Depois de mais de 15 anos longe dos estudos, Janecleia voltou às salas de aula sem dinheiro para cursinho, disputou bolsas em preparatórios e insistiu por 12 anos até ver o próprio nome entre os aprovados em Medicina
Aos 49 anos, depois de passar boa parte da vida trabalhando para sustentar a família, Janecleia Sueli Maia Martins conseguiu uma vaga no curso de Medicina da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Salvador. Moradora de Petrolina, no Sertão de Pernambuco, ela precisaria deixar a família e percorrer quase 500 quilômetros para transformar um sonho de infância em rotina universitária.
Conhecida como Jane, ela havia passado por trabalhos como caixa de supermercado, faxineira, cozinheira e passadeira. O dinheiro era usado para as despesas de casa e, durante muitos anos, pagar uma faculdade ou mesmo um curso preparatório estava fora do orçamento.
A aprovação veio somente na 12ª tentativa, depois de anos enfrentando vestibulares e comentários de pessoas que consideravam sua idade um obstáculo. Quando o resultado da seleção da Uneb foi divulgado, em 27 de fevereiro de 2023, ela nem se lembrava de que a lista sairia naquele dia.
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Segundo reportagem publicada pelo UOL em 9 de março daquele ano, Janecleia recebeu as primeiras notícias da aprovação por mensagens de amigos e demorou alguns minutos para acreditar. A vaga significava entrar em Medicina aos 49 anos, mais de três décadas depois de ela ter colocado os estudos em segundo plano para trabalhar e criar os filhos.
O sonho de ser médica começou aos 11 anos, mas casamento, filhos e a necessidade de trabalhar mudaram seus planos

Janecleia dizia querer ser médica desde os 11 anos. Aos 16, já havia concluído o ensino médio, casou-se e interrompeu a trajetória escolar. Um ano depois tornou-se mãe pela primeira vez e, aos 24, teve o segundo filho.
A prioridade passou a ser outra. Era preciso trabalhar para colocar comida dentro de casa, e a possibilidade de dedicar anos à preparação para um dos cursos mais disputados do país ficou distante.
A história começou a mudar em 2010, quando Jane, então com cerca de 36 anos, decidiu voltar a estudar e colocar Medicina novamente como objetivo. Depois de mais de 15 anos afastada das salas de aula, ela relatou ter encontrado conteúdos diferentes daqueles que conhecia e precisou praticamente recomeçar a preparação.
Sem dinheiro para pagar regularmente um cursinho particular, buscava bolsas destinadas a estudantes vindos de escolas públicas e também recorria a ajuda quando não conseguia uma vaga gratuita. Em entrevista reproduzida pela imprensa pernambucana na época, ela contou que estudava enquanto continuava trabalhando e cuidando das responsabilidades familiares.
Há ainda uma correção cronológica em relação a relatos publicados quando a história ganhou repercussão. Embora algumas reportagens tenham associado a retomada dos estudos em 2010 à chegada de Medicina à Univasf, a própria Universidade Federal do Vale do São Francisco informa que o curso de Medicina do Campus Sede de Petrolina foi criado em 2004, no início das atividades da instituição.
A cada tentativa frustrada, ela ouvia que estava velha demais para começar Medicina
A preparação se estendeu por anos. Janecleia passou a disputar seleções de instituições estaduais e federais no Nordeste enquanto continuava trabalhando, principalmente passando roupas.
Além da dificuldade acadêmica e financeira, surgiu outro obstáculo. Pessoas próximas questionavam o sentido de tentar começar uma graduação tão longa depois dos 40 anos. “O que eu mais ouvi é que estava velha para isso”, contou ela ao relembrar as reações que recebia quando dizia que prestaria Medicina.
Mesmo assim, os vestibulares continuaram. O período de preparação chegou a 12 anos e incluiu sucessivas reprovações até a seleção da Uneb de 2023.
Pouco antes da prova que finalmente mudaria a sequência de resultados, Janecleia enfrentou a morte do pai. Ela chegou a considerar desistir daquele vestibular, mas decidiu comparecer porque já havia feito a inscrição como candidata de baixa renda.
Foi justamente na prova feita em um momento de pouca expectativa que veio a aprovação. O curso escolhido era oferecido pela Uneb no Campus I, em Salvador, dentro do Departamento de Ciências da Vida, o que significava trocar Petrolina pela capital baiana para frequentar Medicina.
Depois da aprovação surgiu outro problema e ela chegou a Salvador com apenas R$ 30 no bolso
Passar no vestibular resolveu apenas uma parte da dificuldade. Janecleia precisava garantir a matrícula rapidamente e não tinha dinheiro sequer para a viagem completa entre Petrolina e Salvador.
A família se mobilizou para conseguir recursos. O custo estimado das passagens de ida e volta era de cerca de R$ 350, mas ela comprou inicialmente apenas o trecho de ida e viajou para a Bahia levando outros R$ 30.
Depois de entregar a documentação e efetuar a matrícula, voltou para a rodoviária de Salvador. Enquanto aguardava, a filha buscava ajuda de amigos para conseguir dinheiro suficiente para comprar a passagem de volta a Petrolina.
Outro relato publicado sobre a viagem informa que Janecleia levou água e biscoitos de casa e ficou na rodoviária até que a família conseguisse os recursos necessários. A situação mostrava que, mesmo depois de 12 tentativas e da aprovação, permanecer no curso seria uma dificuldade financeira tão concreta quanto entrar nele.
Uma vaquinha foi criada para bancar os primeiros meses longe de casa
Com a matrícula garantida, a preocupação passou a ser como morar em Salvador e frequentar um curso integral distante de Petrolina. A filha criou uma campanha de arrecadação para ajudar a mãe nos primeiros meses.
Jane também pretendia procurar a assistência estudantil da universidade e verificar a possibilidade de conseguir apoio para moradia. Caso o dinheiro não fosse suficiente, dizia estar preparada para continuar passando roupas ou fazendo faxinas enquanto estudava.
A UNEB mantém uma Pró-Reitoria de Assistência Estudantil, estrutura responsável por programas e atendimento voltados à permanência de estudantes na instituição. Para alguém que chegava a Salvador sem renda suficiente para manter aluguel e despesas por vários anos, esse tipo de suporte poderia ser decisivo.
As aulas estavam previstas para começar em 13 de março de 2023. Naquele momento, a meta declarada por Janecleia era concluir a graduação e tornar-se a primeira médica da família.
A história, porém, ganhou um novo capítulo depois da aprovação
A repercussão nacional da aprovação foi seguida por uma controvérsia envolvendo a modalidade pela qual Janecleia entrou na universidade. Ela havia concorrido por uma vaga reservada a candidatos negros oriundos de escola pública, e sua autodeclaração racial passou a ser questionada.
Em fevereiro de 2024, o Ministério Público da Bahia recomendou oficialmente que a Uneb instaurasse procedimentos administrativos para analisar a autodeclaração de sete estudantes cotistas matriculados em Medicina. O MP-BA afirmou que a universidade deveria garantir análise por comissão especializada, contraditório e ampla defesa antes das decisões finais.
Em abril de 2024, a Agência Sertão informou, com base em portaria publicada no Diário Oficial da Bahia, que a Uneb decidiu cancelar a matrícula de Janecleia após o processo administrativo. A reportagem também registrou que uma comissão departamental havia anteriormente emitido parecer favorável à estudante, mostrando que o caso passou por diferentes etapas de avaliação dentro da instituição.
A controvérsia não desapareceu naquele momento. Em 28 de novembro de 2024, Janecleia participou de uma audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados sobre os desafios das bancas de heteroidentificação. No registro oficial do evento, ela aparece identificada como “estudante – UNEB” e participou de diferentes momentos do debate.
Não foi localizado, nas fontes públicas consultadas, um documento oficial posterior que permita afirmar com segurança qual é sua situação acadêmica definitiva atualmente. Por isso, a aprovação obtida aos 49 anos continua sendo um fato documentado, mas o desdobramento envolvendo a matrícula precisa acompanhar a história para que o relato não pare em março de 2023.
A trajetória de Janecleia chama atenção pela sequência de mais de 15 anos longe dos estudos, 12 tentativas, trabalho para sustentar a família e uma aprovação em Medicina aos 49 anos, além da controvérsia que surgiu posteriormente sobre a vaga. E você, o que pensa sobre alguém voltar a estudar depois de décadas e insistir tantas vezes por uma graduação? Deixe sua opinião nos comentários e conte se você conhece uma história parecida.
