Mistura E32 entrou em vigor em agosto por período inicial de 180 dias e amplia o mercado para o etanol, enquanto empresas avaliam expansão de usinas e novos projetos de combustíveis renováveis no Brasil.
O Brasil passou a usar gasolina com 32% de etanol anidro, a chamada E32, em 1º de agosto de 2026, elevando em dois pontos percentuais a mistura obrigatória que chega aos postos. A mudança amplia a demanda pelo biocombustível produzido no país e ocorre enquanto empresas do setor avançam com expansão de plantas, novas biorrefinarias e projetos ligados a combustíveis de baixo carbono.
Segundo o Valor Econômico, em reportagem publicada em 30 de setembro de 2026, o setor recebeu a ampliação da mistura com otimismo e passou a responder ao novo cenário com investimentos privados. A documentação do Ministério de Minas e Energia mostra que o E32 tem validade inicial de 180 dias, prorrogável uma vez pelo mesmo período.
E32 amplia o mercado para etanol e reduz espaço da gasolina importada

A elevação de 30% para 32% aumenta diretamente a quantidade de etanol anidro necessária para cada litro de gasolina comercializado no país. O Ministério de Minas e Energia estima que a mudança permita ao Brasil reduzir em aproximadamente 900 milhões de litros por ano a necessidade de gasolina importada.
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A avaliação de representantes do setor aponta para uma demanda adicional próxima de 1 bilhão de litros de etanol por ano. Renato Cunha, presidente da NovaBio, estimou em julho que a alteração amplia em cerca de 6,6% o mercado potencial do etanol anidro e pode acrescentar entre 900 milhões e 1 bilhão de litros às vendas do combustível.
A decisão também modifica as referências usadas pelas empresas para planejar capacidade e produção. O movimento entra em uma nova fase com uma demanda obrigatória maior, ainda que o percentual de 32% tenha sido aprovado inicialmente de forma temporária.
Produção de etanol pode chegar a novo recorde no Centro-Sul
O aumento da mistura encontra um setor que já vinha ampliando a oferta. A StoneX projetou para a safra 2026/27 produção de aproximadamente 38 milhões de metros cúbicos de etanol no Centro-Sul, volume 12,7% maior que no ciclo anterior e que, se confirmado, representará um recorde histórico para a região.
Parte desse avanço não depende apenas da cana-de-açúcar. O etanol de milho vem ganhando participação na produção brasileira e permite ampliar a oferta em regiões onde a disponibilidade do grão cria condições para novas unidades ou para a adaptação de estruturas existentes.
No Norte e Nordeste, a StoneX estima produção total de 4,3 milhões de metros cúbicos em 2026/27, alta anual de 23%. A projeção considera, entre outros fatores, a expectativa de entrada de três novas unidades de etanol de milho.
Novas biorrefinarias ampliam o alcance dos biocombustíveis
A expansão não se limita ao etanol usado nos automóveis. As diretrizes do governo para combustíveis de baixo carbono incluem estímulo a biorrefinarias capazes de produzir combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, diesel renovável, nafta verde e bioGLP, além da ampliação do etanol convencional, de milho e de segunda geração.
Esse conjunto de tecnologias amplia as possibilidades de investimento porque permite utilizar diferentes matérias-primas e atender mercados distintos. A mesma política também prevê integração de plantas de biometano com cadeias de gás natural, agroindústria e tratamento de resíduos sólidos, além de investimentos em infraestrutura de escoamento, armazenagem e terminais.
Em agosto, a Fenasucro & Agrocana recebeu potenciais investidores estrangeiros interessados em projetos de SAF, e-SAF e instalação de biorrefinarias. Segundo a Brasil Energia, as oportunidades prospectadas naquele momento somavam potencial estimado de US$ 7 bilhões.
Lei do Combustível do Futuro sustenta planejamento de longo prazo
O E32 faz parte da implementação da Lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu instrumentos para ampliar gradualmente a participação de combustíveis renováveis no transporte brasileiro. Segundo estimativa apresentada pelo Ministério de Minas e Energia, os segmentos abrangidos pela legislação podem mobilizar aproximadamente R$ 260 bilhões em investimentos até 2037.
A existência de regras para misturas maiores cria uma referência para decisões que envolvem usinas, fornecedores de equipamentos, produtores agrícolas e infraestrutura. Para projetos industriais de longo prazo, previsibilidade de demanda e condições regulatórias são componentes usados pelas empresas na avaliação de novos aportes.
Ao mesmo tempo, o percentual atual não encerra a discussão. O governo já iniciou a preparação de testes para gasolina com 35% de etanol anidro, o E35, prevista como próximo limite a ser tecnicamente avaliado. A adoção definitiva de uma mistura superior dependerá dos resultados desses ensaios.
A cadeia, portanto, passou a trabalhar com um horizonte mais amplo, que inclui desde aumento da produção de etanol até combustíveis para aviação e diesel renovável.
E32 ainda é temporário e avanço para E35 dependerá de testes
Apesar do aumento da demanda, a mistura de 32% não foi estabelecida inicialmente como percentual permanente. A resolução do CNPE determinou vigência de 180 dias a partir de 1º de agosto, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período.
Os estudos conduzidos para o E32 avaliaram veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina, incluindo partida a frio e a quente, dirigibilidade, aceleração, retomada e emissões. Segundo o MME, os testes não apontaram impactos relevantes no desempenho ou na dirigibilidade da frota avaliada.
Para percentuais iguais ou superiores a 35%, porém, serão necessários novos ensaios, incluindo avaliações específicas de durabilidade. Essa etapa será determinante para saber se a expansão da mistura continuará além do E32 e em quais condições regulatórias.
Até lá, o setor trabalha com o aumento já vigente e com uma demanda adicional criada pela mistura de 32%. Os novos projetos de produção e biorrefino avançam em paralelo, enquanto a próxima decisão sobre o percentual de etanol dependerá dos testes técnicos previstos para o E35.
