Afinador abre piano doado a escola e encontra 913 moedas de ouro, cerca de 6 kg de metal precioso escondidos havia décadas sob o teclado.
Martin Backhouse esperava encontrar cordas desafinadas, peças desgastadas e problemas mecânicos quando começou a trabalhar em um antigo piano vertical pertencente à Bishop’s Castle Community College, em Shropshire, na Inglaterra. Ao retirar as teclas, porém, o técnico encontrou pacotes cuidadosamente escondidos no interior do instrumento. Dentro deles estavam 913 moedas de ouro, entre soberanos e meios soberanos, pesando mais de 6 quilos e cunhadas entre 1847 e 1915.
Segundo a ITV News, o conjunto continha 633 soberanos e 280 meios soberanos, com moedas dos reinados de Victoria, Edward VII e George V. A coleção foi tratada na época como o maior conjunto conhecido desse tipo de moeda de ouro encontrado no Reino Unido e teve valor associado a aproximadamente 500 mil libras, montante equivalente hoje a cerca de R$ 3,5 milhões. A descberta pelo afinador ocorreu em 2017.
Afinador retirou as primeiras teclas e percebeu que havia algo pesado sob o teclado
A descoberta ocorreu depois que o piano foi entregue à escola e precisou passar por manutenção. Martin Backhouse, então com 61 anos, foi chamado para afinar e reparar o instrumento, um piano vertical fabricado pela tradicional Broadwood & Sons.
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Quando começou a retirar as teclas, Backhouse percebeu que havia objetos ocupando espaços onde normalmente não deveria existir nada. Os volumes estavam cuidadosamente embalados e eram pesados demais para serem simples materiais usados na manutenção do instrumento.
Ao abrir um dos pacotes, encontrou moedas de ouro. Backhouse recolocou inicialmente partes do piano no lugar e procurou a direção da escola, que então comunicou a descoberta às autoridades responsáveis pelo tratamento de achados que poderiam ser classificados legalmente como tesouro.
Eram 913 moedas embaladas para caber exatamente dentro do piano
A quantidade só ficou clara depois que todo o compartimento foi examinado.
Especialistas contabilizaram 913 moedas, divididas em 633 soberanos e 280 meios soberanos. As peças haviam sido escondidas de maneira organizada em pacotes de tecido e em uma pequena bolsa, acomodados deliberadamente sob o conjunto de teclas.
O volume de metal era extraordinário. Segundo a ITV News, as moedas apresentavam ouro com pureza de aproximadamente 91,7%, e o conjunto representava o equivalente a mais de 6 quilos de ouro.
O esconderijo havia sido planejado de modo que o instrumento pudesse continuar existindo normalmente sem revelar o conteúdo. Para alguém observando o piano por fora, não havia qualquer indicação de que uma fortuna estivesse guardada sob o teclado.
Moedas atravessavam os reinados de Victoria, Edward VII e George V
A datação revelou um intervalo de quase sete décadas. A moeda mais antiga havia sido produzida em 1847, durante o reinado da rainha Victoria. A peça mais recente era de 1915, já durante o governo de George V. Entre elas também estavam moedas cunhadas no período de Edward VII.
O Shropshire Council confirmou oficialmente que o conjunto atravessava os três reinados e que a diferença entre as datas ajudava a estabelecer um limite cronológico para o esconderijo: como havia uma moeda de 1915, o ouro necessariamente foi colocado no piano depois daquele ano.
A maior parte das moedas, contudo, era do período vitoriano, quando o soberano de ouro funcionava como uma das moedas mais reconhecidas do Império Britânico.
Uma embalagem de cereal ajudou a descobrir quando o ouro provavelmente foi escondido
A pista mais curiosa não estava nas moedas. Entre os materiais utilizados para preencher e proteger os pacotes, pesquisadores encontraram um pedaço de cartão associado à embalagem do cereal Shredded Wheat. A evidência ajudou os especialistas a restringir ainda mais o período em que o conjunto poderia ter sido colocado no instrumento.
A análise levou à hipótese de que as moedas tenham sido reorganizadas ou escondidas durante a época da Grande Depressão ou em período próximo.
O elemento era particularmente importante porque as próprias moedas apenas permitiam afirmar que o esconderijo era posterior a 1915.
Assim, um pedaço aparentemente banal de embalagem tornou-se uma pista para reconstruir um dos maiores mistérios da história do piano: quem decidiu transformar um instrumento musical em cofre e por que nunca voltou para buscar o ouro.
Piano havia sido vendido originalmente em 1906 e passou décadas com paradeiro incompleto
A investigação voltou no tempo até a fabricação do instrumento. De acordo com o Shropshire Council, o piano Broadwood & Sons foi originalmente vendido em 1906 para Beavan and Mothersole, estabelecimento ligado a professores de música e afinadores de piano em Saffron Walden, no condado de Essex.
Depois disso surge um enorme intervalo. As autoridades conseguiram reconstruir de maneira segura a trajetória do instrumento a partir de 1983, mas não determinaram completamente quem controlou o piano entre 1906 e aquele ano.

Em 1983, o instrumento foi adquirido por uma família de Saffron Walden. Décadas depois, o piano terminaria doado à Bishop’s Castle Community College, sem que os antigos proprietários soubessem que centenas de moedas estavam escondidas em seu interior.
Família teve o piano por 33 anos sem imaginar que uma fortuna estava dentro dele
Graham e Meg Hemmings mantiveram o instrumento por aproximadamente 33 anos antes de entregá-lo à escola.
Durante todo esse período, o ouro permaneceu praticamente ao alcance das mãos. Bastaria desmontar a região correta sob o teclado para encontrar os pacotes, mas isso nunca aconteceu enquanto o piano estava com a família.
Quando o tesouro finalmente apareceu, os Hemmings não puderam demonstrar que as moedas pertenciam a eles ou a seus antepassados. A investigação indicava que o dinheiro havia sido colocado no piano muito antes da compra realizada pela família em 1983.
A ironia é central para o caso: durante mais de três décadas, uma família possuiu um objeto no qual estava escondida uma fortuna sem jamais saber que ela existia.
Autoridades abriram investigação para tentar encontrar o verdadeiro dono
O achado não poderia simplesmente ser dividido entre a escola e o afinador. O caso chegou ao legista sênior de Shropshire, John Ellery, porque a legislação britânica exigia determinar se as moedas se enquadravam juridicamente como tesouro.
Em janeiro de 2017, foi aberto procedimento para investigar a origem do conjunto e procurar possíveis proprietários ou herdeiros.
O Shropshire Council chegou a divulgar um pedido público de informações. Pessoas que acreditassem conhecer a história do piano, seus antigos proprietários ou a origem do ouro poderiam apresentar evidências.
A investigação recebeu possíveis alegações de propriedade, mas nenhuma conseguiu comprovar direito sobre as 913 moedas. Sem um proprietário original ou herdeiro legítimo identificado, o processo avançou para a declaração formal do conjunto como tesouro.
Afinador e escola ficaram na posição de receber a recompensa
A honestidade de Martin Backhouse alterou completamente o destino do conjunto.
Em vez de retirar discretamente algumas moedas ou esconder a descoberta, ele avisou a escola. A instituição, por sua vez, comunicou o caso oficialmente. Esse caminho permitiu que arqueólogos e especialistas documentassem todas as peças e reconstruíssem a história do piano.
Depois da declaração como tesouro, a ITV News informou que qualquer recompensa seria destinada ao afinador, como descobridor, e à Bishop’s Castle Community College, proprietária do piano naquele momento.
Os Hemmings, embora tivessem possuído o instrumento por décadas, não eram considerados proprietários do tesouro escondido anteriormente e não ficaram na mesma posição jurídica para receber a recompensa.
Valor de cerca de 500 mil libras transforma descoberta em fortuna de R$ 3,5 milhões
O valor nominal das moedas era muito menor que seu significado econômico moderno.
A ITV News registrou um valor facial total de aproximadamente 773 libras para o conjunto. Na época em que o dinheiro foi escondido, porém, essa quantia tinha enorme poder de compra. A emissora comparou o montante ao necessário para adquirir uma casa de quatro quartos.
Estimativas divulgadas durante o caso colocaram o valor moderno do conjunto na região de 500 mil libras.
Mas o aspecto histórico tornou o caso mais importante do que o simples preço do metal. Centenas de soberanos haviam permanecido ocultos dentro de um piano, atravessado mudanças de proprietários e sobrevivido sem serem percebidos por décadas.
Uma simples afinação revelou seis quilos de ouro que ninguém voltou para buscar
O mistério central nunca foi totalmente resolvido.
Sabe-se que o piano foi fabricado e vendido em 1906, que as moedas chegam até 1915 e que materiais encontrados nos pacotes indicam que o tesouro foi escondido ou reorganizado anos depois. Também se sabe que o instrumento passou por diferentes mãos até terminar numa escola de Shropshire.
O que permanece desconhecido é quem juntou as 913 moedas, por que escolheu um piano como esconderijo e, sobretudo, por que nunca voltou para recuperar uma quantidade tão grande de ouro.
No fim, o segredo não foi revelado por uma escavação arqueológica, detector de metais ou investigação policial. Bastou um afinador retirar algumas teclas de um piano doado a uma escola e perceber que havia algo pesado onde não deveria existir nada.
Debaixo daquele teclado estavam 633 soberanos, 280 meios soberanos, mais de 6 quilos de ouro e uma fortuna equivalente hoje a aproximadamente R$ 3,5 milhões, escondida durante décadas dentro de um instrumento que continuou mudando de dono sem revelar o que carregava.

