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Aos 9 anos, boia-fria de Matipó começou a trabalhar nas lavouras de café, estudou à noite numa mesa improvisada com tijolos e uma tábua, conquistou bolsa integral em Medicina Veterinária, virou professor e chegou ao doutorado na UFV

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 12/08/2026 às 17:38 Atualizado em 12/08/2026 às 17:39
De boia-fria a doutorando na UFV, Adriano venceu a rotina no cafezal, estudou com recursos improvisados e formou-se em Veterinária.
De boia-fria a doutorando na UFV, Adriano venceu a rotina no cafezal, estudou com recursos improvisados e formou-se em Veterinária.
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Trajetória construída entre lavouras de café, estudo noturno e recursos improvisados levou um trabalhador rural do interior mineiro ao ensino superior, à docência e à pesquisa científica, em um percurso marcado por bolsa integral, formação em Medicina Veterinária e avanço até a pós-graduação na Universidade Federal de Viçosa.

Adriano Sílvio Neto começou a trabalhar nas lavouras de café de Matipó, na Zona da Mata de Minas Gerais, quando tinha 9 anos, dividindo desde a infância o tempo entre o serviço no campo e os estudos em uma família de trabalhadores rurais.

Anos depois, esse percurso o levaria da condição de boia-fria à formação em Medicina Veterinária, à docência universitária e ao doutorado na Universidade Federal de Viçosa, construindo uma trajetória acadêmica que nasceu em meio a limitações financeiras e trabalho braçal.

Sem cursinho, internet ou estrutura adequada para estudar, Adriano se preparava à noite depois do expediente na lavoura, recorrendo a livros antigos do ensino médio e organizando o material em um espaço improvisado dentro de casa.

Segundo reportagem de O Folha de Minas, para ter onde apoiar os livros durante a preparação para o Enem, ele montou uma mesa com tijolos e uma tábua, solução simples que passou a acompanhar suas noites de estudo.

Boia-fria desde a infância nas lavouras de café de Matipó

O esforço para continuar estudando acontecia dentro de uma realidade marcada pelo trabalho desde cedo, já que Adriano cresceu ao lado dos pais, avós, irmãos e tios nas lavouras de café, enquanto a renda familiar permanecia limitada.

Mesmo após concluir o ensino médio, ingressar imediatamente em uma faculdade não cabia nas possibilidades financeiras da família, razão pela qual a preparação para tentar uma vaga precisou ser construída com os recursos disponíveis em casa.

Bolsa integral abriu caminho para Medicina Veterinária

A oportunidade de entrar no ensino superior surgiu por meio do Programa Universidade para Todos, o Prouni, que permitiu a Adriano conquistar uma bolsa integral e cursar Medicina Veterinária sem assumir o valor integral das mensalidades.

Ao concluir a graduação com louvor, ele deixou para trás a condição de estudante que conciliava limitações materiais com o objetivo de chegar à universidade e passou a abrir uma nova etapa profissional diretamente ligada às ciências animais.

Da graduação à docência e à Universidade Federal de Viçosa

De boia-fria a doutorando na UFV, Adriano venceu a rotina no cafezal, estudou com recursos improvisados e formou-se em Veterinária.
De boia-fria a doutorando na UFV, Adriano venceu a rotina no cafezal, estudou com recursos improvisados e formou-se em Veterinária.

Depois de formado, Adriano começou a atuar como professor, levando para a sala de aula uma trajetória construída entre o campo e os estudos, enquanto a carreira acadêmica avançava para uma nova fase na Universidade Federal de Viçosa.

Na UFV, ingressou no mestrado em Bioquímica Aplicada e desenvolveu pesquisa relacionada à catarata canina, experiência que ampliou sua atuação científica e abriu caminho para uma etapa até então distante da rotina de trabalho nas lavouras de café.

Na sequência da pós-graduação, Adriano avançou para o doutorado em Medicina Veterinária na própria universidade, onde também passou a integrar grupos de pesquisa ligados ao diagnóstico por imagem e à biotecnologia veterinária, ampliando sua presença no ambiente científico.

Apesar do avanço acadêmico, a ligação com a região onde cresceu permaneceu presente em sua rotina profissional, já que ele também passou a lecionar em Manhuaçu e a atuar como médico-veterinário na rede pública do município mineiro.

Nesse novo cenário, formação universitária, pesquisa e exercício profissional passaram a coexistir na mesma região em que Adriano havia vivido e trabalhado desde a infância, aproximando sua trajetória acadêmica das origens construídas no interior de Minas Gerais.

Pesquisa científica ampliou a trajetória acadêmica

O reconhecimento acadêmico também chegou por meio de congressos da área, e Adriano recebeu, em 2022, uma menção honrosa em um evento científico relacionado ao diagnóstico por imagem, além de participar de grupos de pesquisa e atividades científicas.

Paralelamente à atuação profissional, outra parte de sua história começara a ser registrada ainda na juventude, quando, aos 17 anos, Adriano passou a escrever sobre o cotidiano, a vida familiar e as experiências acumuladas desde a infância no campo.

Essas anotações deram origem ao livro Diário de um Boia-Fria, publicado em 2019, reunindo memórias do trabalho rural, da convivência familiar e do percurso educacional que antecedeu sua entrada no ensino superior e o início da carreira profissional.

O lançamento aconteceu na Escola Estadual do Bairro Boa Vista, em Matipó, onde ele havia estudado, fazendo a publicação retornar justamente ao ambiente escolar frequentado por Adriano antes da graduação, da pós-graduação e de sua posterior atuação como professor.

Depois da publicação, a história inicialmente registrada de forma pessoal passou a circular também em escolas, universidades e palestras, enquanto Adriano apresentava a própria trajetória educacional em espaços ligados ao ensino e à formação acadêmica.

Livros antigos e mesa improvisada marcaram a preparação para o Enem

Muito antes da bolsa integral, porém, a preparação noturna permanecia condicionada aos recursos disponíveis dentro de casa, sem computador para pesquisas, cursinho preparatório ou livros novos que pudessem facilitar o caminho de Adriano até o exame de ingresso.

Nesse cenário de recursos limitados, os materiais escolares antigos e a mesa improvisada com uma tábua apoiada sobre tijolos tornaram-se instrumentos recorrentes de estudo, usados por ele para revisar conteúdos e organizar a preparação necessária para o Enem.

Quando chegou ao curso de Medicina Veterinária, a relação de Adriano com os estudos mudou de dimensão, porque a educação, antes disputando espaço com a rotina da lavoura e as dificuldades financeiras, também passou a definir sua profissão.

A partir da graduação, a docência entrou em sua rotina, enquanto a pós-graduação aproximou sua carreira da pesquisa científica e ampliou a presença de Adriano em atividades relacionadas à saúde animal, ao ensino superior e à formação universitária.

Doutorado na UFV ampliou atuação na Medicina Veterinária

Já na Universidade Federal de Viçosa, o mestrado permitiu desenvolver atividades acadêmicas que posteriormente teriam continuidade no doutorado, ao mesmo tempo em que Adriano mantinha sua atuação profissional como médico-veterinário e professor na região de Manhuaçu.

A carreira construída após a graduação passou, assim, a reunir atendimento profissional, ensino e pesquisa, com participação em atividades científicas ligadas à Medicina Veterinária e atuação tanto na Faculdade do Futuro quanto na rede pública municipal.

Em paralelo às atividades acadêmicas e profissionais, o livro produzido a partir dos registros iniciados na juventude acrescentou outra frente à trajetória, levando Adriano a participar de palestras em escolas e universidades e apresentar experiências acumuladas desde os anos de trabalho rural.

O diário iniciado quando ele ainda buscava maneiras de continuar estudando transformou-se, anos depois, em um registro público da passagem das lavouras para a universidade, preservando episódios anteriores à formação profissional, à docência e ao desenvolvimento da carreira acadêmica.

Aos 9 anos, o cotidiano de Adriano estava ligado ao trabalho no café; mais tarde, as noites de preparação para o Enem seriam ocupadas por livros antigos apoiados sobre uma mesa montada com materiais disponíveis em casa.

Na sequência vieram a bolsa integral, a graduação em Medicina Veterinária, a sala de aula como professor, o mestrado, a pesquisa científica e o ingresso no doutorado, etapas que ampliaram progressivamente o espaço ocupado pelos estudos em sua vida.

Para quem precisa conciliar trabalho pesado, poucos recursos financeiros e uma rotina constante de estudos, qual oportunidade pode fazer a maior diferença entre interromper os planos educacionais e conseguir construir um caminho até a universidade e avançar para novas etapas acadêmicas?

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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