Trajetória de Kátia reúne anos de vida em circo, um resgate do Ibama, passagem por um zoológico cearense e uma longa disputa por transferência, em uma história marcada por mudanças de ambiente, cuidados veterinários e questionamentos sobre as condições climáticas enfrentadas pela ursa-parda.
Em agosto de 2019, depois de anos no Zoológico São Francisco, em Canindé, no Ceará, a ursa-parda Kátia deixou o município rumo ao Rancho dos Gnomos, em Joanópolis, no interior paulista, por determinação judicial que colocou o calor regional no centro da discussão.
Antes de seguir para São Paulo, a trajetória da ursa já havia mudado de rumo em 2011, quando o Ibama a apreendeu em um circo de Quatipuru, no Pará, ao retirar quatro ursos e encaminhar Kátia para o município cearense.
Resgate do Ibama levou Kátia ao Ceará
Na ocasião da apreensão, Kátia tinha 18 anos e pesava cerca de 250 quilos, segundo registro publicado pelo Diário do Nordeste em agosto de 2011, que também apontava pelo menos 14 anos de permanência em uma jaula improvisada ligada à rotina circense.
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Em contraste com o espaço anterior, descrito com aproximadamente dois metros por dois metros, o recinto preparado em Canindé oferecia cerca de 200 metros quadrados, piscina e acompanhamento de profissionais encarregados do processo de recuperação física da ursa após a retirada do circo.
Responsável pelo atendimento no Zoológico São Francisco, o veterinário Henrique Weber afirmou naquela época que a prioridade era recuperar a saúde do animal, enquanto outro profissional citado pela reportagem informou que o Ibama já monitorava o circo havia dois anos antes da apreensão.
Com o passar dos anos, porém, a discussão deixou de se concentrar apenas na estrutura oferecida pelo zoológico e passou a envolver a possibilidade de transferir Kátia e Dimas, outro urso-pardo mantido no local, para uma região de temperaturas mais amenas.
Clima de Canindé passou ao centro da disputa
Foi nesse contexto que entidades de proteção animal ampliaram a mobilização pela mudança, levando ao Judiciário a situação dos dois ursos e o argumento de que o clima enfrentado em Canindé diferia das condições naturalmente associadas à espécie.

Em junho de 2019, a juíza Tássia Fernanda de Siqueira, da 3ª Vara da Comarca de Canindé, determinou a transferência dos dois ursos após ação civil pública apresentada pela Associação Brasileira dos Defensores dos Direitos e Bem Estar dos Animais.
Já no ano anterior, a campanha pela mudança de endereço havia ganhado força quando a ativista Luisa Mell levou à Justiça o argumento de que os animais estavam submetidos a condições climáticas muito diferentes daquelas naturalmente associadas à espécie.
Durante a cobertura do processo de transferência, o Diário do Nordeste registrou que fundadores do Rancho dos Gnomos consideravam as temperaturas da Serra da Mantiqueira mais adequadas aos ursos e afirmavam que o calor de Canindé podia chegar a cerca de 40 graus.
Ainda assim, o mesmo relato destacou que os animais eram bem tratados no zoológico cearense, separando a controvérsia sobre as condições climáticas de uma acusação de maus-tratos contra a equipe responsável pelos cuidados prestados durante a permanência dos ursos no município.
Operação de transferência passou por Fortaleza
Na manhã de 28 de agosto de 2019, a operação de saída começou com Kátia e Dimas colocados em caixas fabricadas em Canindé e transportados em caminhão-guincho até Fortaleza, sob acompanhamento de veterinários, biólogos e funcionários ligados ao zoológico.
Para completar o deslocamento, a logística previa voos separados para os animais, enquanto o comboio terrestre deixou Canindé no fim da tarde rumo à capital cearense, etapa necessária para cumprir uma transferência decidida judicialmente meses antes e ainda dependente de preparação operacional.
Do outro lado da viagem, o recinto construído em Joanópolis para receber os ursos tinha cerca de 1.900 metros quadrados e reunia gramado, piscina com capacidade para 80 mil litros, cascata, grutas, deck, troncos, árvores frutíferas e outros elementos de ambientação.
Essa diferença de escala marcou uma nova etapa na trajetória de Kátia: em 2011, o registro de sua apreensão descrevia uma jaula de dois metros por dois metros, enquanto o espaço paulista havia sido planejado especificamente para receber animais daquele porte.
Mudança para Joanópolis encerrou a espera
Depois de uma longa passagem por circo, Kátia encontrou em Canindé uma estrutura maior do que aquela descrita no momento do resgate, mas a discussão sobre seu destino ganhou outro eixo quando o clima passou a ser tratado como fator decisivo.
Por fim, a saída reuniu decisão judicial, mobilização de entidades e uma operação logística para retirar os dois ursos do interior cearense e levá-los à Serra da Mantiqueira, onde encontrariam temperaturas mais amenas do que aquelas registradas em Canindé.
Se o zoológico oferecia cuidados e estrutura, mas o clima continuava considerado inadequado para a espécie, até que ponto a temperatura do lugar deveria pesar na decisão sobre onde um animal resgatado passaria os anos seguintes de sua vida?


