Proposta do Ministério da Agricultura pretende substituir a contagem tradicional de defeitos pelo percentual em peso dos grãos defeituosos, estabelecer novos padrões de qualidade e aproximar a classificação oficial das práticas comerciais do setor. A mudança ainda será submetida à consulta pública.
A classificação oficial do café brasileiro poderá passar por uma das mudanças mais importantes das últimas décadas, alterando a maneira como os grãos arábica e conilon são avaliados antes da comercialização. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) prepara uma revisão que substituiria a tradicional contagem de defeitos por um sistema baseado no percentual em massa dos grãos defeituosos.
A proposta foi discutida em 21 de outubro de 2026, durante um workshop realizado em Vitória, no Espírito Santo, com representantes de produtores, exportadores, pesquisadores e profissionais da cadeia cafeeira.
Segundo o Ministério da Agricultura, que divulgou os resultados do encontro em 27 de outubro, o objetivo é simplificar a classificação do produto, ampliar a transparência nas relações comerciais e aproximar os critérios oficiais das práticas utilizadas pelo mercado.
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A revisão alcança duas das principais variedades comerciais produzidas no Brasil: o café arábica, presente em grandes regiões produtoras como Minas Gerais e São Paulo, e o conilon, especialmente relevante para a cafeicultura do Espírito Santo e de Rondônia.
O impacto potencial vai além dos procedimentos laboratoriais. A classificação ajuda a estabelecer padrões de qualidade utilizados em negociações entre produtores, cooperativas, armazéns, indústrias e exportadores.
A mudança, entretanto, ainda não está em vigor. O Mapa pretende apresentar a minuta da nova regulamentação para consulta pública antes da adoção de qualquer norma definitiva.
Sistema utilizado desde 2003 poderá deixar de contar defeitos individualmente
A regulamentação vigente da Classificação Oficial Brasileira (COB) do café em grão cru tem como uma de suas principais referências a Instrução Normativa nº 8, de 11 de junho de 2003.
O sistema tradicional utiliza a identificação e a contagem de defeitos encontrados nas amostras, convertendo diferentes ocorrências em equivalências para determinar o enquadramento do produto.
Grãos pretos, verdes, quebrados e outras irregularidades podem influenciar o resultado da avaliação.
A proposta do Ministério da Agricultura modifica a lógica desse procedimento.
Em vez de depender fundamentalmente da contagem e conversão de defeitos, a classificação física passaria a utilizar o percentual de massa do material defeituoso presente na amostra.
Isso significa avaliar o peso que os defeitos representam em relação ao total examinado.
A diferença é relevante porque os dois métodos não medem exatamente a mesma coisa.
Um sistema baseado na contagem atribui equivalências aos defeitos identificados. Já o percentual em massa considera quanto o material inadequado representa fisicamente dentro da amostra.
A mudança poderá reduzir etapas de classificação e facilitar determinadas comparações entre lotes.
Isso não significa que os defeitos deixarão de ser considerados. Eles continuarão sendo avaliados, mas por outra metodologia.
Nova proposta prevê amostras de 100 gramas e cinco tipos de café
A revisão apresentada pelo Mapa também contempla alterações nos procedimentos utilizados para avaliar a qualidade física dos grãos.
De acordo com informações divulgadas pela Associação Comercial de Santos, que recebeu um workshop sobre o tema em setembro, a proposta prevê a utilização de amostras de trabalho de 100 gramas.
Os cafés seriam organizados em cinco tipos, definidos a partir de limites percentuais de defeitos e de características físicas.
A metodologia apresentada também estabelece critérios para defeitos graves, matérias estranhas e situações em que o café não atende aos padrões considerados.
Outro ponto discutido é a fixação de um teor máximo de água de 11,5%.
A umidade é uma característica importante para o armazenamento e a conservação dos grãos, influenciando as condições de manutenção da qualidade durante a circulação comercial.
A proposta contempla ainda critérios opcionais relacionados à coloração, ao formato e à granulometria.
Esses elementos mostram que o projeto não pretende simplesmente substituir uma tabela por outra.
O Ministério busca reorganizar diferentes etapas da avaliação do café, desde a análise física até características sensoriais utilizadas na diferenciação comercial.
Os parâmetros apresentados em workshops ainda dependem da conclusão do processo regulatório e poderão ser alterados durante a consulta pública.
Café especial poderá receber avaliação sensorial de 0 a 100 pontos
Uma das novidades discutidas na revisão envolve a classificação sensorial.
A proposta apresentada em setembro prevê uma estrutura em duas fases, com metodologia unificada para os cafés arábica e canéfora, grupo ao qual pertence o conilon.
Na primeira etapa, os grãos seriam enquadrados em categorias de qualidade sensorial.
A proposta utiliza cinco denominações: Especial, Fino, Superior, Comercial e Inferior.
O enquadramento levaria em consideração características sensoriais críticas para a avaliação e a precificação.
Na segunda fase, seriam utilizadas avaliações descritivas e de preferência, com pontuação em escala de zero a 100.
Pelo modelo apresentado, essa etapa seria obrigatória para os cafés classificados como especiais e facultativa para as demais categorias.
A distinção entre classificação física e avaliação sensorial é importante.
Um lote pode apresentar determinadas características físicas e, ao mesmo tempo, possuir atributos de aroma e sabor que influenciam seu posicionamento comercial.
A revisão procura organizar essas dimensões de forma mais próxima às avaliações utilizadas no mercado.
O sistema, entretanto, não garante que todo café enquadrado em uma categoria específica receberá determinado preço de venda.
O valor comercial continuará dependendo das condições de mercado, das características do lote e da negociação entre compradores e vendedores.
Estudos com 461 amostras ajudaram a construir a proposta de classificação
O projeto não surgiu apenas das discussões realizadas em Vitória.
Segundo a Associação Comercial de Santos e o Conselho Nacional do Café (CNC), a revisão foi estruturada a partir de estudos conduzidos pelo Ministério da Agricultura com participação de instituições científicas e representantes do setor.
A base técnica apresentada inclui 461 amostras de cafés provenientes de diferentes regiões produtoras.
Desse total, 149 foram obtidas de estados produtores de arábica e canéfora, enquanto outras 312 foram classificadas pela cooperativa Cooxupé.
Os estudos envolveram cafés de Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo, Bahia, Rondônia e Paraná.
A Universidade Federal de Lavras (UFLA) participou do tratamento estatístico dos dados.
O objetivo dessa etapa foi reunir informações capazes de embasar a revisão dos critérios oficiais, considerando a diversidade produtiva brasileira.
Essa abrangência é importante porque o país possui diferentes ambientes de cultivo, sistemas de processamento e características comerciais.
Um padrão nacional precisa ser tecnicamente aplicável tanto às regiões tradicionais de café arábica quanto às áreas especializadas na produção de conilon.
O uso de amostras e análises estatísticas representa uma tentativa de fundamentar as mudanças em dados observados, embora a validação regulatória também dependa das contribuições dos participantes da cadeia produtiva.
Cooperativas alertam para impactos econômicos sobre produtores e comercialização
A modernização da classificação não está sendo discutida apenas sob a perspectiva laboratorial.
O Conselho Nacional do Café acompanha o processo de revisão desde 2020 e defende que as novas regras considerem os impactos sobre a renda dos cafeicultores, as rotinas das cooperativas e a comercialização dos grãos.
Em manifestação publicada em 25 de setembro, o CNC destacou a necessidade de compatibilizar os avanços científicos com a realidade produtiva e comercial.
Essa preocupação tem uma consequência prática.
A classificação não serve apenas para descrever características de uma amostra. Seus resultados podem ser utilizados em contratos, na diferenciação de lotes e na definição de condições comerciais.
Uma alteração na metodologia pode fazer com que produtores e compradores precisem adaptar equipamentos, procedimentos de análise e parâmetros contratuais.
Também poderá exigir treinamento de classificadores e profissionais que trabalham em armazéns, cooperativas e unidades de beneficiamento.
Para o produtor, o ponto decisivo será compreender como seu café passará a ser enquadrado pelo novo método.
Uma mudança regulatória pode tornar o procedimento mais simples, mas seus efeitos econômicos não podem ser presumidos antes da definição e aplicação das regras.
O CNC defende justamente que os critérios sejam tecnicamente fundamentados e aplicáveis à diversidade da cafeicultura nacional.
Ministério da Agricultura pretende abrir consulta pública ainda em 2026
O workshop realizado em Vitória integra uma etapa de diálogo anterior ao processo regulatório formal.
Segundo o diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Vegetal (Dipov), Hugo Caruso, o Ministério está avaliando a receptividade do setor e os possíveis impactos da mudança.
A expectativa anunciada pelo Mapa é submeter a minuta da norma à consulta pública ainda em 2026.
Esse procedimento permitirá que produtores, cooperativas, exportadores, pesquisadores e outros interessados apresentem sugestões antes da conclusão da regulamentação.
Durante o encontro de 21 de outubro, também participaram representantes do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), da Universidade Federal de Lavras e de unidades de fiscalização agropecuária do Ministério.
A participação de diferentes segmentos será relevante para avaliar como a proposta funcionará no processamento, na classificação e na comercialização dos cafés.
Até a publicação de uma norma definitiva, os critérios atualmente vigentes continuam sendo a referência obrigatória nas situações previstas pela regulamentação.
O próximo passo será a divulgação da minuta para consulta pública, quando os detalhes técnicos poderão receber novas contribuições.
Para a cafeicultura brasileira, a discussão representa mais do que uma atualização administrativa: trata-se de definir como a qualidade física e sensorial dos grãos será reconhecida oficialmente e como essa avaliação poderá se relacionar com as práticas comerciais de um dos produtos agrícolas mais importantes do país.
