar, no mesmo dia, de compras, vendas, atendimento, financeiro, marketing, produção e operação. Quando todas essas tarefas ficam concentradas em uma única pessoa, especialistas ouvidos pelo UOL alertam para o risco de sobrecarga física e mental.
No caso dela, o primeiro modelo de negócio alcançava faturamento anual médio de R$ 70 mil. Em 2020, entretanto, Francine decidiu fechar tanto o e-commerce quanto o espaço colaborativo que mantinha com outros empreendedores. Depois, mudou de direção e passou a atuar com cursos e mentorias. Em 2025, faturou R$ 100 mil.
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Mais de 10 anos no mundo corporativo terminam após crise de ansiedade
Antes de empreender, Francine trabalhava como analista de desenvolvimento humano em grandes companhias de Sorocaba, no interior de São Paulo.
Ela permaneceu nesse ambiente por mais de uma década.
Porém, uma crise grave de ansiedade levou a profissional a pedir demissão.
Em 2015, decidiu começar novamente.
Dessa vez, abriu a Livre no Mundo como MEI.

O e-commerce comercializava roupas e acessórios femininos importados da Índia e de países latino-americanos.
Naquele momento, trocar o ambiente corporativo por um negócio próprio parecia abrir caminho para uma rotina diferente.
Entretanto, apareceu outro problema.
Trabalhar em casa não diminui a carga e ela passa a fazer praticamente tudo sozinha
A autonomia trouxe liberdade.
Por outro lado, também concentrou responsabilidades.
Francine passou a cuidar da importação das roupas, formação de preços, cadastro de produtos no site, publicações nas redes sociais e administração da empresa.
Ou seja, sair do escritório não eliminou o excesso de tarefas.
Apenas mudou onde elas aconteciam.
Essa rotina ficou ainda mais pesada em 2017, quando Francine e outros dois empreendedores abriram o Jardim Urbano, um espaço colaborativo também em Sorocaba.
Cerca de 10 empreendedores passaram a expor produtos no imóvel alugado.
Com isso, Francine acumulou outro conjunto de obrigações.
Além do e-commerce, voltou a cumprir horários para abrir e fechar o espaço e também começou a atender clientes presencialmente.
Empreendedora passa a administrar e-commerce e espaço com 10 marcas
O crescimento trouxe mais atividades.
Porém, não significou necessariamente maior retorno.
Francine continuava administrando sua própria marca enquanto participava da operação do espaço coletivo.
Consequentemente, precisava alternar constantemente entre funções.
Esse tipo de troca frequente de tarefas aparece justamente entre os fatores de sobrecarga citados pela psicóloga Eli Borba, ouvida pelo UOL.
Segundo a especialista, quem empreende sozinho pode assumir simultaneamente os papéis de comercial, financeiro, operacional, marketing e até limpeza.
Assim, o cérebro precisa alternar entre decisões estratégicas e pequenas tarefas burocráticas durante praticamente todo o dia.
Para Francine, a combinação também começou a perder sentido financeiro.
Negócios faturavam em média R$ 70 mil por ano, mas ela decide encerrar tudo em 2020
A pandemia marcou a ruptura.
Em 2020, Francine encerrou tanto a Livre no Mundo quanto sua participação no espaço colaborativo.
Segundo ela, havia muita demanda e pouco retorno.
Naquele período, o faturamento anual médio do negócio girava em torno de R$ 70 mil.
É importante fazer a distinção: esse valor representa faturamento, não lucro pessoal.
Depois de fechar as atividades, Francine não abandonou completamente o empreendedorismo.
Em vez disso, mudou o modelo.
Depois de fechar 2 atividades, ela transforma experiência em cursos e mentorias
Francine começou a oferecer cursos e mentorias para outros empreendedores.
O foco inicial envolvia divulgação de marcas nas redes sociais.
Depois, a empresa que leva seu nome passou a concentrar o trabalho em mentorias para mulheres interessadas em construir negócios, novas carreiras ou projetos.
A mudança alterou tanto o produto quanto a forma de trabalhar.
Além disso, trouxe outro resultado financeiro.
Em 2025, Francine faturou R$ 100 mil, segundo o UOL.
Portanto, a trajetória não seguiu simplesmente uma linha de crescimento contínuo.
Primeiro, ela deixou a carreira corporativa.
Depois, abriu um e-commerce.
Em seguida, acumulou um segundo negócio.
Por fim, encerrou os dois e reconstruiu o modelo ao redor de serviços baseados em conhecimento.
Acúmulo de papéis aparece como um dos principais riscos para quem trabalha sozinho
A história de Francine serve como ponto de partida para uma questão mais ampla.
Segundo Eli Borba, três fatores merecem atenção entre MEIs e pequenos empreendedores que concentram toda a operação.
O primeiro é justamente o acúmulo de papéis.
Uma única pessoa precisa vender, atender, pagar contas, emitir documentos, divulgar produtos e ainda pensar na estratégia.
Além disso, frequentemente precisa resolver imprevistos ao longo do dia.
Consequentemente, sobra menos espaço mental para planejar.
A especialista afirma que a exaustão pode empurrar o empreendedor para um modo puramente reativo, no qual ele passa o dia apenas resolvendo problemas imediatos.
Isso também pode atingir a gestão.
Quando o empreendedor adoece, toda a operação pode parar
O segundo problema aparece na falta de uma rede de apoio profissional.
Em uma empresa tradicional, colegas podem assumir parte das tarefas.
Um gestor pode validar decisões.
Além disso, normalmente existe alguma estrutura para cobrir férias, afastamentos ou imprevistos.
No negócio individual, porém, essas funções podem ficar concentradas em uma só pessoa.
Assim, se o empreendedor fica doente, a operação pode desacelerar ou até parar.
O mesmo acontece durante férias, feriados ou acontecimentos familiares.
Essa dependência também torna o negócio vulnerável ao próprio limite físico e mental do dono.
Por isso, o excesso de trabalho não afeta apenas bem-estar.
Ele pode atingir atendimento, planejamento e faturamento.
Irritabilidade, atrasos e falhas de comunicação também podem chegar aos clientes
O desgaste começa dentro da rotina, mas pode aparecer para quem compra.
Segundo Eli, irritabilidade e exaustão podem provocar respostas mais curtas, atrasos nas entregas e falhas de comunicação.
Além disso, a dificuldade para se concentrar pode prejudicar decisões estratégicas.
Nesse cenário, o empreendedor trabalha mais horas, porém consegue dedicar menos energia às tarefas que realmente fazem o negócio crescer.
Portanto, a sobrecarga cria um efeito contraditório.
A tentativa de fazer tudo sozinho para economizar recursos pode, em alguns casos, reduzir a capacidade de administrar bem a própria empresa.
Estar disponível o tempo inteiro apaga a fronteira entre casa e trabalho
O terceiro fator citado pela psicóloga envolve disponibilidade permanente.
Esse problema se torna especialmente visível entre pessoas que trabalham de casa.
Sem uma separação física clara, documentos, equipamentos e tarefas profissionais começam a ocupar os mesmos ambientes usados para descanso, alimentação e convivência.
Consequentemente, encerrar o expediente fica mais difícil.
A pessoa pode responder mensagens durante a noite.
Depois, volta ao computador no fim de semana.
Em seguida, percebe que praticamente não existe mais uma fronteira entre vida pessoal e profissional.
Segundo a especialista, isso compromete o tempo necessário para recuperação.
Burnout não significa apenas estar cansado após alguns dias intensos
Existe uma distinção importante.
Trabalhar muito durante uma fase específica não significa automaticamente burnout.
A Organização Mundial da Saúde define burnout como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não recebeu manejo adequado. Entre suas características estão esgotamento, distanciamento mental ou negatividade em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Segundo Eli, uma pessoa que vive apenas um período intenso pode descansar e recuperar a energia.
Já em quadros compatíveis com burnout, a sensação de exaustão pode persistir mesmo após descanso.
Além disso, podem aparecer irritabilidade, perda de sentido em relação ao trabalho e dificuldade para realizar tarefas antes simples.
Ainda assim, sintomas isolados não permitem confirmar diagnóstico.
Cansaço persistente e perda de interesse exigem atenção, mas não fecham diagnóstico
O UOL destaca um cuidado essencial.
Cansaço excessivo, alterações de humor, problemas de sono, dificuldade de concentração e sintomas físicos recorrentes podem ter diferentes causas. Portanto, nenhum desses sinais isoladamente comprova burnout.
Quando os sintomas persistem ou começam a prejudicar a vida pessoal e profissional, a orientação é buscar avaliação de profissionais de saúde, como psicólogos ou psiquiatras.
Essa diferença importa porque existe o risco de chamar qualquer fase cansativa de burnout.
Ao mesmo tempo, ignorar sinais persistentes pode prolongar um quadro de sofrimento.
Especialistas recomendam criar horário para começar e terminar o expediente
Entre as medidas práticas citadas na reportagem, uma das mais simples envolve estabelecer limites de horário.
Eli recomenda definir hora para começar e encerrar o trabalho.
Para quem trabalha em casa, também sugere separar um local específico para a atividade profissional.
A lógica é criar sinais claros de transição.
Assim, fechar o notebook, mudar de ambiente e respeitar pausas ajuda a marcar o fim da jornada.
Além disso, a especialista recomenda manter compromissos em uma agenda ou sistema, em vez de tentar guardar todas as tarefas na memória.
IA pode ajudar o MEI a descobrir onde está perdendo tempo
A tecnologia também aparece como ferramenta para reduzir carga operacional.
Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação, recomenda que o empreendedor liste as atividades do negócio e identifique quanto tempo cada uma consome.
Depois, pode separar aquilo que é recorrente do que aparece apenas ocasionalmente.
Nesse ponto, ferramentas de inteligência artificial podem ajudar a mapear processos e sugerir maneiras de encurtar, automatizar ou eliminar determinadas tarefas.
Segundo Igreja, esse mapeamento pode começar até com descrição por voz.
Assim, o empreendedor não precisa necessariamente implantar um sistema complexo para identificar gargalos.
A tecnologia entra como apoio, e não como solução automática para todo problema de organização.
Automatizar emissão de notas e fluxo de caixa reduz tarefas repetitivas
Eli também recomenda usar ferramentas para processos simples e frequentes.
Entre os exemplos aparecem agendamentos, emissão de notas e controle de fluxo de caixa.
Quando o orçamento permite, outra alternativa consiste em contratar serviços pontuais de outros profissionais.
Contadores e designers, por exemplo, podem assumir tarefas específicas.
Assim, o dono deixa de concentrar todas as funções dentro da própria rotina.
A ideia não exige necessariamente contratar uma equipe fixa.
Em alguns casos, compartilhar poucas atividades já reduz uma parte relevante do volume diário de decisões.
Networking pode reduzir o isolamento de quem toca o negócio sozinho
Outro ponto envolve conexões profissionais.
Grupos de networking, associações comerciais e espaços de coworking podem ajudar quem empreende sem colegas.
O objetivo não é apenas conseguir clientes.
Conversar com outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes também reduz a sensação de isolamento.
Além disso, essas redes podem ajudar na troca de soluções e experiências.
Para quem concentra CNPJ e operação na mesma pessoa, esse apoio pode fazer diferença justamente porque não existe uma equipe interna para dividir dúvidas.
De R$ 70 mil para R$ 100 mil, Francine muda o modelo em vez de insistir na mesma rotina
A trajetória de Francine termina em um ponto diferente daquele em que começou.
Depois de mais de 10 anos no mundo corporativo, ela pediu demissão.
Em 2015, abriu o e-commerce.
Dois anos depois, entrou também em um espaço colaborativo com cerca de 10 empreendedores.
Em 2020, porém, decidiu encerrar as duas atividades quando o negócio faturava, em média, R$ 70 mil por ano.
Depois, mudou de modelo.
Em 2025, o negócio de cursos e mentorias chegou a R$ 100 mil de faturamento.
O principal contraste, portanto, não está apenas no crescimento dos números.
Está na decisão de parar uma estrutura que concentrava tarefas demais e reconstruir a forma de trabalhar.
Para quem empreende sozinho, essa história também reforça um limite básico: quando uma única pessoa acumula comercial, financeiro, marketing, atendimento e operação, cuidar da própria capacidade de continuar trabalhando passa a ser parte da gestão do negócio.
Para você, qual tarefa mais sobrecarrega quem trabalha sozinho: atender clientes, cuidar das finanças, vender, produzir ou tentar fazer tudo ao mesmo tempo?

