Eduardo Ferlin saiu do Rio Grande do Sul para uma viagem internacional de rotina, mas acabou vivendo mais de um mês dentro do caminhão enquanto centenas de motoristas aguardavam a reabertura da estrada
O que deveria ser mais uma viagem transportando alimentos entre o Brasil e o Chile acabou se transformando em 32 dias de espera em meio ao inverno dos Andes. O caminhoneiro gaúcho Eduardo Ferlin, de 50 anos, ficou impedido de seguir viagem após uma forte nevasca fechar a passagem pela Cordilheira, enquanto precisava manter uma carga de carne suína refrigerada a cerca de -25 °C.
A situação chegou a um ponto extremo: segundo os relatos divulgados durante o bloqueio, havia locais da região com acúmulo de neve de até seis metros, além do risco de avalanches. Enquanto esperava dentro do caminhão em território argentino, Eduardo viu pelo celular acontecimentos importantes da própria família, incluindo a formatura da filha, Emília, da qual não conseguiu participar.
Viagem começou em 13 de julho levando carne suína de Lajeado até Santiago
Eduardo trabalha com transporte frigorífico e saiu de Lajeado, no Vale do Taquari, em 13 de julho de 2026, levando uma carga de carne suína com destino a Santiago, capital do Chile. Era uma operação que fazia parte de sua rotina profissional, mas o inverno na Cordilheira mudou completamente os planos.
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Ao chegar à região de Uspallata, na província argentina de Mendoza, próximo à travessia para o Chile, encontrou a estrada bloqueada por uma intensa nevasca. Sem autorização para prosseguir, o caminhoneiro estacionou próximo à aduana e passou a aguardar uma liberação que demoraria muito mais do que imaginava.
Os dias começaram a se acumular. Primeiro foram semanas, depois quase um mês. Em 13 de agosto, Eduardo já contabilizava 28 dias parado. Cinco dias depois, quando o caso ganhou ainda mais repercussão, havia chegado à marca de 32 dias sem conseguir completar a travessia dos Andes.

Carga precisava permanecer a -25 °C durante toda a espera
Além da própria permanência em uma região de frio intenso, Eduardo tinha outro problema que não podia ignorar: dentro da carreta estava uma carga de carne suína que precisava continuar congelada.
Para evitar a perda dos produtos, o motorista precisava manter continuamente em funcionamento o motor da câmara frigorífica, preservando a carga em aproximadamente -25 °C durante o período de espera. A temperatura, portanto, refere-se ao sistema de refrigeração da carga, e não à temperatura externa registrada em Uspallata.
Do lado de fora, as condições também eram severas. Relatos publicados durante o bloqueio apontaram temperaturas de aproximadamente -5 °C na região, enquanto durante a posterior travessia da Cordilheira foram registradas condições que chegaram a cerca de -10 °C.
Neve chegou a seis metros e risco de avalanches impedia passagem dos caminhões
Não bastava simplesmente retirar neve da pista para que os veículos voltassem a circular. De acordo com Eduardo, havia grande quantidade de neve acumulada nas montanhas, e as forças de segurança temiam que a movimentação dos caminhões pudesse favorecer desprendimentos.
O risco era de avalanches e acidentes em plena Cordilheira dos Andes. Segundo informações divulgadas durante a paralisação, o acúmulo chegava a até seis metros em determinados pontos, tornando a liberação da rota uma operação delicada.
Eduardo relatou posteriormente que não se lembrava de uma situação semelhante na região nas últimas duas décadas. A afirmação representa a percepção relatada pelo próprio caminhoneiro durante a experiência, e ele fez questão de registrar em imagens as dimensões da nevasca.

Cerca de 500 caminhoneiros aguardavam no mesmo local
Eduardo estava longe de ser o único profissional afetado. Segundo o próprio motorista, cerca de 500 caminhoneiros estavam concentrados naquela área próxima à aduana argentina durante o bloqueio.
Havia profissionais vindos do Brasil, Chile, Peru, Bolívia, Uruguai e Paraguai, todos dependendo da reabertura da passagem para continuar suas viagens. O estacionamento e as proximidades do posto acabaram se transformando temporariamente em uma espécie de ponto de permanência para centenas de trabalhadores.
Durante esse período, o Exército argentino e entidades locais forneciam água potável e uma refeição por dia aos motoristas. Para tomar banho, eles utilizavam a estrutura de um posto de combustíveis, pagando na época aproximadamente 4 mil pesos argentinos, valor estimado pela reportagem local em cerca de R$ 14.
Sem saber exatamente quando poderia seguir viagem, Eduardo passava grande parte dos dias dentro da cabine. Nos momentos em que podia sair, a convivência com os demais caminhoneiros e o chimarrão ajudavam a quebrar a longa rotina de espera.
Enquanto esperava nos Andes, filha se formou e neto completou três meses
Se as dificuldades profissionais já eram grandes, o impacto pessoal tornou os 32 dias ainda mais marcantes. Preso do outro lado da fronteira, Eduardo não conseguiu voltar ao Rio Grande do Sul para acompanhar a formatura da filha Emília.
Durante o mesmo período, seu neto Otto completou três meses de vida. Em entrevista enquanto ainda permanecia na Argentina, o caminhoneiro mandou uma mensagem para os dois e lamentou não ter conseguido estar presente na formatura.
A situação mostra uma consequência nem sempre visível das grandes interrupções logísticas. Por trás da carreta estacionada e da carga que precisava permanecer congelada havia também um trabalhador vivendo mais de um mês longe de casa, sem uma data segura para terminar a viagem.
Depois de 32 dias, caminhão finalmente voltou a avançar pelos Andes
A espera terminou na terça-feira, 18 de agosto de 2026. Depois de 32 dias retido, Eduardo recebeu autorização para voltar à estrada e finalmente iniciou a travessia da região bloqueada.
Durante o percurso, encontrou uma paisagem completamente tomada pela neve. O caminhoneiro descreveu que, independentemente da direção para a qual olhava, praticamente tudo ao redor estava branco, e registrou imagens da travessia para guardar a dimensão do que havia enfrentado.
Dois dias depois, em 20 de agosto, Eduardo já estava em Santiago, aguardando o descarregamento da carne suína que havia saído de Lajeado mais de um mês antes. Depois da entrega, a programação era seguir até Curicó para realizar um novo carregamento e então iniciar o retorno ao Brasil.
A viagem que começou em 13 de julho terminou se transformando em uma das experiências mais incomuns da carreira do caminhoneiro: 32 dias parado, centenas de carretas aguardando, neve de até seis metros, uma carga mantida a -25 °C e importantes momentos familiares acompanhados à distância.
Quando finalmente conseguiu movimentar novamente o caminhão pelos Andes, Eduardo não levava apenas a carga que havia conseguido preservar. Levava também registros de uma travessia que, desta vez, levou mais de um mês para poder continuar.

